Lembrete


Lembro-me bem de como tudo começou: uma troca de olhares, sorrisos tortos e uma música alta me impedindo de entender as palavras que trocávamos. Nunca me importei do álcool ter retirado da minha boca as cantadinhas certeiras para lhe beijar.
À medida que nossos encontros aumentavam, perdia proporcionalmente a minha visão.  E por mais que não quisesse transparecer, era só você falar que eu aparecia bem ao seu lado, sendo mais obediente que o pulguento do seu cachorro. Dava a você atenção, carinho, dedicação e mimimi de coisas que mulherzinhas pedem aos céus diariamente.
Demorei, mas entendi o nosso problema. Você sempre tão prática e sempre tão engajada em causas, e casas, alheias certamente não teria tempo para bobagens como relacionamentos. Se dizem que as mulheres são mais românticas que os homens é porque os pesquisadores não se deram o trabalho de incluir você na pesquisa.
Agora que você tá aí toda rejeitada, acabada, caçando paixão, não espere que eu vá fazer como Leoni e dizer “por que não?”
Deveria ter escutado antes que amor de boate não floresce. 

Ainda era muito cedo quando decidi partir..


  Peguei minha mala e comecei a juntar todos meus pertences. Roupa por roupa, objeto por objeto. Ainda era muito cedo quando decidi partir, aquele lugar já não fazia parte do meu presente, já não tinha as mesmas cores e nem o mesmo sabor. Arrumar minha mala significava, naquele momento, arrumar minha vida. De certo e incerto sempre acreditei muito nas pessoas e depositei muita fé. Não, eu não me arrependo disso e confesso que sinto certa preguiça de quem julga os outros sem buscar compreender o que está acontecendo de verdade e se dá ao luxo de esquecer que todo ser humano tem fases ruins e, vez ou outra, precisa de um tempo sozinho. Uns minutos, uns dias, umas horas e até mesmo uns anos, mas não precisamos de nos culpar por isso, pois como eu disse, é apenas uma fase e é natural. 
 Meu álbum de fotos.. Quantas pessoas que riem comigo naquelas imagens ainda estão presentes na minha vida? Não sei ao certo, mas te digo que a maioria já partiu. Não, elas não foram embora porque tenho algum defeito ou porque tivemos algum tipo de atrito, elas só se foram porque a vida exigiu e agora chegou a minha vez. Ninguém percebe, mas sempre que olhamos uma fotografia temos algum tipo de sentimento, seja de carinho ou saudade, de tristeza ou dor e em consequência disso, dá até vontade de montar uma máquina do tempo para reviver ou consertar certos momentos, mas como isso não é possível a gente busca suprir a falta por meio das lembranças. Esse reverterio emocional vem do simples fato de que de algum modo, aquela pessoa, daquela foto, causou algum tipo de mudança em nossas vidas.Por isso tenho que ressaltar outro ponto: as mudanças podem ter sido positivas ou negativas, mas foram mudanças. Às vezes penso sobre isso e sempre chego a mesma conclusão, somos nos mesmos em essência, mas grande parte do que nos tornamos, é construído por pedaços de pessoas que, nem que seja por um pequeno período, estiveram com a gente e que por termos aquele sentimento, daquelas fotos, é que as deixamos partir, sem cobranças ou ressentimentos. 
   Por esse motivo, arrumei minha mala e parti, porque mais do que precisar de um tempo, eu preciso de mim. Acho que já tem mais partes de você em meu ser, do que de minha própria essência. Ainda tenho fé no que você diz, mas não posso mais acreditar no que quero, pois ao contrário do que eu presumia, compreendo muito mais do que deveria sobre o que está acontecendo ou, pensando melhor, compreendo o suficiente e como já mencionei, sentimentos existem e retornam mesmo que não os esperamos. Porém, quando amamos, devemos deixar partir. No caso, tenho uma coisinha por você, mas descobri que o amor verdadeiro é meu, e por isso me deixei partir. Partir para fazer o que quiser, na hora que quiser, para realizar aquele sonho.. Partir para fazer mudanças e realizar tudo aquilo que sempre quis e também porque senti a exigência, que veio de dentro. Então, quem sabe não nos vemos daqui uns minutos, meses ou anos?

PS: Não foi nada pessoal, mas como eu disse.. as pessoas mudam e, as vezes, precisam de um tempo.

" Um belo dia resolvi mudar.."

Então... Mudança... Mudança, né ? Mudança... Pensei em escrever sobre como a vida é, em si, uma eterna MUDANÇA e os medos que isso acarreta na gente... Insegurança, indecisão... Como é difícil largar nosso osso roído e ir procurar outro novinho e suculento, mesmo sabendo que o nosso já não dá mais caldo... Mas aí lembrei que provavelmente todo mundo antes de mim já teria falado disso, aí, como diria a querida Rita Lee, “um belo dia resolvi MUDAR”. Como adoro assuntos polêmicos e fazer as escolhas mais inusitadas para poder MUDAR do comum, pensei: vamos falar de MUDANÇA de sexo! Mas quer saber?! Também não quero falar disso. Se fosse, teria que organizar argumentos, explicar processos e julgar o comportamento humano, o que faria com que meu texto acabasse sendo um texto padrão, que não MUDARIA em nada. Poderia também falar para nos “libertarmos de nossas vidas vulgares”, mas acabaria sendo aquele lero lero que, depois de escrever, eu desligaria o computador e faria tudo da mesma maneira, minha mesma rotina. Já que é para mudar, não quero concluir nada, nem decidir qualquer posicionamento. Mas se vale um conselho, essa música da Rita Lee é realmente bacana!

Vontade de sentir o passado...


Ali estava eu de frente a um pequeno muro. Não era um muro qualquer, era o muro que separava o meu presente estático e contemplativo de criança solitária, do meu futuro alegre e cheio de correria de criança esperta. Dei três passos para trás. Respirei fundo. Corri. Fechei os olhos e me imaginei quase como um ginasta olímpico. Aterrissei. O futuro virou presente.
Todos já me esperavam. Dei um cumprimento rápido e geral, quando se é criança, formalidades são abstraídas. Não só as formalidades. As preocupações, os sensos de perigo e as consequências se tornam irrelevantes. Ah as consequências... Ainda bem que elas são irrelevantes.
Aproveitei ao máximo, não por pensar ser um dia especial, mas porque fazia parte das minhas obrigações de infância. Está tudo lá, no papel timbrado e outorgado: “Criança tem é que aproveitar a vida ao máximo...”.  Corri tão depressa quanto podia, seja perseguindo o objeto rechonchudo que teimava em fugir de mim, seja atrás daqueles que caso eu alcançasse, perpetuariam a correria sem fim.
As horas passaram. Senti-me extasiado em meio a risadas e às novas cicatrizes que surgiram. Todo aquele processo quase ritualístico se fazia presente: Gritos, risos, alguns xingamentos amigáveis, mais risos, algum comentário pertinente, outro nem tanto, segundos de silêncio, e mais risos engatados por alguma lembrança.
E o que se passava em nossas cabeças? Nada. Éramos simplesmente amigos.
Ouvi um grito. Fingi que não era comigo. Ouvi o grito novamente. Não havia como evitar. Dei o retorno com a voz embargada. “Já vou...”
O silêncio prevaleceu. Trocamos alguns rápidos abraços de uma famigerada despedida. Junto aos abraços vieram algumas promessas. Esquecer? É claro que não. Visitar? Com certeza. Amigos? Para sempre.
Voltei correndo para casa. Não havia mais a necessidade de pular o muro. A caminhonete já me esperava ironicamente de portas abertas. Sentei-me. Visualizei pelo retrovisor alguns pertences. Junto a eles, um velho vira-lata de olhos remelentos e orelhas caídas. Será que a tristeza dele era compatível à minha?
O carro ganhou movimento, sem pressa a nossa velha casa foi ficando para trás. Avistei um grupo de crianças à nossa frente.  Elas abriram passagem. Dei uma última olhada em cada um, apenas para que o cérebro certificasse de guardar cada detalhe. As mãos de todos se abriram e ganharam movimentos, a boca também se abriu e um tchau engasgado saiu pela janela.
Lembra-se das promessas feitas? Ganharam os mesmos seiscentos quilômetros de distância que os nossos pensamentos conjuntos. Ah, as promessas... Talvez tivessem surtido um efeito maior em outras circunstâncias. Quem sabe se tivéssemos juramentado por Deus? Talvez por nossas mães? Ou quem sabe por nós mesmos? Pena que não.

Being bad feels pretty good, huh?


Acompanhar a evolução de um personagem sempre foi para mim uma das partes mais divertidas de se assistir um filme. Um bom roteiro me emociona e é inevitável não criar uma identificação imediata com personagens que passam pelas mesmas mudanças e dilemas que você.  E quando em um mesmo filme cinco personagens sofrem uma mudança completa?

Você nos enxerga como você deseja nos enxergar... nos termos mais simples e nas definições mais convenientes. Você nos enxerga como um cérebro, um atleta, um caso perdido, uma princesa e um criminoso. Correto? Essa é a maneira que nos víamos, às sete horas desta manhã. Passamos por uma lavagem cerebral...”



Bom, em casos como esse, o filme torna-se um ícone de uma geração inteira. Além de possuir um lugar permanente na minha lista de filmes favoritos, claro.  “O Clube dos Cinco” (The Breakfast Club, John Hughes, 1985) pode parecer ao simples observador como nada mais que um clichê filme adolescente.  Mas é muito mais do que isso. Confinados em uma mesma sala por horas, o que presenciamos é a quebra de estereótipos, a descoberta, aquele momento maravilhoso em que você descobre que aquela pessoa, aquela mesma sempre avistada no corredor ou em um canto afastado da sala, é o completo oposto do imaginado.

Cinco pessoas completamente diferentes. Cada um pertencente a um grupo social limitado. A patricinha, o bad boy, o nerd, o atleta, a solitária. Vemos o bad boy mostrar sua sensibilidade, a "princesa" revelar suas inseguranças, a garota solitária ganhar confiança. E, em uma das cenas mais divertidas da história do cinema,   o atleta e o indiscutível nerd interagem como melhores amigos graças aos  poderes das drogas ilegais. 

A convivência forçada, apesar de assustadora, sempre me pareceu como a melhor maneira de sair de minha zona de conforto. A diferença ao nos depararmos com pessoas novas e diferentes é sempre chocante. E "O Clube dos Cinco" explora exatamente esse contraste. Até que ponto podemos conhecer alguém? Realmente conhecer alguém? Somos realmente definidos pelos amigos que temos, as músicas que ouvimos, as roupas que usamos?  

Ao se tornarem amigos - o que no contexto das escolas americanas era praticamente impossível - os personagens nos mostram que todos representam uma parte única de cada um de nós. Todos possuímos lados escondidos, personalidades que se adequam a diferentes contextos, guilty pleasures ocultos sob fones de ouvido. A mudança é apenas uma parte representativa do amadurecimento e do dinamismo que nos acompanham desde o momento em que colocamos os pés nesse planetinha azul. E, quem sabe? Às vezes, "being bad feels pretty good." 




"O que descobrimos é que cada um de nós é um cérebro, um atleta, um caso perdido, uma princesa, um criminoso."



Ch-ch-changes...



O refrão de um dos maiores clássicos de David Bowie já convidava a "virar e encarar o estranho" e afirmava que apenas era necessário ser alguém diferente. Como dito nessa música, o tempo pode mudar, e muito, uma pessoa, e como bandas são pequenos aglomerados de pessoas com diferentes personalidades e rumos imprevisíveis, a música está cheia de histórias de grandes mudanças.

Existem, talvez, duas formas diferentes de mudança no mundo da música: a criativa e a oportunista. Parece drástico rotular a quarta virada de carreira de um certo grupo de Slough, Inglaterra, como oportunista, mas como ignorar essa tradição do grupo que aprendemos a conhecer como Viva Brother, que lançou em 2011 uma desastrosa e criticada tentativa de revival do Brit-pop, de mudar de gênero, nome e endereço a cada falha na missão de estourar no mundo da música? Desde o dia 20 de julho os rapazes que já foram chamados de Kill the Arcade e Wolf Am I largaram as guitarras pelos sintetizadores e querem ser chamados de Lovelife.





Outro exemplo chega na forma de uma pergunta simples: qual é sua música favorita de Lizzy Grant? Não conhece? Conhece sim. Lizzy não conseguiu atingir as paradas com seu próprio nome, mas como Lana Del Rey, a história foi bem diferente.

Mas existem mudanças na música que extrapolam (e até ignoram) o mercadológico. Talvez a evolução mais famosa da história do rock está fundamentada na carreira de uns quatro rapazes ingleses, que abandonaram um rock direto e um código de vestimenta monocromático, para mudar completamente a cara da história música, não apenas da sua própria história.

O The Beatles possuiu tantas fases que uma pergunta válida para qualquer fã da banda que afirma "Os Beatles são minha banda favorita" é "Qual Beatles é sua banda favorita?". Mas a riqueza de Paul, John, George e Ringo está nessa constante reinvenção, que nos entrega em um mesmo pacote She Loves You e Across the Universe, Norwegian Wood e Helter Skelter. Uma evolução orgânica, que encontra um paralelo atual na crescente eletronização do Radiohead, que foi da fúria adolescente de Creep até flertes com o Dubstep no controverso The King of Limbs em poucos anos.





Os fãs nem sempre recebem bem as grandes viradas do mundo da música. Cada revolução proposta por Bob Dylan em sua carreira foi recebida com a ira dos puristas, fato exemplificado pelo abandono e vaias dos fãs em pleno Newport Folk Festival de 1965, no qual Dylan se apresentou com uma banda "elétrica" pela primeira vez. Enquanto alguns permanecem na defensiva em relação a tudo que é novo, outros defendem até as mudanças mais estranhas (e em alguns casos, ruins) por nostalgia e amor ao que uma banda foi um dia. A mudança gradual do Coldplay, por exemplo, sob o comando do produtor Brian Eno, e a virada drástica e experimental do MGMT possuem vários defensores exaltados nas bases de fãs das respectivas bandas.

No Brasil não faltam casos. O Titãs oscilou por diferentes gêneros em sua trajetória, gêneros que acompanhavam a principal mente criativa na banda do período. O início acompanhava as inclinações Punk e New Wave de Arnaldo Antunes e Branco Mello, enquanto a virada pop, radiofônica e melancólica do grupo foi comandada por Paulo Miklos e Nando Reis. Caetano Veloso ainda deixou muitos em choque com o lançamento do caótico , e o Los Hermanos por muito tempo renegou seu passado pop de Anna Júlia.

Desde o início da música, as notas são as mesmas. O som nunca mudará, está escrito na matemática das ondas, das frequências. Se não houvessem mentes dispostas a mudar tudo, disco após disco, a estagnação seria ainda pior que o silêncio.

Olhando de lado

A sazonalidade das coisas pode ser assustadora. A quantidade de momentos na vida que se passam, as lembranças que se perdem, as pessoas que mudam... Mudança. Interessante tema a ser pensado, não? Essa semana, é esse o tema do Sem Pauta. Porque por mais que queiramos que a vida permaneça igual, ela teima sempre em nos surpreender com novas circunstâncias, com uma mudança de olhar.