Ipês e Sabiás

   

Em uma manhã qualquer que, até então, não havia nada de extraordinário, cruzei com uma senhora que mudou meu dia. Era pra ser uma conversa atoa com uma desconhecida que conheci no ponto de ônibus, mas parece que o destino queria transformar aquele dia meio chuchu em algo que me fizesse refletir sobre a vida. Em frente ao ponto havia um ipê amarelo e neste dia boa parte de suas flores haviam caído e não estava mais com aquele aspecto alegre dos dias anteriores. Depois de um singelo bom dia resolvi fazer o seguinte comentário: 'o ipê está começando a ficar meio seco' e a senhora que acabava de chegar ficou alguns segundos em silêncio. E então ela disse: 
- Queria ser um ipê. 
E eu retruquei:
-Para ficar sempre pomposa e florida?
-Para ser bem sincera, minha filha, essa é uma das últimas coisas que vejo no Ipê. Eu gosto mesmo é desse renascer que todo ano ele faz. A gente nasce, cresce, envelhece e morre, já o ipê.. Ah, o ipê é eterno! Quando todo mundo aposta na sua morte ele renasce ainda mais charmoso. Parece que a cada ano ele reaparece com algo novo e presenteia a gente com seu florescer. 
Antes que pudesse falar sobre o que havia me dito seu ônibus apareceu e lá se ia uma sábia que não tem seu nome marcado em placas de bronze ou nos livros didáticos. Às vezes só se enxerga a beleza do momento e não nos ligamos em de todo o processo que acontece até culminar na sua grandiosidade. Esquecemos de como esse renascer de todo ano é responsável pela maravilha de suas flores e que, às vezes, é preciso matar velhos vícios para um renascer tão lindo como o do ipê.


texto por: Marcela Brito