Provações divinas desde 1998

09:00



“Enem (s.m): é uma prova que não prova a minha essência. É o desafio que eu sabia que hora ou outra deveria enfrentar. É a prova que por alguns meses desnorteou o rumo do presente com o pretexto de que daria norte para o meu futuro. É a prova que, no fim, me ensinou que não ser bom em algo esperado, só significa que você é bom em outra coisa incrível”, Jõao Doederlein (@akapoeta).
É engraçada a forma despretensiosa na qual esse texto surgiu entre tantos outros do meu Instagram. Entre um toque e outro, podem surgir certos textos e imagens “feitos para nós”. Engraçado porque também estava pensando nesse tema, até mesmo pela proximidade com A Prova, mas não só isso: se você para pensar, algum conhecido a fez – não só os meus.
Despretensiosa e suscintamente, desperta em nós questionamentos adormecidos ou ignorados durante todo o ano. Anualmente, os mais diversos estudantes de todo país são submetidos à esse exame que, devido ao discurso construído ao redor dele, não se torna só mais uma prova dentre tantas. É A Prova, aquela que decide seu destino, traz a felicidade é o alívio desejado – ou o sofrimento e a ansiedade caso algo dê errado. É praticamente o Deus dos estudantes, nesse julgamento que dura dois dias, selecionando os aptos ao céu, às faculdades (geralmente públicas e federais), ou ao inferno que é ficar mais um ano em um ambiente de pressão, sendo cobrado o tempo todo pela possibilidade aparente que é estar na faculdade (mesmo sem ter certeza sobre qual é) e a “felicidade” trazida consigo.
O purgatório é semelhante à espera pelos resultados do SISU, após já fazer tudo que poderia ser feito para se salvar ou condenar, enquanto o resultado definitivo não sai, só resto o sofrimento da incerteza. A salvação divina é entrar em uma faculdade. Será?. Assim como na religião, estamos colocando nosso destino nas mãos de algo que não temos controle – ou até nem existe, para alguns. Até tentam pagar pela salvação, mas os resultados quase sempre são trágicos.
Isso me lembra de quando fui submetido à esse mesmo sistema de certezas em um mar de incertezas. Não só eu, como todos os meus amigos ao redor de mim. Nesse caos chamado “pré-enem”, infelizmente, era raro encontrar alguém que não era devoto à santíssima trindade dos cursos: medicina, engenharia e direito. Cada um em sua área, estigmatizando todos aqueles que pertencem a ela. Através de um uniforme, perguntam qual seu curso, e logo fazem cara de espanto se ele foge àqueles 3. “Você vai passar fome.”, “você não tem pai?”, “você é doido de querer um curso assim.”, “tem certeza? Essa profissão mal tem um mercado de trabalho...”, sempre “você”. Me parece que esse “céu” está saturado de pessoas que se importam mais com a vida alheia do que com sua própria, sob o eufemismo da “preocupação”. Estão no céu, mas poucos pensaram sobre seus pecados mundanos.
Em um grande evento, depositam suas esperanças e esperam resolver suas aflições, como em um passe de mágica. É o norte de muitas pessoas que colocam 2 provas como prioridades divinas, acima de qualquer outra coisa e de seus próprios limites. Afinal, quem quer consegue?. Vindo de realidades diferentes, todos tentam chegar no mesmo patamar de igualdade, apoiados no discurso do mais forte, do mais preparado. Esquecem que sob esse “céu” existe uma terra heterogênea, formada e construída através das diferenças, onde a classe dominante impera e crê firmemente que todos são iguais e capazes de competir saindo do mesmo ponto de partida. Esse Deus é justo?

É clichê, mas sempre bom reforçar que vamos além dessa provação quase divina. Nossa essência e nossos anseios não cabem em 180 questões, não são mensurados em um valor que vai de 0 a 1000. É difícil – e cansativo – lutar contra um sistema instituído e engendrado em bases sólidas. Nossa história vai além daquilo que podemos perceber e metrificar, supera um simples toque na tela de um celular e um total – ou uma média perdida. 

Texto por: Igor Luís

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