Bienal dos Recordes




A Bienal do Livro de Minas Gerais aconteceu entre os dias 15 e 24 de abril de 2016, no Expominas, em Belo Horizonte. O evento, organizado pelo Ministério da Cultura, contou com 265 mil pessoas durante os dez dias de sua quinta edição. Foram mais de 220 autores, 160 expositores e 150 atividades, que contribuíram para que a Bienal de 2016 batesse todos os recordes já registrados. Assim, a Bienal visa “democratizar e incentivar ao máximo o contato do público com o universo dos livros e os autores” tendo como objetivo “atrair não só o público leitor, mas também aquelas pessoas que estão se aventurando agora pelo universo da leitura”, afirma Tatiana Zaccaro, diretora de Negócios da Fagga, a empresa responsável pela promoção do evento.


As atividades da Bienal foram divididas em cinco espaços culturais: o Café Literário, que este ano homenageou o patrono da Bienal, Murilo Rubião; o Conexão Jovem, onde estiveram presentes vários autores do universo juvenil, como Babi Dewet, Bruna Vieira, Paula Pimenta e Thalita Rebouças; o Quintal de Histórias, onde os participantes puderam se divertir com cantigas e performances teatrais; o Espaço Geek & Quadrinhos, que trouxe oficinas sobre tirinhas, bate-papos sobre games e muito mais; e o Encontro com Autores, que contou com a presença do Pe. Fábio de Melo no dia de abertura.


A Bienal mineira ainda tem muito a crescer, a exemplo das edições de SP e RJ por exemplo, que são internacionais. Contudo, ela já conta com um bom número de estandes e livros para todos os gostos. É possível encontrar desde lojas e editoras grandes - como a Leitura e a Panini - até estandes que apresentam trabalhos mais locais - como a Liga de Autores Mineiros - e essa diversidade de ofertas literárias potencializa a chance de qualquer um conseguir se descobrir no mundo dos livros.


De acordo com Josiane, mãe de Laura, de 4 anos, os preços na maior parte das vezes não diferem muito do que costumamos encontrar nas livrarias e internet, deixando a desejar em termos de oferta. David, assistente do estande da Leitura, discorda: “Quem não conseguiu encontrar preços baixos foi porque não procurou direito”. De qualquer forma, comprar livros na bienal é uma experiência completamente diferente do que o mesmo ato em uma livraria: a bienal é um mundo à parte; um universo inteiro de possibilidades. É o Jovem Adulto misturado com as HQ’s misturadas com os Religiosos misturados com Infantil e assim por diante, em uma bola de neve que se soma também com os espaços interativos, onde você pode desde escutar histórias até aprender a desenhar mangás, por exemplo. 


O Quintal de Histórias foi pura magia Foto: Flickr Bienal de Minas

Existem muitas dúvidas quanto ao destino dos livros impressos na era digital, mas a Bienal é uma prova de que eles continuarão firmes e fortes: os jovens compareceram em massa, desde as crianças até os adolescentes. Um dos livros mais vendidos no evento foi o De Volta ao Jogo, do YouTuber Pedro Afonso (ou como os fãs o conhecem, Rezendeevil), comprovando que a era digital e os livros impressos tendem mesmo é se fundir, sem comprometer um ao outro. A obra de Pedro Afonso conta as aventuras do seu criador no mundo do jogo Minecraft, uma paixão tão grande que já rendeu centenas de vídeos em seu canal. Como conta David, “O Rezendeevil publica até 3 vídeos por dia. As crianças adoram ele!”.


Michelle, mãe de Gabriel, de oito anos, sabe bem disso: “ A gente sempre trouxe ele para incentivar a leitura, mas hoje em dia é ele que pede para vir.” Gabriel confirma: “Eu adoro os livros de Minecraft, mas também gosto muito dos livros de O diário de um banana e de quadrinhos.”

A Bienal de Livros de Minas Gerais, então, se consolida, edição após edição, como um evento de grande importância ao incentivo a leitura e promoção da cultura. Embora não se compare às promoções da época em que ainda era uma feira, ela promete trazer cada vez mais atrações para todos os públicos, aproximando as pessoas dos seus escritores favoritos ou apresentando novos autores. Melhor economizar, afinal 2 anos passam mais rápido do que a gente imagina.

Sobre Dizer Tchau


Tudo começa em trocas de olhares, sorrisos, mãos suadas e borboletas no estômago. Horas perdidas escolhendo a roupa para aquele encontro – que às vezes nem é um encontro mesmo, é só uma conversa na porta de casa – pensando se tá bonito o suficiente. Horas perdidas sem dormir, porque a expectativa de tudo que pode acontecer te consome, até que os olhos não aguentam mais e dormem. E cada vez que chega uma mensagem no celular o coração pula de alegria, pra depois ficar triste, porque era só um sms da operadora. 

Bem, quase todo amor começa de um jeito parecido e sempre existem diversos motivos pra fazer ele crescer: o aperto do abraço, o jeitinho que o lábio do outro se curva para sorrir, um carinho no pé no cabelo. E tem também todas as "primeiras vezes" possíveis, o primeiro beijo, o primeiro filme, a primeira transa, a primeira briga, o primeiro "eu te amo". 

A verdade é que amar é maravilhoso e muito fácil também! Mas nem sempre é o suficiente. E do mesmo jeito que existem milhares de razões para fazer o amor crescer, também existem inúmeras que podem deixar ele pequenininho. Sempre se fala sobre a dor de um amor não correspondido – sem dúvida, a dor de ser deixado é descomunal, dilacera a alma – mas e a dor de quem deixa o outro? 

Não tô falando sobre terminar por ter sido sacaneado ou porque um dos dois vai mudar pro Japão. A coisa da qual estou falando aqui é que às vezes o amor acaba, aquele amor das borboletas, sabe? E por falar nas borboletas, elas vão embora e só deixam um frio no estômago, um frio que bate toda vez que você sente o aperto daquele abraço ou quando, por acaso, você vê que tá passando aquele filme na TV. 

E então, como que numa ironia sacana do destino, tudo parece acontecer assim como no começo: horas perdidas sem dormir, porque a expectativa de tudo que pode acontecer te consome, até que os olhos não aguentam mais e choram e de tanto que choram, dormem. E cada vez que chega uma mensagem no celular, com aquele "eu te amo", o coração se aperta, como se fosse sumir. Porque a verdade é que ninguém quer ser quem desiste. 

Mas por que desistir se o abraço ainda te faz se sentir em casa? Se você quer tanto o bem do outro que só o pensamento de fazer sofrê-lo te faz doente? E então você quer se agarrar a qualquer coisa que possa significar o contrário, que ele – o amor! – ainda está alí, porque aquele carinho no pé do cabelo (lembra dele?) ainda te faz estremecer! Mas aí é que tá, tem coisa que a gente não domina. Assim, só te resta reunir qualquer pedaço de coragem que exista e admitir que o fim chegou. E a verdade é que dizer tchau nunca é fácil.

Autora do Texto: Lays Prates

Master Of None e Comédia Crítica



A Netflix lançou no final do ano passado uma série original de comédia chamada Master Of None. O seriado gira em torno de Dev, um ator indiano cuja família se mudou para os Estados Unidos. Criada e protagonizada por Aziz Ansari, ele utiliza bastante de seu próprio cotidiano como inspiração para os episódios, que envolvem discussões sociais a respeito de minorias e o seu dia a dia como um ator em ascensão.


Aziz tem um histórico marcado por séries de comédia de sucesso, sendo o maior exemplo Parks and Recreation, indicada ao Emmy múltiplas vezes. Ele segue a fórmula iniciada por Louis CK, outro comediante que fez uma série baseada em sua própria vida e que quebrou paradigmas entre comédia e crítica social, aliando o humor ao drama. Cada episódio de MoN retrata uma polêmica diferente, embora alguns arcos de desenvolvimento perpetuem por múltiplos episódios. Com isso, a série se torna bastante contemporânea, pois abrange discussões sociais pertinentes, como por exemplo a forma que os indianos são estereotipados na televisão americana.


Algo que permanece durante todos os episódios é a igualidade entre as raças, presente desde a diversidade étnica de seus personagens à distribuição de tramas para cada um deles. Asiáticos, brancos, negros e indianos são todos representados de forma concreta e autêntica, cada qual com seus próprios preconceitos. Por exemplo, Dev achou que a avó de sua namorada branca, por ser uma mulher que viveu em outro tempo, teria preconceito com sua origem indiana, sendo isso um próprio ato de preconceito com pessoas idosas.


Outro fator que predomina na série é a forma em que os personagens são apresentados de forma realista; algumas das piadas dos personagens não funcionam e eles encaram reprovação, suas atitudes mais estranhas são repreendidas por seus amigos e seus comportamentos não são padronizados: às vezes os personagens se mostram bastante compreensíveis da situação dos outros, porém em alguns momentos eles são intolerantes e passam por momentos de autocrítica.


Todas essas análises da maneira que as pessoas se comportam e de como a sociedade se organiza são realçadas pelo humor presente na série. Ao rir, o telespectador tem maior facilidade em assimilar o conteúdo, tornando a série uma fonte de comentário social. Esse tem sido um padrão recorrente nas comédias mais aclamadas dos últimos anos, como You’re The Worst, Louie e Transparent. Seus personagens se assemelham a figuras reais: eles não são heróis, são pessoas comuns que frequentemente enfrentam indecisões e amadurecem ao decorrer da série. Portanto, essas séries acabam sendo bem diferente das famosas sitcoms (que exigem piadas o tempo todo e raramente cedem espaço a situações polêmicas) mas também não são dramas, uma vez que o humor continua sendo o fio condutor da narrativa; é um gênero inteiramente novo, que talvez não existiria se não houvesse o mercado de streaming para fazer frente à televisão tradicional.


Como o nome sugere, Master Of None não se especializa em apenas um tipo de televisão. É uma mistura de elementos cômicos e dramáticos que, juntos, compõem comentários críticos de problemas sociais, fazendo parte da revolução das séries americanas de comédia. Não estamos mais na era de ouro da TV, mas a Netflix prova mais uma vez que talvez isso seja uma coisa boa.

Precisamos Falar Sobre Jack


Jack (Jacob Tremblay) acaba de fazer 5 anos e não conhece nada que vá além das quatro paredes de Quarto – o mundo em que vive com ninguém mais do que com a mãe e Lucky, seu cachorro imaginário.

Jack, apesar da idade, é um garotinho esperto e sabe de muitas coisas. Sabe que deve dar bom dia a todos residentes de Quarto – a começar pelo Abajur e a terminar pela Privada, sem esquecer da Cobra de Ovo, claro –, sabe que bolos de aniversário devem  ter velas a se soprar, sabe que as pessoas da TV não são reais e sabe que Velho Nick sempre traz Presentes de Domingo.

O que Jack não sabe é que tudo o que vive e acredita não passa de um mundo imaginário criado pela mãe, Joy (Brie Larson), que foi raptada aos 17 anos por Velho Nick. Há sete anos a garota vive presa no barracão e é abusada pelo capturador, que lhe dá as mínimas condições para viver. Jack é sua única fonte de alegria e esperança. Jack é sua salvação.

O Quarto de Jack nos permite acompanhar não só a tomada de consciência do menino sobre a vastidão do “mundo real”, mas também os desafios de maternidade sofridos por Joy – que se estendem para fora do barracão. Ambos personagens precisam se (re)adaptar à vida fora de Quarto; ao mundo e isso não é uma tarefa fácil para nenhum dos dois.

O mais impressionante do filme é que seguimos toda a história pelos olhos de uma criança de cinco anos. É Jack quem nos conta do mundo de Quarto e do que há fora dele; é por meio de sua visão infantil que observamos os conflitos que a mãe sofre tanto presa quanto livre e é com sua ingenuidade que permeamos uma história tão pesada.

Tanto Brie quando Jacob nos mostram um trabalho impecável na execução do longa. Podemos quase sentir fisicamente as dores e dúvidas de Joy – tanto na busca de sua identidade, quanto em seu papel como mãe – e conseguimos ver no olhar da atriz o que a personagem está pensando. Por sua vez, Jack consegue balancear toda essa angústia e sofrimento com maestria através de sua inocência de criança, dando ao filme, por vezes, uma característica de surpreendente leveza.

Em uma mistura de A Vida É Bela e O Enigma De Kaspar Houser, O Quarto De Jack nos conta, acima de tudo, uma história de amor entre Joy e Jack. E, mesmo nas circunstâncias em que os personagens se inserem, esse sentimento se faz de forma pura e é simplesmente lindo.  



Coisa de jornalista




Um dia eu acordei e decidi que queria escrever. Não me lembro como, quando e nem porque, mas sei que em algum momento essa decisão foi tomada. Também sei que já faz muito tempo, pois só isso explica a quantidade absurda de cadernos meus que estão guardados lá em casa. O tempo foi passando e eu percebi que queria algo mais do que inventar histórias. Eu queria histórias reais, queria escrever sobre tudo. Pra mim, sempre foi uma sensação maravilhosa conhecer coisas novas e depois contar tudo, do meu jeitinho, pra que os outros pudessem experimentar as minhas sensações. Aí eu descobri que o que eu realmente gosto é isso, traduzir emoções! 

Não, eu não nasci sabendo que queria ser jornalista, essa certeza eu nunca tive. Mas o jornalismo me encontrou por aí, cheia de expectativas, convidou pra entrar e eu, curiosa que sou, resolvi me aventurar nesse mundo tão acolhedor. 

Mesmo com uma existência tão longa, a profissão “jornalista” ainda gera uma serie de más interpretações. Dos que estão fora do mundo da comunicação, poucos conhecem de fato o que o campo jornalístico pode oferecer a seus aspirantes. De figura intelectual, passando por ativista social, o jornalista começou a ser visto como um transmissor de informação – e talvez aí tenha surgido a ideia utópica da objetividade pura e direta. 

Jornalistas erram. Muitos já erraram, não sei se por despreparo, por descuido, deslize, ou simplesmente porque jornalistas são seres humanos e – convenhamos - errar é muito humano. Tentar ser cem por cento objetivo e desinteressado, pode ajudar um pouco, mas não faz de um jornalista o melhor de sua classe. A paixão pelo que se faz e a vontade de aprender sempre mais, essas sim o destacam, não importa se está na redação, lidando com o dia-a-dia da notícia, atrás dos livros pesquisando, na assessoria de uma empresa ou na sala de aula ensinando e aprendendo, o que importa é se sentir jornalista. 

Há pouco mais de dois anos eu tive a chance de conhecer um jornalista encantador. Na época com 90 anos de idade, o mineiro Carlos Olavo estava longe de aposentar suas ideias. Ele foi idealizador e fundador do semanário “O Combate”, encerrado com o golpe de 64, e é assim que coloca os jornalistas, como combatentes de uma luta que se renova todos os dias. Não é atoa que Carlos nos contou suas histórias de luta contra a ditadura definindo-as como “peripécias de um lutador social”. 

Essa mensagem marcou a mim e a muitos outros que estão crescendo por aí em busca do seu lugarzinho no mundo da comunicação. Marcou porque acima de qualquer técnica, ficou claro o sentimento pela profissão. E mais uma vez eu vi ali que quando se acredita naquilo que se faz, a história é contagiante! Em qualquer área de atuação, o encanto faz crescer o empenho em ser cada vez melhor pra si mesmo e pra sua profissão.  E sim, traduzir emoções em palavras, isso é coisa de jornalista!




Everyone tells lies



Nunca fui dessas que assiste mais séries do que consegue contar nos dedos e espera ansiosa o próximo episódio de Game of Thrones. Enquanto todos estavam viciados em Sense 8, Breaking Bad e Orange is The new Black eu estava, hum, relendo O morro dos ventos uivantes  e decorando as novas músicas do Coldplay.  Eu rebatia os "como-assim-você-não-gosta-de-séries??" com uma esperança romântica: eu só estava aguardando a Série Perfeita, tal como quem espera o príncipe encantado chegar em seu cavalo branco. 

  
Demorou, mas chegou. Eu assisti o primeiro episódio de Lie To Me descrente, mas me bastaram os primeiro 5 minutos para a descrença dar lugar à empolgação. A série narra as investigações de uma equipe especialista em detectar mentiras comandada pelo Dr Cal Lightman, cientista em linguagem corporal e micro expressões. Além de Lightman, a equipe é composta por sua sócia, Dra Gillian Foster, Ria Torres, uma mulher com talento natural para entender as nuances das expressões humanas e Ben Reynolds, um agente do FBI.

Uma mistura de Dr. House (mas Cal Lightman foi inspirado, na verdade, no psicólogo Paul Alkman) com Law and Order, Lie to Me apresenta casos envolvendo fraudes, estupros e até assassinatos, mas sem nos deixar esquecer que por trás de qualquer mentira existe um ser humano pensante e dominado por emoções. É por isso, afinal, que a equipe de Lightman é tão eficiente: eles são como polígrafos humanos.


Apesar de cancelada, Lie to Me não deixa nada a desejar. Pelo contrário: ao final das três temporadas exibidas, é muito improvável que você não se pegue analisando até o mais sutil levantar de sobrancelhas.