A ILUSÃO DO SENTIDO

20:18




- Me passa essa garrafa. 
A voz do garoto rompeu um silêncio que Alicia preferia que tivesse permanecido impenetrável.
Talvez pelo tempo em que permaneceu naquela posição, deitada na grama úmida e fria, com as pernas desleixadamente cruzadas e os braços apoiando a cabeça, ela agora notava uma dor latejante nas costas. Era aquele tipo de dor que você sente quando dorme de barriga para cima. Bem incômoda. Mas ela não estava pretendendo se mover.  
Devagar, Alicia virou a cabeça, surpreendentemente pesada, para Guilherme, o amigo que lhe pedira algo há poucos segundos. Ele tinha olhos impacientes, com um brilho fraco e sutil. Alicia se perguntou se os olhos dela também brilhavam daquele jeito. 
- Meu Deus, Alicia, você está bem? - Guilherme perguntou preguiçosamente ao perceber que a amiga o encarava. 
Alicia não respondeu, só pegou a garrafa de cerveja ao seu lado e a entregou ao amigo. No momento em que sua mão se livrou do objeto, a garota deixou o braço cair vigorosamente no chão e voltou a encarar o céu. "Ai", ela pensou. O contato do braço com a terra foi mais dolorido do que ela havia previsto. 
- Alicia. O que você andou fumando? - Guilherme insistia. 
- Você sabe que eu não fumo. - Alicia finalmente resolveu reagir às investidas do amigo, sentindo que ele não a deixaria em paz enquanto ela não respondesse. 
Guilherme tomou um gole da cerveja de rótulo dourado que tinha em suas mãos. De um jeito paternal, levou uma das mãos até a testa da garota como quem quer checar se a pessoa está com febre. A mão estava gelada por causa do contato com a garrafa e Alicia levou um susto. Bruscamente, levantou as costas e se sentou, irritada. 
- Guilherme! - a voz da garota saiu menos enfática do que ela pretendia. 
- Desculpa! Eu só estava querendo checar se minha amiga ainda está viva. Você está agindo engraçado, deitada aí nessa inércia toda. - o garoto rebateu. 
A cabeça de Alicia latejava devido ao sobressalto que levara. 
- Eu estou viva, Guilherme. Só estava pensando. 
Guilherme olhou para ela com um sorriso debochado.
- Ah, sim. Muito esclarecedor. - o sarcasmo amigável cortava o ar quente da noite.
- Você está cansado de conhecer meus devaneios repentinos. - Alicia continuou. - Sabe, se você continuar me retirando dos meus transes eu nunca vou conseguir completar minhas teorias filosóficas e não vou entrar para um livro de Filosofia tão cedo! 
Os dois riram e as vozes se misturaram até perderem o sentido. 
Perderem o sentido. 
Era sobre isso que Alicia estava refletindo. 
- Ok, admito que na verdade eu estava pensando em uma coisa que já foi teorizada. - a garota se inclinou para trás e olhou para o amigo. 
- Ha! Bem que eu estava estranhando esse negócio. Acho que a grande maioria dos filósofos não sabiam que seriam reconhecidos como filósofos. - o amigo debochou. - Talvez eu devesse escrever um ensaio sobre como a falta de humildade provoca bloqueios criativos e te usar como estudo de caso! 
Alicia olhou para Guilherme com um ar de reprovação, mas não conseguiu sustentá-lo por muito tempo e logo o som inercial dos grilos noturnos foi substituído pela risada da garota. 
- De quem é a ideia que você está remoendo aí? - Guilherme perguntou. 
- Sartre. - Alicia respondeu, calmamente. 
- Poxa, não dá nem para você fingir que a ideia é sua. O cara é bem famoso. - o garoto brincou, levando a cerveja aos lábios mais uma vez. 
Alicia fingiu surpresa e se virou para Guilherme: 
- É isso mesmo que estou ouvindo? Você está sugerindo que eu deva violar os direitos autorais de um dos maiores pensadores da história? Talvez eu devesse escrever um ensaio sobre a falta de escrúpulos de algumas pessoas na sociedade contemporânea e usar você como estudo de caso! - a garota abriu um grande sorriso de satisfação com sua resposta. 
- Uau! Eu quase subestimei suas habilidades sarcásticas. - Guilherme olhava para o céu com um sorriso flutuando em seu rosto. - Mas, enfim, sobre o que você estava pensando?
Alicia fechou o casaco ao sentir o vento cortante contra o peito. Olhou de relance para a festa que acontecia na casa atrás deles, além da piscina iluminada por luzes subaquáticas coloridas. 
Rosa.
Verde.
Azul.
Amarelo. 
E de novo.
As luzes estavam pulsando em rosa quando Alicia percebeu um casal sentado em uma espriguiçadeira ao lado de uma árvore desfolhada. Era uma cena tão comum. "Comum de um jeito desconfortável", ela pensou. Depois de muito tempo observando as coisas, elas perdem sentido, passam a ser quase absurdas. 
- "O absurdo do mundo" - Alicia falou com a voz baixa, com medo de chamar a atenção do estranho casal. 
Ao perceber que Guilherme ainda a encarava com um ar de indagação, a garota começou a explicar:
- O sentido que a humanidade deu para as coisas não podia ser mais aleatório. Pensa bem, porque uma cadeira se chama cadeira? De onde veio essa combinação de letras? De onde vieram essas letras? Quem foi que decidiu que "cadeira" faz sentido, mas "daceria" não? E isso se aplica a todas as línguas. É tudo muito estranho. O mundo, quando despido dessa razão inventada, é absurdo. E o fato dessa ordem racional ser socialmente construída é ainda mais esquisito. Mostra que a nossa lógica é uma invenção. Pelo menos a morfossintática. Semântica? Ah, sei lá, mas você entendeu. 
Alicia se reclinou um pouco mais em direção à grama. Guilherme fez o mesmo, até que os dois estivessem na mesma altura. 
- Olha, eu só queria dizer que não tenho ideia de como você consegue pensar nessas coisas no meio de uma festa. Talvez eu devesse te levar a um psicólogo. - o garoto sustentava um sorriso no rosto, que rapidamente foi substituído por uma expressão de surpresa debochada - Ah, não. Isso não é uma boa ideia. Posso te imaginar analisando o psicólogo e usando mil e uma referências filosóficas no processo. Ele ia ficar mais confuso do que você. 
Alicia riu e virou o rosto para o amigo. Ele fez o mesmo e as luzes da piscina iluminaram cada uma de suas faces. 
Rosa.
Verde.
Azul.
Amarelo. 
E de novo.
Naquele momento, as coisas faziam muito pouco sentido para Alicia. Ela se sentia leve, como se estivesse flutuando. E tudo parecia tão estranho. O rosto de Guilherme exibia uma cor diferente a cada instante e ela pensou no quanto aquilo era engraçado. "Engraçado", que palavra peculiar. Guilherme. Quem era ele? Seu amigo. Só seu amigo? Definir tudo o que aquele garoto sentado ao seu lado era em apenas uma palavra parecia errado. Meu Deus, por que as pessoas iluminam suas piscinas com luzes coloridas? Quem foi que decidiu que piscinas precisam de iluminação? O rosto de Guilherme estava verde agora. Ela gostava de verde. Agora azul, azul era a cor preferida de Alicia. As coisas não faziam sentido nenhum. Ela lembrou de uma música. Aquela música não fazia sentido. Ela nunca havia entendido a letra e cantava tudo errado até um dia ler cada verso na Internet. Aí ela entendeu menos ainda, mas tudo bem. Tinha uma melodia bonita. Ou melhor, tinha uma melodia confusa. Alicia não sabia se era uma música triste ou feliz. 
I never trust my feelings.
Ela provavelmente estava encarando Guilherme há um bom tempo agora. Nenhum dos dois sorria e as luzes da piscina continuavam a colori-los. 
Frightened by my feelings. 
Alicia não sabia dizer se ela realmente estava sorrindo ou se só estava sentindo um sorriso. Estranho.
The only thing I wanna believe. 
Talvez ela tenha de fato sorrido, porque Guilherme começou a aproximar o rosto do seu. As cores deixavam aquilo tão bonito, apesar de tudo parecer fora do lugar. Alicia nunca imaginara que a noite levaria àquilo, mas ela não estava incomodada. As coisas não estavam fazendo sentido mesmo, então não havia com o que se preocupar. A garota encontrou conforto no absurdo daquele momento e imitou o amigo, movendo o rosto mais para frente. Azul. Seus lábios se encontraram e ela fechou os olhos. Era como se a luz tivesse subitamente acabado, mas sem o susto. 
Alicia se perguntava qual era a cor de seus rostos agora. 
Verde?
Rosa?
Amarelo?
Azul de novo? 
Ela achava graça no fato de que estar beijando um de seus melhores amigos não a incomodava nem um pouco. Logo ela, que sempre havia afastado a ideia com fervor. Não havia nada mais inesperado do que aquilo. Alicia certamente não estava planejando fazer o que fazia naquele momento. Era muito esquisito, e ela achava graça. Ela achava graça porque, estranhamente, era a primeira coisa daquela noite que fazia sentido. 

You Might Also Like

0 Comentários