Egoísta

Para que esse momento possa ser compartilhado com seus amigos e familiares, habilitamos gratuitamente a rede de comunicação WiFi da aeronave. GOL, linhas aéreas caridosas.
- Uma vez eu vi esse curta metragem que mostrava a queda livre de um cara. Acho que ele caía de um helicóptero, mas podia ter sido de um avião. Era uma estatístico/matemático/algo com contas, porque ele era muito bom em contas, e ele ficava calculando as chances que tinha de sobreviver da queda.
Aos passageiros que gostariam de tirar auto-retratos, fizemos questão de desmontar as asas da aeronave para permitir uma vista limpa ao Oceano Atlântico.
- Eu não sei o quão cientificamente correto aquele curta é, e eles fazem aquela coisa de acabar o filme antes do final para deixar à imaginação do espectador, mas dava a impressão de que ele ia sobreviver.
- Tipo no final de Inception?
- Você acredita que eu não vi?
- Você não viu A Origem?
- Ah não, esse eu vi, só que achei meio confusa a parte do sonho.

Pedimos a todos que estejam rezando que o façam em voz baixa para não incomodar aos outros passageiros.

- A gente vai ficar de boa, nosso assento é flutuante e a gente tem as máscaras se precisar.
- E eu ainda não terminei meu pacote de 2g de amendoim. Para suprimentos e tal.
- Eu tenho um Trident também.

Lembramos que a GOL linhas aéreas inteligentes tem parceria com a empresa Angelus, a maior funerária do Brasil. Você pode conseguir até 10% de desconto utilizando o código GOL se realizar sua compra nos próximos 100 segundos. 99. 98.

- É estranho, eu não consigo pensar em nada. 
- Sério? Não tem uma montagem dos melhores momentos ao som de Pescador de Ilusões passando na sua cabeça?
- Adoro essa música! Ela foi o hino da minha viagem à Paulo Afonso na oitava série.
Gostaríamos de informar que os preços das passagens serão reembolsados apenas em morte por colisão. Os que morrerem afogados, queimados ou despedaçados por tubarões estão por conta própria.
- Você acha que a gente renasce em outro corpo? Ou a morte é só uma escuridão eterna?
- Escuridão tipo quando você tenta se convencer de não pensar em nada e você imagina uma tela preta?
- Quando eu faço isso, eu penso em um quarto em branco.

Aqueles que morrerem por intoxicação alimentar passarão por um exame para determinar se a causa foi de fato o amendoim.

- Eu acredito em céu.
- Oh… 
- Oh o que?
- É meio egoísta.
- Como acreditar em céu faz de mim um egoísta?
- Não basta Deus nos dar um planeta perfeitamente balanceado e com condições ideais, ele tem que criar um Vale Encantado. Parece que Deus é a mãe divorciada e nós somos os idiotas de 13 anos: ela tenta e tenta agradar, mas a gente sempre quer mais e mais, até que ela explode por trabalhar dois empregos e ter um ex marido mais que inútil que, ao invés de dar pensão, necessita de uma para sobreviver. Então, o filho acha injusto você descontar nele e prossegue a explicar o quanto a vida dele é péssima porque ele não recebeu o novo Playstation de natal mas o melhor amigo ganhou 6 quilos de Whey Protein. E, no meio de tudo isso, sua mãe que mora em outro estado falece e no seu caminho até lá o avião tem problemas e você não consegue parar de pensar em como seu filho vai sobreviver, se vai ser com o pai que o abandonou ou com o avô que o renega porque foi concebido antes do casamento. E porquê as máscaras de oxigênio ainda não caíram?
Senhora, por favor, não agrida o painel das máscaras. E respeite o aviso de Não Fumar, você está arruinando a queda para os outros passageiros. 

Tardes de domingo



Abri os olhos e fechei-os de novo imediatamente porque a luz do sol era mais forte do que eu podia suportar nos primeiros segundos do meu dia. Virei para o lado, na tentativa de escurecer um pouco esse dia que já começava me desafiando. Levantei devagar, com o cuidado de quem sabe que está onde não deveria e tem medo de deixar pistas da desordem que causou.

Finalmente, consegui enxergar com nitidez - coisa que eu já não fazia há muito tempo - e percebi que não havia o que temer, eu estava em casa. Andei pelos cômodos empoeirados, toquei as paredes brancas e vazias, agora havia tão pouco de mim ali, mas ainda era um lugar onde eu queria estar. As lembranças, talvez, fossem culpadas por essa minha vontade de sempre voltar. Ou talvez não.

Ter um ponto de partida sempre foi tão importante pra mim quanto almejar a linha de chegada. Os percursos poderiam ser distintos, cheios de curvas e desvios, porém, a cada corrida perdida eu precisava saber de onde recomeçar. E eu sabia.

A casa, aquele espaço físico, me trazia uma boa sensação, mas já fazia algum tempo que eu havia percebido que ele não era o principal. O ponto de partida é mais que um lugar, é um momento, um estado de espírito. Eu sabia que estava pronta e que definitivamente seria hoje.


O relógio me avisava que faltavam poucas horas para que a largada fosse dada, então esperei. Nada melhor do que dar um novo rumo para a vida com  toda a beleza e as expectativas que só nascem em uma tarde de domingo.

Amores eternos - mesmo que terminem



Tem gente que tem a sorte de ter um amor eterno. Eterno assim mesmo, de juntar as escovas de dente e passar os domingos no clichê filme-brigadeiro-eu-e-você. Esses afortunados podem até brigar com o respectivo cônjuge, lançar olhares irritados na mesa de jantar e fazer cara de impaciência ao falar do parceiro para os amigos, mas no fim do dia, tem a sorte de ter um amor-lar, desses que, mesmo longe,te faz sentir em casa.

Mas tem aqueles que metem os pés pelas mãos, se enganam, cometem erros e acabam por afastar quem poderia ter sido o amor da sua vida inteira. Esses são os enganados pelo destino – tiveram ali a chance de provar o que poderia ter sido, mas se atrapalharam e viram o amor nadar pra longe, aonde já não dava mais pra segurar.

A esses, só resta o vazio. Alguns enganam a si mesmos, por que não sabem lidar com o próprio sofrimento. Dizem estar bem, não, bem não. Ótimos! “Há muito não estive tão feliz como agora!”, você consegue ouvi-los nas mesas de bar, segurando copos cheios de qualquer bebida alcoólica que faria um mais sensato revirar os olhos. Outros emendam beijos sem compromisso, lances, amores superficiais, tentando encontrar em alguém a mesma paz que o outro lhe dava.


Outros preferem as lembranças de dias em que a vida já esteve mais colorida. Lembranças de dias em que sorrir era corriqueiro, não inusitado. Lembranças dos beijos, das viagens, das risadas. Até mesmo das brigas – por algo valia a pena lutar. Alguns amores são eternos. Mesmo que terminem. 

Sem Título?





Kendrick Lamar é o melhor rapper da atualidade. Vencedor de 5 Grammys (merecedor de 6) pelo seu álbum “To Pimp a Butterfly”, o rapper da cidade de Compton chegou ao topo; TPAB foi considerado uma obra-prima do rap contemporâneo e provou ser uma evolução natural de “Good Kid, M.A.A.D City”, lançado em 2012: é maior, mais provocador, mais profundo e, embora procure sons menos progressivos que Good Kid, as influências de jazz fortalecem o teor político e racial do álbum, uma vez que traz à tona um estilo musical de origem negra. GKMC, por sua vez, foi maior e mais profundo que seu primeiro álbum, “Section 80”, o que novamente comprova a evolução de Lamar.

Eis então que, na madrugada do dia 4 de Março de 2016, o rapper posta em seu Twitter “untitled unmastered.”, com um link para o iTunes. Nenhum aviso prévio, nenhuma divulgação, apenas lançou o álbum para o público (similar ao último lançamento de Beyoncé, que não utilizou de campanha alguma). A internet explodiu por um momento, mesmo sendo de madrugada, e de imediato percebeu que esse não era um projeto como os outros de Kenny. 

Ele não procurou novos sons como GKMC, pelo contrário, ele se assemelha bastante ao seu último álbum tanto musicalmente quanto liricamente, embora não tenha o polimento de Pimp a Butterfly. Seu próprio título revela a natureza das músicas, “sem título, sem masterização”: uma coletânea das faixas não utilizadas no seu último álbum. Talvez porque não se encaixavam na narrativa de TPAB, ou talvez porque não chegaram ao mesmo padrão de qualidade - o que não significa que elas deixaram de ser pretty fucking good. Vale ressaltar que, embora as faixas não possuam títulos próprios, elas trazem consigo uma data, representativa do dia em que foram produzidas (o único contexto que temos para cada música). 

É uma experiência incrível escutar esse álbum da maneira que foi pretendido, sem conhecimento prévio algum, apenas você e as músicas. Caso não queira “spoilers” do conteúdo de cada faixa, recomendo pular para o último parágrafo. 

Começando com Untitled 1, o álbum apresenta um apocalipse eminente, utilizando de uma batida mais obscura que destaca a natureza destrutiva da humanidade. Untitled 2 inicia com o já icônico “Pimp-Pimp horray!*”; é uma faixa que trata do conflito interno de Kendrick, entre o status de fama global que alcançou na indústria da música e sua vida tranquila na cidade de Compton (importante ressaltar que a faixa é de 2014 e já profetiza o sucesso de TPAB, que foi lançado no ano seguinte). Ele é distraído pela riqueza e por sua popularidade, porém a violência e a injustiça em sua cidade natal o mantém perturbado. Pessoalmente, é a minha faixa favorita, com um refrão viciante e uma temática surpreendente para um rapper, podendo facilmente estar no próprio TPAB. 

A terceira música, por sua vez, dá voz às minorias, retratando seus modos de vida em contraste com a maneira que o homem branco vive, que é um modo mais materialista e mais usurpador; ao fundo, o baixo segue o mesmo ritmo do início ao fim, assim como a bateria, gerando um ritmo mais natural. A próxima faixa possui uma estrutura bem diferente; a primeira estrofe contém um coral, que recita as injustiças sofridas pelos negros, sendo coordenado por sussurros de Kendrick, uma metáfora para a influência que ele tem sobre seu público. A segunda estrofe em diante, já sem a presença de Lamar, clama para as pessoas terem um pensamento próprio, não duvidando de si mesmas. É uma faixa que, em um álbum normal, teria função de interlude (espécie de transição entre faixas). 

Untitled 5 retoma a temática do poder e fama, dessa vez apontando a faca às disparidades de poder e desigualdades sociais. A música traz consigo uma sensação de desordem, com baixos e saxofones em ritmos desorientantes – enriquecer é um sonho tão grande para os pobres que acaba afetando seu senso comum, tornando-os destrutivos e violentos (o que por sua vez leva à formação de gangues). A música que segue muda completamente a temática e retrata uma conversa entre duas pessoas, um homem e uma mulher, em que ele tenta explicar para ela que embora sua natureza masculina seja supérflua, ela acredita nele e isso o fez acreditar em si mesmo. É uma música que pede para abraçarmos nossas imperfeições e nossas falhas, aceitando-as. Seu ritmo se assemelha bastante a um samba, utilizando de um excelente arranjo que complementa a beleza lírica. 

A sétima faixa funciona em uma tríade, se dividindo em 3 partes. Uma faixa de 8 minutos com ritmos extremamente variados, retratando temas como inflação de ego e redução do mesmo, o que representa a maneira que a fama dos artistas cresce e decai. A melodia segue esse princípio, com uma batida quase hipnotizante a princípio que vai perdendo suas partes nas transições entre os segmentos, sendo que o último é apenas uma sessão de estúdio em que Kenny admite que ele e sua banda estão simplesmente se divertindo; esse momento representa de forma precisa o álbum como um todo. A última faixa volta a ter ritmo mais agitado, retratando as dificuldades financeiras dos negros e a maneira que Kendrick conseguiu superar essas barreiras e chegar ao sucesso, porém afirmando como a glória não leva à felicidade. 

É um álbum experimental que retrata diversos temas à sua própria e única maneira. Lamar não tem as respostas para os problemas da sociedade, ele apresenta suas ideias como pensamentos, não como certezas absolutas. É uma honestidade que se encontra cada vez menos presente no mundo atual, e a forma que esse álbum foi lançado reforça ainda mais essa ideia, com o título e a capa indicando desde o momento inicial a natureza inacabada desse projeto. A princípio eu admito que achei o álbum como um todo o mais fraco do artista por sua natural falta de coesão, mas a cada vez que o escuto ele faz mais sentido: assim como dita uma das faixas, suas falhas são o que o tornam tão especial. 

*A frase faz menção ao seu último álbum, com uma animação apresentada de maneira sarcástica. Isso pode significar que embora o último álbum tenha sido um sucesso e gerado discussões, ele não resolveu os problemas que os negros enfrentam todo dia.

Needed a little sweetness


Segurar um show para mais de 30 mil fãs na esplanada do Mineirão não é para qualquer um, mas a banda americana Maroon 5 deu mais do que conta do recado nessa ultima sexta-feira (11) na capital mineira.


É quase impossível não conhecer Maroon 5: criado em 2001, o conjunto vem lançando singles desde então e parece não conseguir ficar longe das rádios por muito tempo. Atualmente em turnê pelo seu disco V, os seis integrantes vieram pela segunda vez para Beagá, trazendo com eles muita energia boa e simpatia.

Parecia quase surreal imaginar que veríamos, com nossos próprios olhinhos, Adam Levine em carne e osso, e a empolgação era evidente mesmo antes do show. Já tínhamos passado por cinco álbuns e só queríamos poder declamar todas as canções - e, até mesmo, derramar algumas lágrimas por elas - o quanto antes! 

E Adam, Jesse, Mickey, PJ, James e Matt não nos decepcionaram - às 22 horas em ponto, ao som de Animals, um Adam Levine platinado e muito tatuado entrou no palco levando milhares de fãs a estado de histeria. O show reuniu os maiores sucessos dos californianos, como Sugar e Wake Up Call, conciliando momentos de animação com momentos intimistas, como em She Will Be Loved, quando Adam puxou seu violão e ouviu o brado emocionado do público. Foram de arrepiar os momentos que, sem os instrumentos e os vocais da banda acompanhando, pudemos escutar apenas as vozes da multidão: em conjunto, conseguimos embalar a noite uns dos outros com uma doçura inacreditável. 

De Belo Horizonte, Maroon 5 seguirá para Salvador (13/03), Fortaleza (16/03), São Paulo (19/03) e Rio de Janeiro (20/03). Mas por aqui, continua o brilho nos olhos e a certeza de que música boa é assim: nos faz lembrar de que ser feliz é o compromisso mais importante que temos com nós mesmos.

(IN)CERTO


Deitou-se na cama.

Os olhos despertos podiam ser vistos mesmo com as luzes apagadas: corriam pelas órbitas do pensamento de forma neurótica, como que procurando por algo; procurando por um propósito, talvez.

O silêncio ensurdecedor que o cercava parecia incentivar a mente – maluca como nunca – a funcionar depressa, sem filtros, sem escrúpulos ou ressalvas de sentimentos mistos e confusos. Uma batalha silenciosa era travada entre o sossego da noite e o tumulto da consciência, e ele, indefeso, encoberto, desarmado, era esmagado contra a cama enquanto assistia a briga, sem forças o bastante para impedi-la.

Imagens eram jogadas e rasgadas frente aos seus olhos e já não conseguia distinguir, com certeza absoluta, as memórias reais das criadas por ninguém menos do que ele mesmo. As recordações, que pareciam funcionar em um espiral sem fim, eram tão vítimas quanto ele próprio. Eram ambos prisioneiros de seu maior pesadelo, daquelas duas palavras sobre as quais não tinha controle algum quando postas lado a lado: e se... E se? E se?


E se...

Levantou-se.

Os pés descalços. A alma exposta. Os olhos abertos, atentos, felinos, em busca de algo que nem ele sabia o que era.

Foi até a janela da cozinha – aquela que lhe dava a melhor vista da cidade; dos problemas alheios. Tentou ater-se a eles; tentou ater-se a qualquer coisa que não fosse puramente sua. Mas e se...

Fechou os olhos com força e respirou fundo algumas vezes. Foi tomado por uma nostalgia gostosa de coisas que nunca aconteceram – não passavam de frívolas invenções suas. Deu um sorriso leve: estava enlouquecendo de vez.

Passou as mãos pelos cabelos em uma tentativa frustrada de arrancar todas aquelas preocupações, todas aquelas histórias, todos aqueles cenários e, principalmente, todo aquele maldito “e se” de sua cabeça.

Sabia que era simples. Sabia que era coisa de sua mente. Sabia que devia se permitir às coisas. Sabia que deveria deixar o tempo, em seu tempo, ditar o que seria do tempo dele. Sabia que não podia ter o controle de tudo, de todos e dos sentimentos de tudo e de todos. Sabia. Talvez esse fosse o maior problema, afinal. Mas e se...

Trocou o pijama, pegou as chaves e saiu – precisava de ar puro, de lugares que não tivessem tão impregnados com frases sem sentido e perguntas sem repostas. Andou sem rumo por algum tempo. Talvez tivesse caminhado por horas, talvez não tivessem se passado muitos minutos: ele não saberia dizer. Chegou a uma pequena praça pouco iluminada e, ao se dar conta da travessura pregada pela própria mente, era tarde demais: conhecia aquele lugar. Gostaria de não conhecer aquele lugar, aliás.

Sentou-se.

Em meio a tantas pessoas, em meio a tantas vidas, em meio a tantos pensamentos histéricos, ele ficou. Foi tomado vagarosamente por um cheiro familiar; um perfume cítrico forte que lhe perseguia mesmo quando não estava realmente lá. Teve uma repentina sensação de que, se virasse o rosto, se olhasse bem para a multidão, encontraria exatamente o que queria não querer encontrar.

Esperou.

Preferiu não olhar. Afinal, e se... 

White People`s Choice Awards




O Oscar é a premiação mais importante dentro do mundo do cinema - ou assim ele é visto. A noite de gala reúne os mais renomados atores e atrizes, obtendo atenção global no inicio de cada ano. Nos vemos em meio a discussões e bolões sobre as categorias e não deixamos de comentar como o vestido da Fulana-del-tal estava maravilhoso enquanto o da Ciclana deixou a desejar. 

Nesses meses do ano, uma das perguntas mais recorrentes é “você já viu os filmes do Oscar?”. Se não assistiu, assim como nós, deve sentir certa pressão para colocar em dia sua lista de filmes. Nos sentimos obrigados a ver os indicados pela Academia - como é conhecido o grupo de jurados da premiação -, pois se está no Oscar é porque deve ser o melhor que o cinema tem a oferecer. Mas será mesmo? 

Parece uma premiação perfeita, mas as coisas podem começar a mudar um pouco quando realmente paramos para pensar sobre ela. A começar, quem são as pessoas responsáveis pela escolha, dentre tantos longas produzidos anualmente, daqueles merecedores da indicação e da vitória de sua famosa estatueta dourada? 

A Academia é formada por mais de seis mil integrantes, estando eles distribuídos por todos os setores da indústria. Basicamente, pode tornar-se membro aquele ou aquela que já tiver recebido alguma indicação ao Oscar e, pagando uma taxa anual, essas pessoas ficam dirigentes a escolher e votar em quais serão os filmes participantes e vencedores de cada categoria da noite. E é aí que começam os problemas… 

O Oscar segue ganhando cada vez mais atenção para o fato de ser um evento onde homens brancos premiam homens brancos - e grande parte disso se deve à representatividade negra dentro da própria Academia. Dos seis mil participantes com poder de voto, apenas cerca de 2% são negros, ou seja, 120 pessoas. Isso, provavelmente, pode ser considerado como um dos fatores que levam à baixa taxa de indicação e vitória de negros na premiação. Chega a ser alarmante que, em 88 anos de Academia, apenas sete mulheres negras e oito homens negros foram agraciados com a estatueta por seu papel principal - e ainda mais chocante que, das mulheres, quatro vitórias se deram por papeis de serviçais ou escravas. 

Além do problema da representatividade, por diversas vezes os vencedores foram filmes que não sobreviveram ao teste do tempo (quem lembra de Discurso do Rei ou Crash?) e filmes “perdedores” se tornaram clássicos históricos como Cidadão Kane e O Iluminado, que por sinal nem foi indicado. Fomos acostumados a escutar que o Di Caprio nunca ganhou o prêmio de melhor ator, embora ele já tenha sido reconhecido por inúmeras outras premiações.

 Outra questão que passa despercebida aos olhos das pessoas é a categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Em teoria, parece ser uma maneira da Academia reconhecer filmes produzidos em outros países. Na prática, essa categoria eleva a prepotência da indústria americana. Apenas os “peso-pesados” concorrem ao prêmio principal, e foi criada uma outra categoria para que os “peso-pena” tenham alguma chance de saírem vencedores: em toda a história, apenas 9 filmes estrangeiros foram indicados a Melhor Filme. Parafraseando Chris Rock, “você é bom, Filho de Saul, mas não o suficiente”. 

Não pretendemos desmerecer os vencedores ou propor uma premiação em que todos os indicados ganhem. Vamos continuar assistindo o Oscar todo ano - mesmo que seja pra ver a Glória Pires -, porém gostaríamos de ver uma premiação mais justa e menos prepotente ano que vem. Dizem por aí que estão realizando grandes mudanças na seleção de membros da Academia. Resta esperar que para a próxima edição alguns desses problemas sejam resolvidos, afinal, no fim do dia, o Oscar manteve sua posição como a premiação mais importante do mundo por 88 anos, e isso devia, ao menos, fazer como que ele fosse pensado em um modelo mais justo e democrático, não passível de tantas críticas.