Desses ensaios tantos sobre Ela


Descontroladamente descontrolada de si mesma, Ela ia.


Dava um desconto pros desencontros devidamente propositais que podiam acontecer na vida - às vezes se desencontrar era o melhor jeito de se descobrir, diziam.
Duvidava deveras de tudo aquilo que parecia real demais - tinha um problema de desconfiança desastroso que desencadeava escolhas calculadamente desesperadas vez ou outra.
Tentava descrever com gosto até o mais discreto dos sentimentos, decidindo deixar à mostra tudo aquilo que lhe corria por debaixo da pele.
Debochava de quem se desinteressava da vida tão deslumbrante que só ela, mas nem por isso deixava de sempre desenhar um mundo novo que sonhava poder viver, algum dia, fora de seus devaneios.
Sempre alerta, descobria destinos deliciosos - mesmo que desinteressantes à olhos leigos de felicidade nas coisas simples - e se jogava desgovernadamente de braços abertos nessas pequenas oportunidades que lhes eram dadas, desejando sempre mais e mais e mais e
Mais tarde decidia sonhar acordada com tudo que podia ser, que podia dar, que podia querer, sorrindo delirante com tantas possibilidades que eram a uma só pessoa reservadas.


Destrambelhada. Deselegante. Descarada. Descabelada. Descalça. Desmedida. Mas destemida, Ela ia.
E deliciava-se com o seu destino que, aos poucos, desabrochava gracioso.


Sobre 204 Meses


Há 17 anos foi fundada a Cria UFMG, uma empresa júnior de Comunicação Social que abriu suas portas para os alunos dos cursos de Publicidade, Jornalismo e Relações Públicas. A Cria surgiu com o propósito de promover conhecimento e oferecer oportunidade para seus membros. Neste dia 25 de Agosto a Cria faz aniversário: são 17 anos de experiências e desenvolvimento conjunto que gerou muito aprendizado para todos que passaram pela empresa.


Falar de Cria sem falar de Movimento Empresa Júnior (MEJ) é praticamente impossível - até porque se nós existimos é por causa deles. Somos parte de uma rede composta por várias empresas juniores que vão desde a veterinária até a engenharia. Somos milhares e, juntos, cumprimos o desafio de impactar nossos clientes com projetos desenvolvidos com muito profissionalismo.

A cada gestão, com cerca de seis meses de duração, a Cria se renova, recebendo novos membros com visões diferenciadas a respeito do gerenciamento de uma empresa e dos diferentes aprendizados que surgem com essa experiência. São várias as personalidades que fizeram, fazem e certamente farão parte da história da Cria. Berço para a criatividade, a inteligência e  originalidade, a Cria é com certeza uma porta de entrada para o mercado de trabalho, uma vez que a capacitação e o desenvolvimento profissional que adquirimos é indubitável!

Tivemos a oportunidade de conversar com João Raia. Pós-Cria e um dos fundadores da No Clima - uma das agências de comunicação que mais prospera em Minas Gerais -, ele nos contou um pouco sobre sua experiência na Cria e sobre como ela alterou sua noção de empreendedorismo. Vem dar uma olhadinha:

Sem Pauta: O que você aprendeu com a Cria?
João Raia: A CRIA UFMG Jr. foi experiência que mudou a minha vida, literalmente. Sou uma pessoa antes-CRIA e uma depois-CRIA. Sempre falo pra todo mundo: "olha o PDM (potencial de dar merda) do MEJ. Você junta um monte de moleque, sem supervisão, sem estar formado ainda e deixa todo mundo numa sala pra gerir uma empresa (possivelmente a primeira da vida deles). Aí, eles têm que gerir os projetos, a saúde financeira da EJ, eventos, as contratações... A chance disso dar errado é tremenda. E não dá. Não é por sorte. É por que rola uma vontade imensa de querer fazer, de aprender e colocar a mão na massa. Rola uma experiência vívida de empreendedorismo, de colaboratividade. Acho que a CRIA despertou em mim a potencialidade que eu não sabia que tinha: de dar a cara a tapa e se jogar no desconhecido, com um objetivo claro, com a vontade de fazer dar certo. Ela acendeu aquela fagulha de fazer diferente e destruiu todas as caixas possíveis. Mais do que isso, a CRIA foi minha primeira grande experiência em lidar com pessoas e gerir interesses, expectativas, egos, sentimentos e um monte de outras coisas que a gente não sabe que é importante até elas serem extremamente importantes. Eu aprendi a delegar, a entender a força da coletividade e que sozinho a gente não faz nada. Aprendi a aprender (e que continuar aprendendo é uma obrigação e talvez a mais importante delas). Aprendi que errar é essencial para que a gente continue crescendo e se torne alguém. E que esse caminho é dolorido. O MEJ ensina responsabilidade, compromisso e o valor do trabalho, do fracasso e do sucesso. Isso faz com que a gente lide melhor com um monte de coisa. Em suma, aprendi que ser sensacional no que você faz não é sorte ou casualidade, é uma escolha - e basta você querer fazê-la.

Sem Pauta: Como a Cria contribuiu com seu crescimento profissional e pessoal?
João Raia: Acho que a Cria deu um pontapé na minha carreira, mesmo que na época, eu não tenha percebido. A gente ouvia muito sobre empreendedorismo, sobre inovação e criatividade. Em fazer diferente. Eu acho que internalizei muito isso... E isso foi fundamental para que eu pudesse empreender de fato. Sofrer as dores e as conquistas de abrir uma empresa, criar e implementar uma cultura organizacional e fazer um negócio dar certo. Os meus contatos profissionais ainda vêm do MEJ e contribuiu para que eu conhecesse pessoas e profissionais sensacionais, que trabalharam comigo em outras ocasiões, fora do MEJ. Acho que uma temporada em uma empresa júnior te faz um melhor profissional na medida em que você agrega e troca conhecimentos e vai se tornando mais completo. Uma das coisas mais incríveis de se trabalhar em uma EJ é a visão estratégica que você adquire e o senso de oportunidade e profissionalismo que você adquire, logo cedo na sua vida profissional - e todos foram melhorados e aprimorados pela minha participação em eventos do MEJ, como o EMEJ e o JEWC 2012. Qualquer pessoa que trabalhe em um lugar, sem ganhar dinheiro, pela gana de aprender, de melhorar e de crescer, tem meu respeito. A gente aprende muito e se desenvolve muito na CRIA - e fico feliz em ver, anos depois, a empresa melhorando e crescendo cada vez mais. Dá aquele orgulho de pai babão, sabe?

Sem Pauta: Você e seus sócios já foram parte de Empresas Juniores (e inclusive se conheceram por meio delas). Como você acha que isso contribuiu na hora de vocês decidirem abrir uma empresa?
João Raia: Isso foi um dos aspectos fundamentais pra decisão - aliás, isso continua sendo um aspecto até hoje, quando vamos contratar: ter sido do MEJ. Primeiro, conheci eles através de um movimento muito forte, mundial e com muito potencial de realizações. Todos tínhamos contatos, conexões e uma rede interessante de mobilização (que foi - e ainda é - ativada em nosso benefício). Além disso, todos compartilhávamos do tesão por fazer acontecer, de trabalhar muito, de pensar e dar duro pro negócio dar certo. A gente era jovem, todo mundo estagiando em lugar bacana e à sombra do comodismo de uma carreira chata. E com uma boa ideia, vontade e disposição e muito sangue no olho. Bom, nenhuma ideia vem do nada, sem esforço. Nenhum sucesso cai no colo de ninguém. Então, pensei: os caras são tão malucos como eu, querem fazer o negócio dar certo, possuem essa paixão por aprender e sempre melhorar...Quer gente melhor pra abrir um negócio? Além disso, todos eles tinham backgrounds diferentes do meu, o que completava as minhas falhas e tornava nosso negócio muito mais sólido. Por último, eu vi neles também, a chance de realizar um sonho pessoal, de fazer as coisas do meu jeito, mas mais do que isso, de aprender mais e mais coisas que eu não tinha muita ideia. A gente cresce muito colaborativamente. A empresa surgiu, cresceu, ganhou força e hoje estamos aí, pensando em melhorar sempre e firmes e fortes

Sem Pauta: Você disse que vê diferença positivas em profissionais que vêm do MEJ. Pode nos contar um pouco mais sobre isso?
João Raia: A maioria das pessoas que passa e aproveita o MEJ começam a ter alguns traços que a gente na No Clima considera fundamentais pra um bom profissional: vontade de fazer, aquele sentimento de "esse negócio é meu e eu preciso fazer dar certo", um sangue no olho e uma vontade de aprender, de melhorar sempre. Uma cultura de cooperação e colaboratividade incrível, que agrega e muito para os melhores resultados. Quem não quer um profissional assim trabalhando com você? Alguém que nunca está satisfeito, é inquieto, movido a desafios. A gente não quer a galera que reclama, chora e pensa "mas que mundo injusto". Mas uma galera que fala "eu vou lá e vou fazer". Acho que o trabalho hoje não tem a ver somente com o trabalho em si, mas com toda uma mística por trás de estar feliz, satisfeito, de boas, fazendo uma coisa que te dá tesão. Pensa, a gente trabalha em média 50 anos na nossa vida. Isso é igual a 104 mil episódios de 1 hora de uma série. Ou 8.000 temporadas. Você realmente quer passar 8.000 temporadas da série da sua vida fazendo uma coisa bunda-mole?



Onde está Wally?


''Todos edifícios, absolutamente todos, possuem uma face inútil, imprestável, que não é nem a fachada frontal nem a posterior, é a ''medianera''. Superfícies enormes que nos dividem e nos lembram da passagem do tempo, a poluição e a sujeira da cidade.''


O caos da vida moderna não é novidade para ninguém, vivemos em um mundo cheio demais: de pessoas, construções, informações. Estamos sempre cobrando e somos sempre cobrados, esquecendo, às vezes, quão pouco podemos fazer a respeito da sucessão dos fatos e da arbitrariedade da vida. E a conexão, onde fica? Os sorrisos, olhares e abraços compartilhados, onde estão? E como encontrá-los nessa bagunça apressada do viver ambulante?
Medianeras, filme argentino de 2011, aborda essas questões com intimidade e sensibilidade. O cenário é Buenos Aires na era virtual: fios, prédios, muros preenchidos pela publicidade e tráfego de pessoas que estão sempre correndo para algum lugar. Em meio a tudo isso, dois cubículos que guardam a vida inteira de personagens perdidos no vazio do excesso. Dois cubículos que abrigam a solidão. A solidão de perceber que é mais um em um milhão, sem qualquer apoio concreto e vivendo de soluções provisórias. Assim, a caixa de sapato guarda também o não feito, o não conquistado. É o tempo que foi sem permitir despedidas, passou correndo, agarrando tudo com ele.
É aí que entra Wally. Um rosto que, entre tantos outros, é procurado pelo leitor. O que o faz diferente? Talvez sejam seus adereços característicos, ou o fato do leitor precisar do conforto de achá-lo na multidão. A questão é que, como Wally, os personagens do filme se fazem notar por meio de suas peculiaridades, seus pensamentos conturbados e suas fobias derivadas do caos. Com isso, encontram uma solução: Não permitem que as medianeras (meio termos inúteis) definam uma vida passiva feita de decisões temporárias, que existem apenas para aumentar a distância entre eles e o mundo. Decidem transformá-las em uma inspiração para agir e aceitar a beleza que pode existir no universo caótico. 

''Contra toda a opressão que significa viver nestas caixas de sapatos, existe uma saída, uma via de escape, ilegal, como todas as vias de escape. Em clara contravenção às normas de planejamento urbano, abrem-se minúsculas, irregulares e irresponsáveis janelas que permitem que milagrosos raios de luz iluminem a escuridão em que vivemos.''

As mulheres têm outros assuntos





















Você consegue pensar rapidamente em um filme que possua, no mínimo, duas mulheres com nomes? Nesse filme as mulheres conversam umas com as outras? E elas falam sobre assuntos que não envolvem o sexo masculino? Se todas as respostas foram sim, o filme que você pensou foi aprovado no Teste de Bechdel.


Em 1985, a cartunista norte-americana Alison Bechdel elaborou essas três perguntas para contestar os papéis secundários interpretados pelas mulheres nas telas do cinema.
A intenção da avaliação de Bechdel não era determinar a qualidade da obra, mas sim analisar a relevância e a independência das personagens no cinema. Parece um teste simples, não é?
Entretanto, milhares de filmes – inclusive muitos premiados – são reprovados no desafio.

De acordo com uma pesquisa realizada pela ONU Mulheres em 2014, apenas 30,9% de todos os personagens com falas nos filmes são mulheres. Portanto, a desigualdade que existe no cinema é latente, e até hoje muitas atrizes interpretam personagens rasas e subjugadas nas produções hollywoodianas. Inclusive, seu filme favorito pode estar incluído nessa lista.

Quer assistir algum filme aprovado no Teste de Bechdel? O Sem Pauta selecionou 7 obras muito legais que mostram que as mulheres têm muitos (muitos) outros assuntos para discutir:

- Histórias Cruzadas (2011)
- Cisne Negro (2011)
- Persépolis (2007)
- As Sufragistas (2015)
- O Sorriso de Mona Lisa (2003)
- Azul é a Cor Mais Quente (2013)
- Que Horas Ela Volta? (2015)

Escolha ser gentil



Quando li "Extraordinário" pela primeira vez achei que se tratava de um livro infantil e bobinho. Eu não podia estar mais enganada. 

Escrito por RJ.Palacio, "Extraordinário" conta a história de August Pullman, um garotinho que nasceu com uma síndrome genética que lhe trouxe uma grave deformidade facial. Por conta das complicações médicas e uma rotina cheia de cirurgias, Auggie nunca frequentou um colégio de verdade... Até agora. 

Narrado pela perspectiva do jovem garotinho e também dos familiares e amigos que convivem com ele, "Extraordinário" nos mostra o impacto que uma única pessoa pode causar em nossas vidas - e o que nós mesmos podemos lhe causar. Leve, comovente e engraçado, a narrativa é verossímil, carregada de uma inocência que só uma criança pode imprimir. 

Em abril de 2017, estreia a adaptação cinematográfica do livro, com Jacob Trembley no papel de Auggie (sim, ele mesmo, que roubou a cena em "O Quarto de Jack") e a aclamada Julia  Roberts, no papel da mãe de August Pullman. Dirigido por Steven Chbosky ("As Vantagens de Ser Invisível"), a expectativa para o lançamento é alta. Afinal, com uma produção de peso e uma direção cuidadosa, o resultado não pode ser menos do que extraordinário. 

"Quando tiver que escolher entre estar e ser gentil, escolha ser gentil." Sr. Browne. 



- Por Alice Leroy 

Procurando sonhos



Não queria fazer uma simples resenha explicando todas as minhas visões sobre o filme "Procurando Dory", preferi seguir uma análise mais profunda sobre como a história dessa animação nada simples pode se assemelhar com a vida, a nossa vida. 

Dory apresenta uma série de limitações, possui perda de memória recente, o que dificulta muito sua trajetória. Quando ela lembra que se perdeu de sua família, surge um enorme desafio, encontrá-los. É uma procura longa, cheia de obstáculos, mas nem por isso Dory perde seu otimismo e carisma. 

As outras personagens da trama também são dotadas de limitações, Hank é um polvo que não possui um dos tentáculos, Geraldo é um leão marinho que detém alguma deficiência cognitiva, a baleia Destiny tem problema de visão e o próprio Nemo possui uma nadadeira menor do que a outra. Ou seja, o filme vai muito além do lúdico, trazendo consigo um enredo reflexivo. 

Superar dificuldades faz parte da vida, conviver com insuficiências, se deparar com problemas que parecem não ter soluções, quebrar a cara, cair, levantar, crescer e amadurecer. Ninguém disse que ia ser fácil, não é mesmo? 

Cada um tem dentro de si uma peculiaridade que o torna fraco, creio que não seja possível faze-la desaparecer, mas podemos aprender com ela. Desânimo faz parte do processo, não vou mentir, tem horas que desistir parece mais fácil mesmo. Acontece que desistir é nunca saber se você conseguiria, é parar de acreditar.

Então, você tem um sonho? Vá atrás, faça acontecer, porque o tempo passa, o relógio corre e de repente você se esquece. 

Ah, o que você faria se você fosse você?

Uma dica: Procure, procure-se.

E ache.

Meninice

      

Queria me lembrar de tudo, dos mais simples detalhes que transformam realidade em poesia. Queria recordar de todas as palavras já pensadas, todos sentimentos já sentidos. Quando percebi (ou aprendi) pela primeira vez que a Terra não era achatada? Quando notei que as pessoas morrem? E o sol, quando deixou de ser uma bola de caramelo quente flutuando no céu? Ai, queria lembrar da minha meninice. Sentir-se tão grande sendo tão pouco notada, fazendo da minha pequenez meu refúgio. Criar mundos inteiros é fácil quando esse mundo parece tão sem graça para uma criança que deseja a magia.

Queria lembrar do meu coração de menina. Como ele sentia? Devia caber mais amor, um amor fácil e sem grandes questionamentos. Queria me lembrar de como era colocar minha roupa favorita e sentir que não precisava de mais nada para ser feliz. Naquele momento, padrão nenhum imposto a mim surtia efeito: eu estava satisfeita no meu próprio mundo, sendo meu próprio eu. Queria me lembrar do primeiro livro que li de verdade, com as palavras dançando em minha mente para formarem imagens subjetivas. Poderia ter sido de um circo, numa tarde chuvosa na qual a possibilidade de correr na rua não existia. Uma menina sentada no sofá criando o que não podia ter porque o céu decidiu chorar. Queria me lembrar de tentar ao máximo não dormir, enquanto a televisão ligada passava algum desenho bizarro na noite, e acordar mais tarde na cama, sem sabe ao certo como tinha chegado lá.

 Queria me lembrar, mas, no fim, prefiro ser mulher. A menina vive no presente pensando no futuro, suas fantasias são todas voltadas para poder ser livre um dia. A menina quer e não sabe muito o quê, a menina é solitária em seu mundo alheio. Não, prefiro ser mulher. Posso ser confusa, multifacetada, tão ingênua em alguns aspectos como uma garotinha, mas sou mulher. Sei que quero e sei que posso. Sei que basta achar em mim uma centelha de coragem. Sei que posso. E a possibilidade está ali. A minha eu mulher acena para minha eu menina, em uma tentativa de avisá-la que tudo com que sonhava vai chegar, de uma forma ou outra. Deixe-a na ilusão de que tudo que espera da vida deseja, de fato. 

A poesia do observador


Vejo-me como um observador. Não aquele que analisa e desenvolve teorias, mas sim aquele que admira e se encanta com a poesia ao seu redor. Agora mesmo, deitado em minha cama, vejo, por entre os vidros da janela de meu quarto, raios que caminham entre as folhas de uma jabuticabeira. Esses raios, singelos e calorosos, são também vida. A vida que caminha e vence os inúmeros obstáculos, o que resulta em uma beleza imensurável.

O engraçado de ser um observador é que admitimos os diversos fenômenos que, transformados em poesia pelo instante, ocorrem ao mesmo tempo e nos mais variados cenários. Neste instante, por exemplo, um amante, sentado em um banco de praça, sorri ao ver o amado se aproximar. Sorriso este, carregado de vida, assim como os raios de sol que reluzem nos frutos negros de uma jabuticabeira. Em outro cenário temos uma criança que, chorando, corre para os braços do pai que retorna de uma longa viagem. Em outros inúmeros locais a poesia acontece. A poesia do observador. Poesia que não se dá com verbos, tampouco com versos.

A poesia do observador é efêmera. Acontece e se dissipa em um mesmo instante. Por outro lado é eterna. Eterna aos olhos daquele que admira, que contempla e se encanta. Eterna por ser parte da vida. Por ser a vida. A poesia do observador é nada mais, nada menos que a poesia das coisas e da vida. É a poesia que se encontra na essência de cada coisa, bem como cada coisa é uma poesia. É aquela que acontece nos versos não escritos do destino. Nas rimas não planejadas do tempo. Nas declamações involuntárias do coração. É aquela que o futuro não apaga, apenas dá novas estrofes.

Descobri-me observador. Mas acima de tudo descobri-me amante. Observo pois amo a vida, e amo a vida pois a observo. Sou observador de tudo, e por tudo sou observado. Sou observador, sou amante, sou poeta. Estou vivo!

Pra quando bater aquela saudade


Um carioca que mistura MPB e Folk com maestria e leveza, Rubel se apresentou no Sesc Palladium, em Belo Horizonte, na última sexta-feira (29).


Não é segredo para ninguém que o cenário da MPB brasileira vem ganhando força, e uma das pessoas que com certeza merecem destaque nessa nova onda de artistas é Rubel. Com seu álbum de estreia, Pearl, lançado em 2013, o cantor fez sua segunda visita à capital mineira para um show pra lá de bonito!

Dizer que eu estava muito empolgada para ver, ao vivo, um dos cantores que mais admiro na atualidade pode ser considerado eufemismo nesse caso. Na verdade, euforia para a noite de sexta-feira não faltava nem ao próprio artista, que sempre fazia postagens entusiasmadas na página do evento do show. “Vi um comentário no evento que dizia ‘nossa, esse cara tá tão animado, será que é ele mesmo que escreve essas coisas ou um assessor?’. Sim gente, sou eu mesmo que escrevo, tava só muito ansioso pra esse show!”, brincou entre uma música e outra.

Com a maior simpatia do mundo, Rubel subiu ao palco com uma banda incrível e com direito a uma diversidade de sons que ia do piano de cauda ao banjo. Foi impressionante poder presenciar a mistura de timbres que, apesar de tão diferentes, se encaixavam perfeitamente e de forma graciosa para contar, juntos, as histórias narradas pelo cantor. Escutamos sobre Ben e o que ele deve esperar do mundo, sobre saudade, sobre identidade, sobre amor, medo, insegurança e tantas outras coisas bonitas, mas, acima de tudo, escutamos sobre nós mesmos. E foi simplesmente maravilhoso.

Terminamos com o coração aquecido, a alma renovada e a promessa (e esperança) de um novo disco em breve. E Pearl, agora mais do que tudo, também cumprirá com a promessa de guardar memórias póstumas de uma noite incrível!