Herança



A gente nasce pronto para absorver o mundo. Somos só esponjas, prontas para receber tudo que esse mundo tem pra nos dar. 

Você é herança do gosto musical do seu irmão, do paladar do seu pai, do estilo da sua mãe. 

A gente é resultado de todo o bem que a gente faz. A gente é herança de todas as palavras gentis que recebemos, de toda ajuda que oferecemos. A gente é o que a gente faz nessa vida e com a nossa vida. 

A gente é herança das dores, das noites em claro, das lágrimas acumuladas. Tudo que nos marcou - é isso que nós somos. A gente é um aglomerado enorme de neura, de dor, de todos os processos mal resolvidos na sua cabeça. Aquele dia que o coleguinha malvado da 5 série te chamou de gorda: isso é você. As notas baixas em matemática são você. Mas o sabor doce do primeiro beijo é você também.  O dia em que você ouviu pela primeira vez sua música preferida: isso também é você. 

A gente é resultado das viagens que a gente faz - não precisa ir muito longe, não. A viagem pra cidadezinha do interior também te moldou.  A conversa com a senhorinha da esquina que te fez pensar o dia inteiro: ela também te moldou. A primeira ida à praia, o primeiro mergulho no mar, a primeira vez que você andou de avião. 

A gente é resultado de todos os amores de nossas vidas. O primeiro amor que te mostrou pela primeira vez todas as sensações que você achou existirem apenas em filmes. O amor que se foi tão rápido quanto chegou. O amor que virou seu melhor amigo. O melhor amigo que virou seu amor. A gente é herança de uma vida compartilhada. É por isso que os amores nunca se vão. Eles são você, agora. 

A gente é uma herança de tudo que a gente vê, de tudo que a gente consome e escuta. A gente é herança de quem a gente ama. 

Acima de tudo, a gente é herança do que a gente escolhe fazer com todas as heranças que recebemos. 

Maresia

mar


Tinha os pensamentos marítimos: vinham em ondas bagunçadas, constantes e, por vezes, simultâneas, embalando-a em um ritmo oscilante de ideias, que, muitas vezes, se sobrepunham, criando uma totalmente nova.
              
Apesar de muitos não se sentirem seguros em águas por vezes tão perigosas, era lá seu lugar de conforto, ao qual recorria mais do que gostaria de admitir se perguntassem. Preferia viver entre as ondas, mesmo quando brutas, e as ondas também a preferiam junto a elas. Vontade de um ou de outro, passava mais tempo na instabilidade marinha do que na segurança da praia, onde era vista por todos. Gostava do doce balanço das calmarias, mas, às vezes, se pegava ansiando pela violência causada por uma tempestade forte; imponente – era nos momentos de desespero, ironicamente, que mais se conhecia.

Às vezes tentava se aproximar mais da imagem inabalável da areia, que, de tão longe e intocável, parecia se tornar menos real do que toda a fantasia que a maré carregava. Era pega, no entanto, por alguma onda inesperadamente destrambelhada, que, temendo saudade, desejava com desespero mantê-la em seus braços fartos. Ela, temendo mais a realidade do que a imaginação, se deixava levar nesse abraço – gostava mais da incerteza das ondas leves do que da incerteza da vida pesada, no final das contas.

Adorava quando eram somente ela e a água, pois era no mundo dos sonhos onde se encontrava mais real.  Sem se preocupar com todas as amarras sociais que a praia demandava, quando se fazia mar podia ser apenas o que queria ser; sua versão mais sincera e descaradamente vulnerável. Podia se deixar levar por seus sentimentos verdadeiros, se afogar em ideias malucas ou temíveis demais para serem assumidas em voz alta. Lá ninguém veria; ninguém saberia – seria apenas ela e um oceano inteiro de pensamentos, um completamente submerso no outro.    

Poderia chegar o dia em que aportaria no calor da areia, deixando para trás toda a turbulência das águas. Ou talvez apenas se deixasse engolir pelas ondas e, lá no fundo, permaneceria, onde ninguém poderia vê-la. Não há como saber, mas, por enquanto, ela gostava de sua posição: visando a realidade praiana, mas deixando-se embalar pelo ritmo da fantasia marítima.