Provações divinas desde 1998



“Enem (s.m): é uma prova que não prova a minha essência. É o desafio que eu sabia que hora ou outra deveria enfrentar. É a prova que por alguns meses desnorteou o rumo do presente com o pretexto de que daria norte para o meu futuro. É a prova que, no fim, me ensinou que não ser bom em algo esperado, só significa que você é bom em outra coisa incrível”, Jõao Doederlein (@akapoeta).

Black Mirror: o futuro incerto


Recentemente, a Netflix divulgou o primeiro teaser da quarta temporada da aclamada série “Black Mirror”, além de revelar os títulos e elenco de cada episódio. A série futurista de ficção científica, que já conquistou milhões de fãs brasileiros, usa o formato de antologia para contar histórias que às vezes chegam perto demais da atual realidade, deixando-nos com receio do que o futuro tecnológico pode nos proporcionar.

Daquilo que podemos ver


Nada. Uma quantidade extrema e confortável de nada.Talvez se algum poeta descuidado fosse se enveredar pelo lirismo da noite, usaria essas palavras.

Estranhos


Por um estranhamento
nos embaralhamos
até que chegamos às entranhas
do que nos causa tormento. 

Uma breve comparação a respeito do esporte universitário: Brasil X Estados Unidos

  
    
   Nas últimas semanas, tenho tido a oportunidade de me inserir no meio do esporte universitário. Não há como negar que, além de uma boa forma de se desestressar, esse  é um bom caminho para conhecer novas pessoas e frequentar novos ambientes.

    Porém, quando os assuntos são Esporte e Faculdade, é incontestável que, no Brasil, a união dos dois ainda deixa muito a desejar. Isso fica evidente quando estabelecido um paralelo com países mais desenvolvidos, como os Estados Unidos. 

Aquele em que eu assisti Friends


Há alguns anos, em uma tarde um tanto quanto monótona, resolvi começar a assistir a uma série que muitas pessoas pareciam amar e que foi um completo sucesso nos anos 90, Friends. Por motivos que nem mesmo eu consigo explicar atualmente, o sitcom não conseguiu prender minha atenção e interesse com seus quatro primeiros episódios e acabou sendo deixada de lado por um longo tempo. Hoje consigo perceber que, é claro, essa não foi uma boa decisão.

Pixar pra que te quero


Eu era uma criança chata. Eu me sentia capaz de julgar as animações do cinema com nada menos que dez anos de idade. Eu fui impossivelmente absurdo quando houve todo o movimento de passar da animação dos clássicos tradicionais para as novas tecnologias de computação gráfica, chegando a afirmar que “o efeito da magia dos clássicos acabaria com o 3D” (eu era uma criança chata e com péssima noção de futuro, aparentemente).

5 filmes da Disney que impressionam por seus ensinamentos

    

Ao meu ver, é praticamente incontestável que os filmes da Disney, em especial os desenhos e animações, dão um show de direção, roteirização e produção. No entanto, muitas vezes, hipnotizados pelos efeitos especiais, pelos personagens encantadores e pelo toque de diversão, esquecemos de nos atentar para as mensagens por trás de toda a magia das histórias.

Tyler, o criador de sapatos


Em julho deste ano, foi anunciada uma colaboração entre o Tyler, the Creator, um doidão conhecido por fazer waffles bastante apetitosas (além de ser um dos rappers mais populares, influentes e provocadores do mundo), com a Converse (a molecada por trás do All-Star encardido que você sempre usa). O resultado foi o Converse One Star x Golf Le Fleur, que foi recebido com bastante entusiasmo por sneakerheads (cabeças-de-tênis?) do mundo todo.

A obra de arte da Dama do crime, Agatha Christie


Segundo estimativas, seus livros já venderam cerca de dois bilhões de cópias em todo o mundo, traduzidos para mais de cem idiomas. Foram oitenta romances e coletâneas escritas, além de doze peças teatrais. Aliás, é de sua autoria a obra que está a mais tempo em cartaz da história do teatro! Seus números impressionam. Estamos falando da mais famosa autora de romances policiais do mundo, a britânica Agatha Christie.

Resistência, rendição e a luta contra o conformismo


Se você tem o costume de acompanhar as estreias da Netflix, com certeza já se deparou com o título "Okja", filme levado à vida pelo cineasta sul-coreano Bong Joon-ho. A produção cinematográfica - que conta com um elenco de peso - foi muito bem anunciada ao redor do mundo, e as temáticas abordadas - em foco no cenário atual - com certeza servem para exponencializar sua popularidade. 

A prima pobre

Tv

A novela sempre foi injustiçada no Brasil. “Péssimo exemplo”, “perda de tempo” e “baixaria” são termos já bastante comuns para descrevê-las. Elas são tudo de ruim que o demônio da TV aberta é capaz de proporcionar.

Pois eu acho que não é bem assim, e ainda digo mais: não há nada mais brasileiro que uma boa novela.

Conversa mansa



É ruim sentir saudade antes, né? Chega cá, entende minha briga.

Nasci com o fardo da coragem. Não que eu tivesse muita, mas aprendi a fazer a minha. Ficou lá uma coisa mal planejada, mas ninguém atesta que é matéria ruim. Caso isso que me fiz em dois para suportar a vida. Um lado criado no cinza, não nego, raiz de cidade grande. O outro bicho solto, moldado no baixo leve, de dedão sem tampa. Levei assim até um tempo, mas agora me embolei.

Pequenas grandes coisas




    Imagine uma balança. Não a balança que usam nos mercados para pesar as frutas e legumes. Mas sim aquela mais antiga, a balança de pratos, usada para comparar o peso de objetos diversos. Agora, pense que esses objetos são todas as palavras, emoções, sentimentos e gestos que passaram pelo seu dia.

Dua Lipa e a lição transmitida por New Rules


Se você ainda não ouviu falar de Dua Lipa, corre pra escutar as músicas dessa jovem que tem roubado a cena na indústria musical!
Dua Lipa é uma cantora, compositora e modelo britânica, filha de imigrantes albaneses, que começou a fazer sucesso cantando covers no Youtube. Em junho de 2017 lançou seu primeiro álbum, recheado de músicas maravilhosas que grudam na nossa cabeça!
Ela é citada como uma das grandes apostas do pop internacional e tem feito jus à isso. Com apenas 21 anos, a cantora de voz forte tem alavancado sua carreira de maneira estrondosa e crescente nas paradas musicais. Graças ao hit New Rules, Dua atingiu o topo das paradas britânicas pela primeira vez e foi a primeira artista feminina a atingir esse feito desde Hello, da Adele em 2015.

Para todos que já tiveram medo


Já me disseram para cultivar meus sonhos. 
Essa ideia sempre me foi incômoda,
pois para mim os sonhos vêm de dentro
e são muitos.

Tantos que não existe encontro entre os ramos fortuitos
que se cruzam sem rumo.

Michael Bay, Uncharted e narrativa interativa


Sempre tive uma relação complicada com jogos de videogame cinemáticos.
Enquanto alguns se admiravam com o espetáculo Hollywoodiano de Call of Duty e Final Fantasy XIII, eu resmungava como um vovô rabugento e levemente senil sobre como a interatividade e a profundidade mecânica dos grandes jogos de outrora era sacrificada em prol de experiências altamente rígidas, guiadas e superficiais.

Guerra e silêncio


Há poucos dias atrás fui com alguns amigos assistir “Dunkirk” no cinema. O filme, dirigido por Christopher Nolan, o mesmo diretor da trilogia Cavaleiro das Trevas e “A Origem”, conta a história (ou melhor, histórias) da Batalha de Dunquerque, momento histórico real que ocorreu no início da Segunda Guerra Mundial.

A situação era basicamente a seguinte: após terem sido derrotados pelos alemães e separados de seus aliados franceses, os soldados britânicos se viram encurralados nas areias de Dunquerque. Sem ter para onde correr e se tornando alvos fáceis para os bombardeios aéreos alemães na imensidão aberta da praia, aos combatentes isolados só restava uma opção: tentar sobreviver a todo custo.

adeus, e a todas as pessoas que jamais seremos novamente


Às vezes, descobrimos que é hora de dizer adeus. Nossa vida não é um ciclo, vicioso a ponto de vivermos todos os dias no mesmo lugar. Ela se trata de dar um passo após o outro, de aprender e crescer sempre, de repetir experiências mas nunca sob o mesmo olhar. Tipo uma espiral, fraga? Não sei se faz sentido, mas na minha cabeça soa como uma ótima analogia.

Incertezas etárias



Deixo tudo assim, não me importo em ver a idade em mim. Os anos que se 
passaram foram lições e me sinto orgulhosa da força que descobri ter. Ouço o que
convém, o que dizem sobre mim e o que inventam sobre os outros não me interessa
mais, já estou velha e o que digo, penso e faço não se encaixa na expressão da
juventude. Eu gosto é do gasto.

Clássicos na praça, UFMG 90 anos


Na noite de terça feira, dia 13 de julho, a orquestra filarmônica de Minas Gerais realizou uma apresentação gratuita no gramado da Reitoria da UFMG. A orquestra regida por Marcos Arakaki e Fábio Mechetti tinha o objetivo de abrir as comemorações dos 90 anos da universidade, com arte e cultura.

Contando com 90 músicos, a apresentação reuniu uma plateia diversa e atenta que não se restringiu às cadeiras organizas a frente do palco; sentaram-se sobre o gramado ou assistiam das janelas do prédio da Reitoria. Todos os olhares estavam voltados ao que acontecia no palco. “Nada melhor que a arte para nos ajudar e inspirar”, a frase dita pelo regente no início da apresentação sintetizou os acontecimentos da noite.

Reitor, salve meu filho!


Belo Horizonte, 19 de Junho de 2017
Caro Excelentíssimo, digníssimo, meritíssimo, ilustríssimo, caríssimo, magnânimo senhor Reitor,
Venho por meio desta comunicar o senhor a respeito de minha aguda insatisfação em relação ao absurdo indecente que está ocorrendo nesta instituição que o senhor se intitula responsável.
Meu filhinho primogênito, herdeiro da família, nosso prodígio lutou muito para passar no vestibular, passou noites em claro, debruçado nos livros, fazendo cursinho por 3 anos! Era o sonho da família que ele conseguisse estudar nessa dita UFMG, que a gente pensava que era a melhor universidade do Brasil. Mal sabia que meu pesadelo começaria aí.

Eu, super-herói?


Desde criança, sempre gostei das histórias  da Marvel. Adorava o jeito como o Homem Aranha brincava com os vilões. Ver o Hulk destruindo rochas com um soco era a coisa mais maluca do mundo. Se naquela época eu tivesse um martelo igual o do Thor,  seria o moleque “mais invencível” da escola.

Gostava de tudo isso, mas não tinha ideia de onde eles vinham e nem porque gostava tanto daqueles personagens. Eu não conhecia de verdade a empresa Marvel, a não ser por aquele logo vermelho nas revistas. Pode parecer estranho mas, para uma criança no Brasil 90’s, não era tão simples descobrir quem tinha criado o Capitão América.

Bom, eu cresci e resolvi descobrir. Além de conhecer grandes nomes das HQ’s, acabei entendendo um monte de coisa.

sobre pássaros rebeldes e o trágico complexo das gaiolas do dia-a-dia


Acho que somos pássaros engaiolados.
         Tipo, desde pequenininhos.
         A Terra não é uma fábrica de desejos multitarefa, por mais brega que essa frase aparente ser. Não vamos sempre ter o que queremos, entende? A pessoa que queremos, o peso que queremos, a altura, cara, roupas, emprego dos sonhos. Às vezes dá certo, claro. Às vezes a vida tem pena dos tapas na cara que ela dá na gente e resolve fazer dar certo. Se não, haveria felicidade?

Sobre papeis e irmãos



Eu vi ele crescer. Ao menos eu acho que vi. Talvez eu só o tenha visto já crescido, e por isso meu susto foi tão grande. Eu vi ele crescer, mas não o vi crescendo? Uma parte de mim não quis enxergar as mudanças, que aos poucos foram o desvinculando do único papel onde eu o encaixava: o de irmão.

5 séries pra assistir no feriado

Chega o feriado e você faz mil planos: viagem, balada, bar, ou até mesmo tudo ao mesmo tempo. Mas todos nós sabemos que, inevitavelmente, você vai tirar aquele tempo pra deitar, relaxar e assistir uma série. Pra te ajudar com isso, fizemos uma lista delas, todas com treze ou menos episódios, pra você se enfurnar e até, quem sabe, conseguir acabar de ver já nesse feriado. Prático, não?

BIG LITTLE LIES

Alquimortis


Ele corre. Corre como nunca tinha feito antes na vida. A mata fechada e o breu da noite atrapalham sua visão. Mas mesmo assim ele corre. Sua panturrilha arde como se ferro em brasa a houvesse tocado, mas não há tempo para choramingar. Ramos e troncos no chão o fazem tropeçar algumas vezes e de imediato ele se refaz e recomeça a corrida frenética. A luz da lua fulgura sinistramente acima de sua cabeça, numa cor amarela, como um mal presságio. Porém, mal dá tempo de notar. A corrida em que está é muito mais importante.

E a você, meu muito obrigada!


Obrigada por me mostrar que criar expectativas é a maior burrice que alguém pode fazer na vida, obrigada por me mostrar que fazer planos, imaginar mãos dadas, encontros, cinemas, beijos apaixonados, almoços em família e até mesmo um altar, é frustrante. Obrigada por me mostrar, da pior forma possível, que não devemos esperar nada de ninguém, nem mesmo uma mensagem de bom dia. Obrigada por me mostrar que sim, estamos certas em demonstrar interesse, em ser sinceras quando estamos a fim, o errado é aquele que se aproveita disso e continua despertando interesse com a intenção de ir embora. Obrigada, você simplesmente despertou em mim o sentimento mais lindo que um ser humano pode sentir, e fugiu. Obrigada por me mostrar que você não queria, eu é que estava enxergando demais, estava esperando demais, estava me entregando demais.  E para que? Para sofrer, para chorar, para lembrar do quão bom era no início, quando você ainda parecia interessado.

Desconstruindo paradigmas da educação moderna com Thiago Raydan


Thiago Raydan já foi palhaço, unschooler e empreendedor social, e hoje é coordenador de cursos da Perestroika BH, uma escola que visa quebrar os tabus da educação atual. Fechando o último dia de palestras de nossa Talk Week, ele deu uma palestra sobre sua própria trajetória na educação e fez o público refletir sobre o modelo educacional vigente que temos hoje. Confira abaixo a entrevista que ele concedeu à equipe de redação da Cria:

Olhar e Olhares


  O olhar de alguém, a visão que uma pessoa tem sobre o mundo, possui a incrível característica de ser algo único e intransferível. Mesmo que duas pessoas estejam sujeitas  à experiências muito parecidas, dois irmãos gêmeos, por exemplo, que cresceram na mesma casa, sob os mesmos costumes, tiveram as mesmas festas de aniversário, frequentaram a mesma escola, assistiram aos mesmos desenhos animados, leram as mesmas séries infanto juvenis, passaram pela mesma classe de idiomas, ainda assim, com experiências tão semelhantes o olhar que um terá sobre uma situação, acontecimento ou aspecto da vida será diferente.

Empreendendo com Pedro Vasconcelos



Na última semana, entre os dias 13 e 16 de março aconteceu a primeira fase do programa  StartUP U. O evento, desenvolvido por estudantes da UFMG, tem como temática principal o empreendedorismo e nessa primeira semana do projeto foram realizadas palestras com o intuito de fomentar o lado empreendedor dos participantes. Vários nomes de sucesso e muita persistência nos inspiraram contando um pouquinho de suas histórias. No primeiro dia de palestras entrevistamos Pedro Vasconcelos fundador do Beer or Coffe. Confira:

somos todos hollywood?

Cena do filme Divinas, um original da Netflix francesa que ganhou oito prêmios nacionais e internacionais desde o lançamento

Não há como negar que Hollywood é a indústria cinematográfica de maior influência no mundo atual. A maioria dos filmes que ouvimos falar provém da Cidade dos Anjos, no entanto, eles são apenas uma parte dos longas produzidos no mundo todo. Ainda assim, aqui no Brasil filmes de outros países são raridade, um gosto considerado “cult” — nos cinemas tradicionais a maioria esmagadora dos títulos são americanos; vez e outra vemos produções nacionais.

A Bela, a Fera e os remakes



    Em pouco menos de uma semana, estreia no Brasil a versão live-action de mais um dos grandes clássicos da Disney: “A Bela e a Fera”. Estrelado por ninguém menos que Emma Watson, a eterna Hermione da franquia Harry Potter, já se prediz que o filme angariará muitos (MUITOS) milhões só no fim de semana de estréia.

Curiositas


    Quando nos referimos a uma pessoa curiosa, raramente isso é visto como elogio. Na verdade é mais comum tomarmos isso como um defeito. Isso porque normalmente associamos a curiosidade ao ato de bisbilhotar, se meter onde não é chamado. Esse, porém, é apenas um dos aspectos dessa característica quase inerente ao ser humano, e que se faz presente muitas vezes na nossa vida. 

A Anta e o Fruto Distante


Em uma das poucas áreas intactas de Mata Atlântica vivia uma Anta. Esta se encontrava no meio de sua andança matinal em busca de alimentos quando se deparou com um fruto magnífico, maduro, muito bonito e de bom tamanho. Porém o tal fruto se encontrava num barranco, muito íngreme e de difícil acesso.

Aos sonhadores, com carinho


Teoricamente, existem dois tipos de pessoas no mundo: aquelas que se permitem sonhar e aquelas que repreendem seus próprios sonhos tão logo eles aparecem, como se fosse um mal a ser cortado pela raiz. Perambulando entre os dois grupos, encontram-se aqueles que não se encaixam nem em um, nem no outro. São os sonhadores que, ao primeiro sinal de julgamento alheio, deixam para trás qualquer vestígio do que um dia foi sonhado e jogam sua âncora no cais do ceticismo.

pisca-piscas da cidade




Algumas pessoas observam pássaros. Outros observam pessoas, plantas, ações. Eu, pessoalmente, gosto de observar prédios.

          É, é meio estranho. Mas pode apostar que sou uma pessoa muitíssimo divertida em festas.
      Sabe aquela paisagem inteiramente urbana, de prédios compridos se esgueirando céu afora? Então. Em madrugadas de insônia, ou de pura falta do que fazer, gosto de perder tempo observando a silhueta escura desses trambolhos, centenas de metros de argamassa, concreto e suor que não caem por cima de nossas cabeças por um milagre qualquer da engenharia.

Despedidas



Dizer adeus … Para que mesmo existem as despedidas? Para sofrermos ? Lembrarmos de como foi prazeroso e talvez como não aproveitamos o bastante?

Para mim, despedidas não deveriam acontecer, de verdade, elas só nos deixam tristes, deprimidos, e às vezes até rancorosos. Eu não gosto mesmo  de dizer adeus, meu coração dói, meu peito fica apertado e comumente lágrimas caem dos meus olhos.

Ônibus, Chuva e (Des)encontros




Era horário de pico e o ônibus estava lotado. Pra piorar ainda mais, estava caindo um senhor pé d’água, daqueles que mesmo o melhor guarda chuva te não impede de ficar molhado até a alma. Isso também significava que todas as janelas da condução estavam fechadas, fazendo com que o clima dentro do veículo ficasse bastante abafado e o cheiro dos corpos e roupas molhados tanto de água como de suor ficasse pairando na atmosfera do meio de transporte. Mas nem tudo era ruim: seu ponto ficava muito próximo ao local de partida então pelo menos não viajava em pé.

Tudo corria como de costume. Alguns passageiros conversavam sobre os acontecimentos do dia a dia, tecendo comentários sobre a situação política, esportes, e, como de costume, o tempo; na parte de trás alguém sem fones de ouvido escutava uma música alta; tosses e espirros aqui e ali mostravam que a chuva pegou alguns desprevenidos; e ao fundo um senhor de idade reclamava do modo como o motorista conduzia o veículo pelas ruas alagadas da metrópole. Mas tudo lhe era alheio. Seguia em seu canto impassível, imperturbável, ouvindo sua música em volume máximo.

A viagem era longa, por isso começou a sentir um desconforto nos músculos. Mexeu-se para ver se o incômodo passava. Virou a cabeça e ,de repente, eis que lá estava. Sua paixonite do ônibus havia sentado bem ao seu lado. Desviou rápido o olhar, não queria ficar encarando. Mesmo assim conseguiu reparar na beleza à sua direita. Espantou-se como, mesmo num toró daqueles a pessoa conseguia manter-se linda: os cabelos molhados davam um charme a mais, a roupa parecia ter acabado de sair da lavanderia e até o perfume, com um cheiro maravilhoso, se destacava no ar. Percebeu que exibia um risinho bobo. Fechou a cara quase imediatamente e começou a encarar a janela embaçada. Milhões de pensamentos invadiram sua mente. “Será que me notou?”. “Será que percebeu onde estavam meus pensamentos?”. “Será que sequer sabe da minha existência???”. Tentou se recompor. Notou que desenhava um coração na janela e estabanadamente tentou apagar rápido com a palma da mão. Deu uma olhadinha pro lado e viu que a beldade ao seu lado calmamente lia um livro. A fonte usada nas palavras parecia familiar. Esticou um pouco o pescoço para ver o nome do livro e percebeu que se tratava de uma de suas obras preferidas! Voltou a se alvoroçar. Tinham tanto em comum! Mas não podia dar tanto na telha, por isso encarou novamente a janela.

Começou a pensar em quando surgira aquele sentimento. Lembra de ter ficado com a imagem de um rosto na cabeça, mas por mais que pensasse não conseguia se lembrar de onde conhecia aquele semblante. Bem mais tarde é que reparou no magnífico ser que pegava o mesmo ônibus no mesmo horário e a partir daí quase sempre se encontravam no transporte público. Mas esse “encontravam” era muito mais para si do que para o outro, pois nunca haviam conversado de fato. Apenas em sua mente, em que, vez ou outra, simulava variados tipos de conversação, mas nunca tinham pronunciado mais que um tímido “Olá”. É fato que certa vez, numa situação parecida com a atual, havia segurado a mochila e até trocado algumas palavras enquanto o foco de sua paixão ficava em pé no ônibus, mas aquilo não valia e, além disso, logo surgiu um lugar vago e se afastaram.

Muitos chamariam essa falta de atitude como covardia, mas em sua cabeça isso era puro e simples planejamento. Afinal, quem entra no jogo quando se sabe que há de perder, não é mesmo? Mas isso já estava se tornando cansativo. Por quanto tempo mais ficaria só na base da imaginação? Decidiu. Precisava tomar uma atitude! Mas aí outras dúvidas começaram a se formar em sua mente. O que iria fazer, de fato? Falar sobre o tempo? Não! Não havia mais espaço para indecisão. Precisava agir. E urgente! Respirou fundo, armou-se de seu melhor sorriso e se virou para encarar sua paixão não notificada. Já estava pra pronunciar um “Oi, tudo bom?” quando...

 Onde está? Pra onde foi? No lugar estava um senhor de meia idade que, distraído, mexia no celular. Olhou em volta procurando, mas ônibus ainda estava cheio, não dava pra ver direito. Girou a cabeça uma vez. Duas vezes. Finalmente encontrou. Estava em pé em frente à porta, se preparando para desembarcar. A condução freou, as portas se abriram e, fechando o zíper do agasalho, a possível alma gêmea saiu para a chuva. Ainda deu tempo de virar pra janela, desembaçar o vidro e ver, enquanto o ônibus arrancava, a silhueta correndo em direção a um abrigo contra chuva. O veículo acelerou e a figura se perdeu.

Virou-se para frente de novo e suspirou profundamente. Sua expressão mostrava que estava tentando entender o que acabou de acontecer. Por fim pensou, em tom de promessa: “Essa foi quase, mas na próxima com certeza vai rolar!”. Recostou-se contra a janela e, calmamente, voltou a seguir a viagem em seu canto, impassível, imperturbável, ouvindo sua música em volume máximo.


texto por: Mateus Santos