Despedidas



Dizer adeus … Para que mesmo existem as despedidas? Para sofrermos ? Lembrarmos de como foi prazeroso e talvez como não aproveitamos o bastante?

Para mim, despedidas não deveriam acontecer, de verdade, elas só nos deixam tristes, deprimidos, e às vezes até rancorosos. Eu não gosto mesmo  de dizer adeus, meu coração dói, meu peito fica apertado e comumente lágrimas caem dos meus olhos.

Ônibus, Chuva e (Des)encontros




Era horário de pico e o ônibus estava lotado. Pra piorar ainda mais, estava caindo um senhor pé d’água, daqueles que mesmo o melhor guarda chuva te não impede de ficar molhado até a alma. Isso também significava que todas as janelas da condução estavam fechadas, fazendo com que o clima dentro do veículo ficasse bastante abafado e o cheiro dos corpos e roupas molhados tanto de água como de suor ficasse pairando na atmosfera do meio de transporte. Mas nem tudo era ruim: seu ponto ficava muito próximo ao local de partida então pelo menos não viajava em pé.

Tudo corria como de costume. Alguns passageiros conversavam sobre os acontecimentos do dia a dia, tecendo comentários sobre a situação política, esportes, e, como de costume, o tempo; na parte de trás alguém sem fones de ouvido escutava uma música alta; tosses e espirros aqui e ali mostravam que a chuva pegou alguns desprevenidos; e ao fundo um senhor de idade reclamava do modo como o motorista conduzia o veículo pelas ruas alagadas da metrópole. Mas tudo lhe era alheio. Seguia em seu canto impassível, imperturbável, ouvindo sua música em volume máximo.

A viagem era longa, por isso começou a sentir um desconforto nos músculos. Mexeu-se para ver se o incômodo passava. Virou a cabeça e ,de repente, eis que lá estava. Sua paixonite do ônibus havia sentado bem ao seu lado. Desviou rápido o olhar, não queria ficar encarando. Mesmo assim conseguiu reparar na beleza à sua direita. Espantou-se como, mesmo num toró daqueles a pessoa conseguia manter-se linda: os cabelos molhados davam um charme a mais, a roupa parecia ter acabado de sair da lavanderia e até o perfume, com um cheiro maravilhoso, se destacava no ar. Percebeu que exibia um risinho bobo. Fechou a cara quase imediatamente e começou a encarar a janela embaçada. Milhões de pensamentos invadiram sua mente. “Será que me notou?”. “Será que percebeu onde estavam meus pensamentos?”. “Será que sequer sabe da minha existência???”. Tentou se recompor. Notou que desenhava um coração na janela e estabanadamente tentou apagar rápido com a palma da mão. Deu uma olhadinha pro lado e viu que a beldade ao seu lado calmamente lia um livro. A fonte usada nas palavras parecia familiar. Esticou um pouco o pescoço para ver o nome do livro e percebeu que se tratava de uma de suas obras preferidas! Voltou a se alvoroçar. Tinham tanto em comum! Mas não podia dar tanto na telha, por isso encarou novamente a janela.

Começou a pensar em quando surgira aquele sentimento. Lembra de ter ficado com a imagem de um rosto na cabeça, mas por mais que pensasse não conseguia se lembrar de onde conhecia aquele semblante. Bem mais tarde é que reparou no magnífico ser que pegava o mesmo ônibus no mesmo horário e a partir daí quase sempre se encontravam no transporte público. Mas esse “encontravam” era muito mais para si do que para o outro, pois nunca haviam conversado de fato. Apenas em sua mente, em que, vez ou outra, simulava variados tipos de conversação, mas nunca tinham pronunciado mais que um tímido “Olá”. É fato que certa vez, numa situação parecida com a atual, havia segurado a mochila e até trocado algumas palavras enquanto o foco de sua paixão ficava em pé no ônibus, mas aquilo não valia e, além disso, logo surgiu um lugar vago e se afastaram.

Muitos chamariam essa falta de atitude como covardia, mas em sua cabeça isso era puro e simples planejamento. Afinal, quem entra no jogo quando se sabe que há de perder, não é mesmo? Mas isso já estava se tornando cansativo. Por quanto tempo mais ficaria só na base da imaginação? Decidiu. Precisava tomar uma atitude! Mas aí outras dúvidas começaram a se formar em sua mente. O que iria fazer, de fato? Falar sobre o tempo? Não! Não havia mais espaço para indecisão. Precisava agir. E urgente! Respirou fundo, armou-se de seu melhor sorriso e se virou para encarar sua paixão não notificada. Já estava pra pronunciar um “Oi, tudo bom?” quando...

 Onde está? Pra onde foi? No lugar estava um senhor de meia idade que, distraído, mexia no celular. Olhou em volta procurando, mas ônibus ainda estava cheio, não dava pra ver direito. Girou a cabeça uma vez. Duas vezes. Finalmente encontrou. Estava em pé em frente à porta, se preparando para desembarcar. A condução freou, as portas se abriram e, fechando o zíper do agasalho, a possível alma gêmea saiu para a chuva. Ainda deu tempo de virar pra janela, desembaçar o vidro e ver, enquanto o ônibus arrancava, a silhueta correndo em direção a um abrigo contra chuva. O veículo acelerou e a figura se perdeu.

Virou-se para frente de novo e suspirou profundamente. Sua expressão mostrava que estava tentando entender o que acabou de acontecer. Por fim pensou, em tom de promessa: “Essa foi quase, mas na próxima com certeza vai rolar!”. Recostou-se contra a janela e, calmamente, voltou a seguir a viagem em seu canto, impassível, imperturbável, ouvindo sua música em volume máximo.


texto por: Mateus Santos