Antes de Jack, o Quarto



 

Há alguns dias a Carol Lopes disse aqui que precisávamos falar sobre Jack. Pois bem, hoje vamos falar sobre ele de novo, mas de um ponto de vista diferente: vamos falar sobre o Jack do Quarto.

Quarto é o sétimo livro da escritora irlandesa Emma Donoghue, que foi lançado no Brasil em 2010 e adaptado para o cinema em 2015 como O Quarto de Jack, com roteiro da própria autora. Apesar de ter se inspirado, em partes, em um acontecimento real, Emma conseguiu contar uma história terrível de um jeito inimaginavelmente leve. Quarto é um livro chocante, tão ou mais emocionante que o filme, mas nós o conhecemos do ponto de vista do narrador: uma criança que acaba de completar cinco anos. 

Colocar Jack como narrador foi uma excelente escolha da escritora. Ao contrário do que se pode pensar (e do que eu pensei antes de ler o livro), isso não prejudica a história. Jack entende as coisas de um jeito diferente, mas, quando ele narra, o leitor consegue entender perfeitamente tudo o que uma criança de cinco anos ainda não é capaz de assimilar. Às vezes a narração deixa certo mistério, o que instiga o leitor a buscar pistas nas falas do menino. 

Até a metade da história Jack ainda não conhece nada além do Quarto, o cativeiro onde sua mãe está presa há sete anos, e onde ele vive desde que nasceu.  No livro fica ainda mais clara a relação de Jack com os objetos do Quarto: Tapete, Pia, Cama, Fogão – todos os “moradores” do Quarto são sempre escritos com a primeira letra em maiúsculo, já que para o menino eles são únicos. Além disso, no livro nós não descobrimos o nome da mãe, ela é apenas Mãe, já que Jack nunca se refere a ele de outra forma. 

Além de ser a história de um crime terrível, Quarto também é um livro sobre os laços entre mãe e filho. Ele nos mostra a força, física e mental, que a Mãe é capaz de alcançar para proteger o menino. Na segunda metade do livro, quando pensamos que a liberdade seria a solução para todos os problemas, Quarto nos mostra que algumas marcas não podem ser apagadas. O sol, o vento forte, o barulho dos carros, as pessoas por perto: tudo pode ser um grande incômodo pra quem ficou sete anos fora do “mundo real”, e mais ainda para quem sequer sabia que esse mundo existia. Assim, Quarto é uma história de renascimento e descobertas para Jack e, para a Mãe, é a busca de si e de seu lugar no mundo, que parece ter deixado de existir.

Como a ciência definiu a minha fé


De acordo com Carl Jung (sim, é científico!), a sincronicidade é o fenômeno que define acontecimentos interligados entre si sem qualquer relação causal aparente. Também chamada pelo pesquisador de "coincidência significativa",  é a experiência de ocorrrerem eventos com significado pessoal para os afetados. 

Ou seja: quando você sonha com alguma coisa e ela acontece, é sincronicidade. Quando pensa muito naquele amigo sumido e ele te liga, é sincronicidade. Quando você se pega desejando uma pizza e recebe na rua um folheto de promoção da pizzaria mais próxima, já sabe: sincronicidade. Pode parecer maluquice, assombração, ou para os céticos, "só uma coincidência". Mas foi através de Carl Jung que eu descobri a minha fé.

Sempre acreditei que tudo acontece por um motivo. Quando você emite para o universo um desejo, um pedido, ele retorna para você. E isso pode ser tanto bom quanto ruim: se você não gosta do que está recebendo, preste atenção no que está emitindo! É psicologia, é fé, e é física: toda ação tem uma reação. O diferencial de Jung foi defender que a sincronicidade é mais facilmente manifestada quando sua psique está em um estado menos consciente: sonhos, meditações, etc. 

A existência dos fenômenos sincrônicos me fez entender e racionalizar algo tão subjetivo e pessoal quanto a fé. A partir deles, é possível manifestar um mundo em que queremos. Como está dentro é como ficará fora. 

"Não posso provar a você que Deus existe, mas meu trabalho provou empiricamente que o 'padrão de Deus' existe em cada homem, e que esse padrão (pattern) é a maior energia transformadora de que a vida é capaz de dispor ao indíviduo. Encontre esse padrão em você mesmo e a vida será transformada." Carl Jung, em "O mapa da alma" 

Não como antes, mas ainda assim completamente Britney Spears


Na noite de ontem, 22 de maio, Britney Spears fez seu retorno triunfal aos palcos de premiações musicais, abrindo o Billboard Music Awards 2016 com um medley de hits e outras que só os fãs conhecem.


A última performance solo de Britney em uma premiação havia sido em 2007, no Video Music Awards, que a colocou em todos os tablóides como um fiasco, manchando seu histórico de performer impecável. Desde então, ela fez somente algumas apresentações em programas televisivos, participou de alguns awards – incluindo breves aparições em performances de outros artistas – e turnês promovendo todos seus álbuns após o Circus (2008). Os fãs já sonhavam com seu retorno à Britney de antes, e mal podiam esperar que demorasse até quase 8 anos para uma boa chance de recuperar efetivamente seu nome na indústria pop.

Desde seu nascimento, Britney já era premeditada com algum talento especial – em Louisiana, onde nasceu, havia uma crença de que ao cair um floco de neve no rosto de um bebê recém nascido ele se tornaria um grande profissional – e não foi diferente. Ela começou sua carreira no programa infantil The Mickey Mouse Club, no início da década de 90, mas o sucesso só foi alcançado realmente em 1999, com o lançamento de ...Baby One More Time!. Rapidamente se tornou um ídolo adolescente e, com o passar dos anos, se camuflou em uma mulher sexy e independente, com o lançamento da hoje clássica I’m a Slave 4 U e de sua canção mais reconhecida Toxic, se consagrando a maior estrela de sua época e ideal da garota norte-americana. O furor durou até 2004, quando Spears sofreu um acidente no joelho e foi forçada a dar uma pausa, que mudou o rumo de sua carreira.

A partir disso, Britney se casou, teve dois filhos e se divorciou, o que culminou num breakdown e uma série de polêmicas em 2007: raspou seu cabelo, perdeu a custódia dos filhos e foi internada diversas vezes em clínicas de reabilitação, até a situação tomar medidas judiciais e exigir a tutela de seu pai. Após esse descontrole em sua vida pessoal, ninguém esperava um retorno, mas Britney voltou pouco depois com o álbum Circus (2008), ganhando diversos prêmios e sendo reconhecida pela mídia devido ao seu comeback surpreendente. Entretanto, ela não era a mesma, nem tinha como ser: voltou reservada, trabalhando menos e se esforçando para recuperar seu relacionamento com seus filhos. Tudo isso culminou na sua decadência como performer. Só ela não percebeu isso, e continuou assim com seus álbuns subseqüentes, o Femme Fatale (2011) e o Britney Jean (2013). Mas eis que Britney surgiu com sua residência em Las Vegas, a Britney: Piece of Me, em um grande espetáculo, onde ela se sentiu mais segura do que nunca. Desde 2013 na residência, ela somente aprimorou sua habilidade como performer, recuperando sua confiança, até ontem à noite.


No Billboard Music Awards desse ano, já havia sido anunciado que Britney iria ser homenageada com o prêmio Billboard Millenium Award, que reconhece cantores e suas contribuições para a música, e após isso, foi anunciado também que ela iria celebrar isso com uma performance. As expectativas não eram tão altas, a setlist que tinha sido liberada trazia pontos altos da residência e excluía hits clássicos, como ..Baby One More Time! (1999) e Oops... I Did It Again (2000). No geral, os fãs estavam ansiosos e com medo, em vista das aparições rasas e desapontantes da cantora em grandes veículos.


Como abertura da noite, Britney começou com Work Bitch (2013), até então não performada em nenhum evento coberto pela mídia, e começou travada, claramente nervosa e cronometrando seus passos. Após revelar um figurino surpreendente, que mostrou seu corpo mais em forma do que nunca, desde seus tempos áureos, começa Womanizer (2008) e a partir de então, Britney foi relaxando cada vez mais. O medley seguiu com I Love Rock N Roll (2001), cover da canção histórica do rock feminino dos anos 80, e que não fazia muito sentido na setlist, mas a performer demonstrou extrema empolgação e desenvoltura, até Breathe On Me (2003), ponto alto da residência e uma das preferidas dos fãs, mesmo não tendo sido lançada como single, na qual sensualizou em sincronia com as dançarinas. Continuando com I’m a Slave 4 U (2001), Britney fez sua melhor interpretação em tempos, comparável com seu auge, se mostrando envolvida. Acertou em cheio nas caras e bocas e, principalmente, no break marcante e reconhecido na cultura pop. Após esse momento espetacular, a cantora partiu para Touch of My Hand (2003), outra preferida dos fãs que não havia sido single, onde executou acrobacias e demandou esforço físico. Por fim, a cantora finalizou com sua canção que se tornou sua assinatura junto ao seu debut, Toxic (2004), na qual performou um break que não perdeu em nada para seus melhores momentos e animou a todos na platéia.


Britney não é mesma performer de antes, e nem precisa ser para fazer uma apresentação boa, energética e que contagie a platéia. Ao longo desses anos, ela se transformou e está em outro momento de sua vida: quer aproveitar sua família e nada mais justo, após o turbilhão emocional que aconteceu em sua carreira. Nada disso impede que ela seja uma grande entertainer. Seu legado já está marcado, continua a princesa do pop invicta, e se mostra como grande influência na nova safra pop, presente em artistas como Selena Gomez e Ariana Grande. Britney mereceu o prêmio, e mostrou ontem que continua com tudo em cima. Agora só resta aguardar seu retorno com músicas inéditas - ainda nesse ano, mais precisamente no verão norte americano - com a suposta Make Me Ooh. Quem sabe a cultura pop não ganha mais uma performance icônica no VMA como na década passada?


Por Maurício Baltazar.

Sobre Personagens Esféricos


A gente muda muito.

A gente muda sem nem ver, na verdade, e, quando vai reparar, já não se reconhece mais no que achava ser há o que pareciam poucos segundos atrás.

E talvez seja esse o motivo de nos embolarmos tanto quando nos dizem para “falar um pouquinho sobre nós”: todas essas inúmeras mudanças.

O que complica a resposta a essa pergunta é que a gente não é um personagem tão plano assim, para conseguirmos nos definir em poucas palavras. Eu não sou só eu e você não é só você: somos uma mistura de várias facetas de nós mesmos e não sabemos como nos organizar em apenas um de nós – e não deveríamos precisar, na verdade.

Exatamente por sermos esses personagens tão incrivelmente esféricos, é no mínimo peculiar como parecemos sempre estar em busca de uma definição de nós mesmos. Vamos nos diminuindo aos poucos, nos podando, até, como se nos encaixar em uma descrição cirurgicamente pensada fosse a maneira mais correta de nos apresentar ao mundo; a maneira mais correta de nos ser.

Não deveríamos pensar assim.

Pelo contrário: deveríamos viver plenamente todos os nós de nós mesmos – e nos orgulhar de cada um deles. Até porque, todas essas pequenas-grandes mudanças que vão nos remodelando ao longo do tempo nos fazem ser mais nós, mas não deixam para trás o que costumávamos ser – o antes e o depois se fundem para nos revelarmos cada vez mais como nossa versão mais pura e vulneravelmente única aos outros.

Então, viva sem escrúpulos todos os seus “eu´s”. Mostre-se como realmente é para o mundo. Não se delimite para os outros. Não se esconda. Afinal, como diz Álvaro de Campos, “Eu tenho muitos corações/ É um privilégio intelectual/ Eu que me aguente com os comigos de mim”.


Sobre o futuro (ou sobre estar longe de casa)


 
 
Essa não é uma história sobre saudade, nem sobre o passado - talvez seja um texto sobre o futuro. Aquele futuro que você só descobre que existe quando ele começa. Já viu algum adolescente que mora com os pais desejando ardentemente aprender a escolher a melhor marca de sabão em pó? Mal sabem eles o quanto isso pode ser útil um dia. E os legumes!? Cenoura é cenoura, não é mesmo? Até você ter que comprar as suas próprias.

Falar de independência raramente envolve o pensamento de ter que fazer tudo sozinho, inclusive o que você não gosta. Lembrar que precisa cuidar da saúde, comer coisas saudáveis, comprar sabonete, fechar as janelas quando sair. Você percebe que arrumar o seu quarto é realmente uma coisa importante. Arrumar a casa é importante e, principalmente, manter a vida em ordem é fundamental.

O mundo parece tão sério quando você mesmo tem que fiscalizar a hora que vai voltar pra casa. Tudo parece estar sob controle, afinal, você é adulto né? E aí, num domingo, você percebe que não faz ideia de como escolher a bendita da cenoura. A moça do supermercado com certeza percebeu que você não sabe o que está fazendo.
 
Não sei se por orgulho, ou pra não incomodar mesmo, mas ligar pra casa e pedir ajuda costuma estar entre as últimas opções. Só que as vezes as milhares de informações da internet não ajudam, e os amigos são tão ou mais inexperientes que você. E aí, é preciso lembrar de uma coisa: querer ajuda não é sinal de fraqueza e não anula a sua tão sonhada independência. As vezes simplesmente não dá! E quando sua mãe te disser, rindo do outro lado da linha, como é a cenoura ideal, a vida vai parecer muito mais leve!

Um cara é acordado pelo toque do seu telefone




- Senhor Rodrigo?

- Oi, Kleber.
- An? Não, não é o Kleber, eu estou ligando em nome do Banco Itaú para informar que o senhor não tem muito dinheiro na sua conta.
- É, eu sei.
- O seu saldo é insuficiente. 
- Concordo, eu acho meu saldo extremamente insuficiente. 
- O senhor não pode ter apenas 7 reais!
- É, eu sei. Minha vida é meio merda. 
- Nós estamos retirando 10 reais da sua conta.
- Por que, cara? Eu não tô sem dinheiro pra te irritar, como isso te afeta? 
- Porque temos um valor mínimo para manutenção.
- Mas não tem dinheiro, manutenção do que? É o Kleber, né? 
- Não, não é o Kleber! Pronto, tirei os 10 reais já.
- Eu vou ficar com menos 3 reais então?
- Positivo, senhor.
- 3 reais positivo?
- Não! Você terá 3 reais negativos, positivo.
- Como se tem 3 reais negativos positivos?
- O Banco Itaú agradece sua paciência, tenha um bom dia.
- Se eu tiver 3 reais negativos positivo eu posso comprar uma coisa que custa 0 reais?

Tchau, senhor!
- Pera, então não é o Kleber?

Indústria & Companhia LTDA.

Na última segunda-feira, dia 02 de maio, foi dia de aula aberta na disciplina de Introdução ao Cinema Brasileiro, na Escola de Belas Artes da UFMG. Os alunos foram convidados a assistir um filme no auditório da EBA e, logo em seguida, as professoras da disciplina, Ana Lúcia Andrade e Mariana Fonseca, convidaram o diretor e a produtora do filme para falar um pouquinho sobre a obra. 

O filme era Amor & Cia, de 1999; o diretor, Helvécio Ratton; e a produtora, Simone Magalhães. O filme foi produzido e gravado na década de 90, com cenários em Tiradentes e São João Del Rey, porém, a história é contextualizada no fim do século XIX. Amor & Cia é baseado em Alves & Cia, um romance póstumo do escritor português Eça de Queirós. Foi uma discussão muito interessante que, como já era de se esperar, se estendeu para além do filme e acabou chegando num contexto mais amplo: qual é o cenário do Cinema Brasileiro hoje? 

Ao contrário do que muita gente pensa, a produção cinematográfica brasileira é das antigas. No inicio do século XX o Brasil já produzia e exibia seus próprios filmes, mudos e em preto e branco - sim, nós fizemos parte dessa época. Durante sua trajetória, o cinema brasileiro passou por várias fases, algumas com menor produção, mas não menos significantes. Entre altos e baixos, o fato é que a produção de filmes no Brasil é extensa. Desde o humor escrachado das chanchadas até a preocupação histórica/social trazida pelos chamados filmes de retomada, temos histórias para todos os públicos e que podem agradar aos mais variados gostos. Porém (e sempre existe um porém), outro fato é que os filmes nacionais não são tão conhecidos (ou apreciados) quanto deveriam, não é mesmo? 

Voltando para o evento da última segunda...Uma das principais queixas do diretor sobre as dificuldades de fazer cinema no Brasil hoje foi a falta de incentivo e espaço para exibição. Depois que as salas de cinema saíram das ruas e entraram nos shoppings, a lógica do cinema mudou. Hoje os filmes que “vendem mais”, ou seja, atingem maior bilheteria, são os blockbusters norte-americanos. Por aí já se imagina quem tem mais espaço nas salas de cinema (ou quase todo o espaço, talvez). 

Segundo o site da Ancine - Agência Nacional de Cinema, em 2014 foram lançados 114 filmes brasileiros de diversos gêneros diferentes - inclusive 4 animações! Alguns desses filmes atingiram bilheterias excelentes, a maioria, porém, não teve tanto sucesso assim. Isso pode ser justificado por “N” outros fatores, sim, mas provavelmente a falta de visibilidade dos cineastas brasileiros é um deles! 

O que concluir? A produção cinematográfica brasileira existe e, vale dizer, produz filmes excelentes! Longe de mim querer listar os melhores, mas com certeza vale a pena dar uma pesquisada pra conhecer um pouquinho mais do nosso cinema.

E pra quem quiser ver o filme que proporcionou toda essa reflexão, aqui está o trailer de Amor & Cia (Brasil, 1999)

Um olhar sobre o mundo

Há quem diga que escrever seja um dom concedido à poucas pessoas. Acredito que escrever seja, acima de tudo, uma arte; das mais belas que têm. Escrever exige coragem, e a arte por si só sobrevive da coragem de quem a faz, pinta, escreve, desenha, colore. Não há nada mais intimista do que transformar em arte a sua vivência, seja ela dor, seja ela alegria. E não há nada mais corajoso do que compartilhá-la com alguém. Ou com quem quer que seja.

Foi um pouco norteada por essa coragem de Fabrício Carpinejar e José Castello no olhar tão único que depositam sobre o mundo, que se deu o Café Literário da Bienal do Livro de Minas. O que tinha tudo para ser apenas mais um domingo monótono como tantos outros, se tornou uma tarde de muita inspiração e um quê de “vamos pensar diferente”. 
Livre dos julgamentos que geralmente guiam as conversas acerca da forma de se fazer literatura nos tempos atuais e do espaço que ela ocupa, a discussão foi muito além das novas tecnologias e o quanto elas influem no uso das palavras. Enquanto para Carpinejar “o olhar para o mundo foi sempre o olhar para o pouco”, para Castello a literatura é “uma lente de aumento através da qual você expande a realidade e, através dessa expansão, acaba vendo minúcias, detalhes, aspectos, perspectivas que antes te escapavam”.




Ambos concordam em nunca se encaixarem nos padrões. Esse sentimento de ser “torto” foi o que levou Carpinejar a procurar o diferente, inverter o senso comum. “É perfeito isso de que você precisa mentir um pouco para chegar à verdade”.  E é justamente porque a literatura não é uma verdade completa e nem uma mentira completa, até mesmo porque isso não existe, que ela ajuda a aumentar a visão que temos sobre o mundo. Pelo menos para Castello foi assim desde o início.

Em se tratando de crítica literária: “com medo ninguém escreve”. Palavras de Clarice Lispector que, com uma sensibilidade atroz conseguiu fazer a mais fulminante crítica que José Castello, renomado crítico literário, embora ele discorde deste título, já recebeu. Para ele, a escrita necessita de novos olhares sobre o mundo e sobre si mesmo. “Você precisa quebrar essa maneira como você se vê, para inventar a si mesmo. E essa invenção de si mesmo, da sua própria voz, é um processo que dá muito medo. No entanto, sem isso, você não consegue escrever.”

“A coragem vêm do excesso do medo”. Para Carpinejar, falar de coragem é também falar de sofrimento. “Eu acho que a gente escreve não porque sofre, mas porque não consegue curar o sofrimento do outro. A literatura é uma coragem que só se forma quando você vê o outro em ameaça”. E, tendo sempre uma curiosidade de ser o outro, a sua coragem, para ele, foi nunca ficar confinado em seu próprio mundo. “A gente inventa a si mesmo para tentar nos descobrir.”

Entre coragem, olhares e descobertas, conhecer a si mesmo é um processo constante, uma vez que tudo e todos estamos em uma eterna metamorfose. E, metalinguisticamente, “A literatura é um sacrifício, uma renúncia. A gente escreve sem saber se vai fazer sucesso, a gente escreve sem saber se o outro vai nos ler ou não. A gente escreve, realmente, porque a gente não sabe fazer outra coisa”.

Autora: Débora Mano