Manifesto da Fragilidade


Por Mauro Lima

Um espectro ronda os seres humanos – o espectro da desconfiança. Ninguém tenta exorcizá-lo. Todos já se acostumaram a ele. Todos exceto nós. Nós que queremos uma nova visão.

Somos nós, as pessoas que não aguentam mais o ponto de escárnio que as relações humanas atingiram, que não nos acostumamos à desconfiança. Vivemos a fragilidade. Somos a fragilidade. Amamos admitir isso.


1. Queremos cantar o amor à fragilidade.
2. As dores serão os pontos essenciais de nossa poesia. A dor é uma redenção. A fragilidade, uma bênção.
3. Permitimo-nos machucar, chorar. Permitimo-nos errar.
4. Queremos sempre aprender com nossos erros, por isso somos frágeis.
5. Queremos machucar-nos para cicatrizar-nos. Se pensarmos ter atingido o ponto máximo da morfina, queremos nos machucar em outras experiências.
6. Queremos experimentar, viver todas as possibilidades do mundo. Por isso devemos ser frágeis.
7. Cansamos dessa constante casca anti-sentimentos que nos segue dia e noite.
8. Somos contra a falta de dolo, de compaixão. Lutamos para expurgar de nossos corpos e nossas relações quaisquer vestígios de apatia. Viver é delicioso somente quando se é frágil, quando se permite cair.
9. Já não há beleza senão na fragilidade.
10. Afirmamos que a magnificência do mundo não está no rancor, na falta de paciência ou na amargura. A magnificência do mundo está na delicadeza.
11. Queremos ser crianças para podermos aprender tudo o que os outros têm para ensinar. Queremos ser leves, queremos ter arranhões. Queremos ser frágeis, ser humanos.

Seres humanos de todos os países, fragilizai-vos!

Bebê abandonado no interior de Minas aguarda família


Por Leonardo Ribeiro.

Um bebê foi encontrado na manhã de sábado (12), as margens do rio Santana na cidade de Abre Campo (227 km de Belo Horizonte), por uma moradora da cidade que pretendia comprar pão. 

“Seguia para a padaria, ali do lado da farmácia de Claudionei, como todas as manhãs, neste mesmo horário para comprar o pão para tomar com café, e quando passei pela ponte escutei um choro de criança”, descreveu Maria Vitória. “Olhei para o rio e vi um monte de pano enrolado. Gritei, gritei, gritei desesperada. Marcílio foi o único que saiu da casa dele para me ajudar. Os outros da rua ficaram gritando que iam chamar a polícia pra mim, só porque eram seis da manhã”. 

O único morador da rua mais próxima ao local dos gritos que saiu para ajudar, Marcílio Mendes, pulou a ponte, caindo no barranco próximo ao rio e pegou o bebê, do sexo masculino, que estava enrolado em algumas toalhas e chorando. Após deixar o bebê nos braços de Maria Vitória, Marcílio ligou para a polícia imediatamente e para o hospital logo em seguida. 

A PM procurou afastar os curiosos e encaminhou o bebê para o hospital Nossa Senhora da Conceição, na rua Otacílio Lopes, em Abre Campo. Os médicos informaram que o bebê passa bem, mas que ainda serão necessários alguns exames. Assim que receber alta, por determinação do delegado Renato Almeida, o bebê Francisco, batizado por Maria Vitória e as enfermeiras do hospital, será levado para um abrigo da cidade. 

Os policiais não encontraram a mãe da criança, mas já começaram a investigar em maternidades, de Abre Campo e região, pessoas que deram a luz dois meses atrás. Segundo investigações, a PM suspeita que o bebê tenha sido deixado por volta das quatro da manhã, na madrugada de sexta para sábado, horário em que a vida noturna é concentrada apenas na praça distante do rio. Ainda segundo um dos policiais, os motivos do abandono podem ser vários: “questões financeiras, depressão pós-parto, ou qualquer outro que a gente ainda não sabe”. Independente da causa, se descoberta, a mãe biológica da criança poderá responder por abandono de incapaz, como previsto no Código Penal Brasileiro, artigo 133. 

Maria Vitória vê o bebê Francisco como um presente divino e quer mesmo ficar com a criança. “Foi Deus que mandou essa criança para mim. Ele veio para ser o filho que eu não tive. Esse será o meu primeiro dia das mães. Não poderia estar mais feliz”. 

Há quem defenda na cidade que o bebê seja entregue a qualquer outra pessoa da cidade ou região, menos a mulher que o encontrou. “Essa mulher é uma solteirona, vive com problemas, não tem cabimento um bebê que está frágil, necessitando de cuidados, fique aos olhos dela”, declarou uma moradora. “Maria Vitória tem uma cabeça frágil. Acho que ela é bipolar. Mora sozinha, não deve conseguir cuidar de um bebê”, comentou outra moradora que também não quis se identificar.

Marcílio, responsável por pegar o bebê, acredita que não terá pessoa melhor para cuidar da criança que Maria Vitória. “Ela sempre foi muito atenciosa e dedicada com as pessoas, apesar dos seus problemas de saúde. Deu para perceber um olhar novo no rosto dela ao carregar a criança. Ser mãe mexe com as pessoas e essa relação será boa tanto para o Chico, quando para Maria Vitória”.

O Conselho Tutelar ainda não determinou se Maria Vitória será a responsável pelo bebê. Por enquanto ele será encaminhado para o abrigo determinado pela PM até que o pedido de adoção seja analisado. 

Rio Santana


O que é frágil?


       O que é frágil para você? Um copo de vidro, uma criança de colo ou os sentimentos humanos? Segundo o dicionário, frágil é “aquilo que se quebra facilmente”. Porém, existem certas palavras que, no decorrer da vida cotidiana, acabam por agregar novos significados que substituem ou se ligam a algumas situações, as quais poderiam ser consideradas o verdadeiro sentido daquele vocábulo, e com “frágil” não foi muito diferente.

       Esse termo acabou por ganhar um sentido que muitas vezes está diretamente relacionado aos sentimentos humanos. Muitas pessoas acreditam que a maioria das virtudes e situações que estão relacionadas aos sentimentos alheios se tornam questões frágeis, pois são sensíveis e podem causar danos. “Ao meu ver, frágil é o estado de tudo aquilo que depende de algo para existir. Como exemplo, cito os sentimentos amorosos, considerando que eles só existem e se sustentam por meio da reciprocidade dos seres”, afirma Gabriel Chaffim, estudante de Publicidade e Propaganda.

      No entanto, é válido ressaltar que há ainda quem use o sentido literal da palavra, como Helton Gonçalves, estudante de Engenharia de Controle e Automação “Para mim, frágil é alguma coisa fina, que quebra fácil. Um copo de vidro é frágil.” Por fim, existem pessoas que mesclam a definição formal com  as questões humanos “Para mim, frágil é algo que se quebra facilmente, algo fraco. Não necessariamente um objeto, as vezes uma pessoa ou um sentimento é bem mais frágil do que uma coisa.” , como define Nina, estudante do 2º período de Comunicação Social.

       Diante dessas opiniões é possível perceber que existem diversas definições para esta palavra, que variam de acordo com pontos de vista distintos. Então, para você, o que é frágil?

Por que se aceitar como frágil?


Por Nathália Alcântara

Já se foi o tempo em que a seleção natural e o instinto determinavam que os “machos” mais fortes e agressivos seriam os responsáveis pela sobrevivência feminina e de sua prole. Há muito não temos mais que limitar nossas vidas à expectativa de um bom casamento e nos afligir se iremos ou não ter um filho homem para proteger, sustentar e perpetuar a família. Enxovais, toalhas, bordados, pregar botões em camisas, eletrodomésticos e receitas não são mais o foco da mulher moderna, que já percebeu, há muito tempo, que esse papo de “sexo frágil” é furado e que ser fisicamente mais frágil, sensível e afetuosa não tem nada de condenável.

A consciência do valor feminino e de sua capacidade de sedução, a liberdade sexual, as possibilidades de independência financeira e profissional têm mostrado às mulheres que o mundo tem muito mais a as oferecer do que as gerações passadas acreditavam. Mas mesmo assim, por que as mulheres continuam se aceitando e agindo como frágeis em áreas que não mais as são?   

Uma discussão popular que me chama a atenção é a que questiona o por quê  das mulheres independentes e bem resolvidas financeiramente terem dificuldades em encontrar um parceiro. Em diversos sites e blogs de aconselhamento amoroso na internet, a resposta mais geral a esses casos é que as mulheres devem ser meigas e amorosas para ajudar seus parceiros a entender que ser independente é uma virtude e que sempre haverá um campo em que a existência deles é fundamental, pois na maioria das vezes os homens tem medo de mulheres “poderosas”. 

Nessa onda de infantilizar os homens e “satisfazer o ego deles se fazendo de submissa”, como cita Erasmo Carlos em sua canção, as mulheres continuam vestindo a carapuça da fragilidade e da dependência masculina. 

Segundo a Psicóloga Silvana Alves, há alguns pontos importantes a serem pensados sobre esse tema: “O primeiro deles diz respeito ao lugar da mulher na sociedade. Historicamente o ambiente social era de predominância dos homens, mas dentro do lar a mulher prevalecia, e o homem não. E isso trazia um conforto, uma sensação de equilíbrio para elas. O segundo ponto a ser considerado é a menos valia sobre as mulheres no inconsciente coletivo que faz com que elas mesmas interiorizem certos padrões. Mas hoje em dia muitas mulheres têm consciência de suas capacidades e usam sua ‘fragilidade’ das formas que lhe interessam, para atingir diversos fins, com um certo ‘oportunismo inteligente’.” 

Sem generalizações, creio que há uma dificuldade natural em todos os humanos de ser livre e aceitar a total responsabilidade de seus atos: ser livre, decidir por si mesmo e assumir as consequências. Esse “oportunismo inteligente” nada mais é que delegar a responsabilidade ao homem que consequentemente leva a culpa pelos problemas da relação e, na maioria das vezes, é o acusado pela submissão feminina,quando, na verdade, não mais o é. Assumir a própria personalidade, os próprios sentimentos e decisões não é tarefa fácil para ninguém, mas parece ser o caminho para a liberdade feminina de seu rótulo negativo de fragilidade e dependência.


Como eu sou um girassol, um girassol sem sol.


Por João Luiz Santos

A música ressoa em minha cabeça “sou agora, um frágil cristal, um pobre diabo, que não sabe esquecer.”, não há dúvidas, eu não sei esquecer. Fechamos a porta. Você se foi. As lembranças ficaram.

São confusas e contraditórias. É amor pulsante e cólera controversa. Não há mais o que dizer. Não existem explicações, estarrecimentos ou sequer um último lamento. Há apenas a minha face refletida no espelho, na mais singela maneira de ser. 

A música continua. Aos poucos me converto em solidão. Abruptamente meus olhos caem, e as sensações mudam. Sinto-me jogado ao vento, leve, como as pétalas do girassol que caem de maneira suave, deslizante, até se tornarem parte do chão. Eu mesmo estou pelo chão. Inerte, com mínimos e tristes lapsos de esperança. A melancolia me invade. Não há volta, não quero e nem preciso. O meu egoísmo me sentencia. O pobre diabo é o que sou, mas não há pena nem santo nessa história. 

Percebo que as armaduras e as poses de rocha firme são puras ilusões. Respiro fundo. Preciso de um novo alento. A campainha toca na hora certa. Ele chegou – eu penso –, a minha salvação. Abro a mesma porta por onde, um dia, aqueles um metro e sessenta e cinco passaram. A luz do sol me invade. Junto a ela, o recebo de braços abertos. Finamente poderei recomeçar.

Na caixa de papelão vejo o alerta: “CUIDADO - FRÁGIL!”. Reconheço a taça trincada. Abro o pacote ansiosamente. Ali está. A minha redenção, o meu resgate. Sinto-me aliviado. Agora tenho um novo coração.

A música termina. Outra toma o seu lugar, assim como com o meu velho centro. As coisas aos poucos voltam ao normal. A fragilidade ainda existe, talvez até em forma de amor, mas isso já não mais me importa. Tenho certeza, me erguerei, dessa vez, às minhas próprias custas. 

Don't you remember you told me you love me, baby?



Por Lizandra Muniz

 “(...) seus recursos misteriosos haviam suscitado nela uma curiosidade difícil de resistir, mas nunca imaginara que a curiosidade fosse outra das tantas ciladas do amor.” 

Gabriel García Márquez, O amor nos tempos do cólera

“Pra sempre”, ele dizia.  Ela, orgulhosa de sua racionalidade quando se tratava de amor, apenas sorria. Pertencia ao mundo. Ele falava sobre músicas que ela não conhecia e a envolvia rapidamente em sua sensibilidade sufocante. Caiu. 

Dois anos.  Sua convicção voraz e seu jeito felino desapareceram em meio a lágrimas silenciosas de uma noite de sexta feira. Cigarros, fumaça, música, risadas. Revelações dolorosas. Ela tentava desesperadamente ignorar a realidade. Ambos perderam-se no meio de declarações rasas e desejos ambiciosos. “Pra sempre?”

Ela repassava o que havia acontecido, tentando decifrá-lo. Mas se entregava novamente e corria para seus braços sempre que ele decidia que a queria naquela noite. Chorava escondido e dizia que tudo bem, estava tudo muito bem, não se importava com o que ele fazia ou com quem.

Frágil? Ela, que sempre soube muito bem quem era e o que queria? Perdida. Estava quebrada como o vidro da ciranda que ouvia na infância.  Precisava retornar ao seu antigo eu, recolher os pedaços do chão e restaurá-los um a um. 
A fragilidade não é um estado permanente.

A música frágil de Lizandra? Você encontra aqui.


De olhos bem abertos

Por Ana Clara


Ela o observava dormindo, enquanto a imagem do hospital se afastava lentamente no retrovisor. Mãos tão pequenas, incapazes de se defender de qualquer agressão. Pés ainda fracos, impedindo qualquer fuga. Olhos ainda ingênuos, inexperientes, descobrindo o mundo mas ainda impermeáveis ao julgamento do bem e do mal. Aquela mínima jornada de carro parecia se estender por horas. A cada curva uma preocupação, a cada freada suave um susto.

O quarto estava preparado da maneira como mandavam as melhores publicações - ela as leu, todas. Tudo anti-mofo, anti-séptico, anti-bacteriano... pronto para aniquilar qualquer forma de vida que ali se instalasse. Ela colocou o bebê, ainda dormindo despreocupado, alheio à tempestade que se aproximava, gentilmente em seu berço impecável, imaculado.

A primeira noite foi difícil. Mas era isso que previam todos os livros. O sono foi irregular, mas o despertar não era engatilhado por choros e pedidos desesperados. De hora em hora, ela se perguntava... estaria tudo bem com o bebê? A babá eletrônica só emitia um ruído monótono, mas que no imaginário ansioso dela, se transformava naquele som persistente que antecede o pânico em um filme de horror. O fim da primeira noite veio como um alívio... tudo se encaixará agora, tudo retornará ao conforto da rotina... ou era o que ela acreditava, até que outra noite chegou, e ainda outra, em uma progressão cruel.

Ninguém mais podia tocar o bebê antes de preencher todos os requisitos. Qualquer tentativa de contratar uma ajuda, uma mão extra cheia de experiência na criação de crianças - diziam, enfaticamente, os amigos e a família - era refutada, afastada como um animal perigoso que se aproxima da cria de uma fêmea assustada. Enquanto a contagem de dias de vida do bebê aumentava, as horas de sono diminuiam. As olheiras eram tapadas por maquiagem. O peso que perdia rapidamente, justificado com a mais moderna dieta. Tudo estava normal, era tudo para que tudo parecesse normal... estava tudo normal?

O relacionamento com o marido lentamente se tornava distante. Nervoso. Feito de frases curtas. Abraços curtos. Preocupações longas. O olhar vazio dela o perturbava. Mas afinal, como ele poderia ignorar ameaças tão óbvias?

Em uma noite qualquer, em que a ansiedade se aproximava sorrateiramente como uma sombra em uma parede, uma dor repentina no braço. O ar começava a faltar, a respiração se tornava acelerada, entrecortada, enquanto o gás carbônico, em sua escalada viciosa pelo sangue, tornava a mente esfumaçada, a vista enegrecida, o escuro, e então o desmaio - enquanto isso, o bebê permanecia lá, tranquilo, descobrindo as cores do teto, os detalhes dos pequenos brinquedos...

A imagem do hospital se aproximava lentamente no pára-brisa. Mãos nem tão pequenas, mas de que adiantam mãos na defesa contra ameaças que surgem nas sinapses e pulsos? Pés firmes... mas como fugir da sua própria sombra, que acompanha o ritmo caótico de seus calcanhares? Os olhos? Ingênuos. Inexperientes. Angustiados. Mais impermeáveis às verdades do mundo que os olhos daquele que julgava frágil, mas se tranformou no elemento mais forte de um sistema de pessoas frágeis, relações frágeis, emoções frágeis.


Ouça a frágil seleção musical de Ana Clara aqui.

Prazer, Seu/Bairro/Seu bairro Madureira

O Chefe lá em cima não podia ter escolhido melhor lugar pra Seu Madureira nascer: zona norte carioca, subúrbio, Bairro Madureira! O vô de Benedita, e pai de tantos outros filhos da rua (não tão bem ditos), era carioca da gema, da clara, do ovo com casca, como ele próprio costumava dizer.

A história do senhor se confunde tanto com a do bairro que é difícil acreditar que a área ganhou o nome por causa do boiadeiro, antigo dono das terras, e não pelo senhor boa praça que cresceu junto com a região.

Sebastião Madureira chegou ao mundo quando a linha do trem chegou ao bairro. Ainda menino, jogou no Madureira Esporte Clube, que naquele tempo ainda levava o nome de Fidalgo. A paixão pelo esporte não durou muito; 5 anos, exatamente, até que pudesse ser substituída por outra, ainda hoje compartilhada por muitos: Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela. A outra paixão, a avó de Benedita, era apaixonada pelo Império Serrano. Talvez por isso os dois nunca tenham dado certo como mestre-sala e porta-bandeira, nem como casal.

Se o Bairro não foi nomeado em homenagem a Sebastião, o Mercadão de Madureira com certeza foi: Seu Madureira montou sua primeira banca de produtos agrícolas quando o centro de compras abriu. Ele estava lá quando a sede mudou, quando o Mercado aumentou. Fazia questão de contar para os netos (Benedita e os de coração) que entregou, nas mãos de Juscelino Kubitschek, a tesoura usada para cortar o laço na reinauguração do Mercadão, em 59. Ajudou os colegas que sofreram com a crise nas vendas devido à crescente concorrência por parte da CEASA. Conseguiu fornecedores mais baratos, arrumou produtos diversificados, mas não para ele próprio, tudo para os outros. Tudo para o Bairro de Madureira, nada para Seu Madureira.

Décadas depois ir a falência e deixar o Mercadão, voltou ao recinto para fazer compras. A data? 15 de janeiro de 2000. Seu Madureira escapou das chamas que consumiram o Mercado naquele dia, por uma questão de minutos. Não escapou da morte, que o chamou para uma volta quando a tristeza de ver seu Madureira virando cinzas o consumiu.

Matur(idade)

Maturidade [s.f.] : 1. Aquilo que a gente acha que tem quando quer ficar na rua até tarde, ou viajar sozinho, e a mãe não deixa. 2. Aquilo que a gente percebe que falta rapidinho quando vai morar sozinho e não tem os pais por perto pra resolver as coisas por nós. 3. Aquilo que a fruta já atingiu há muito quando a percebemos enrugadinha e cheia de moscas na cesta que ignoramos a semana inteira. 4. O que queremos que os colegas de trabalho tenham, mas nem sempre refletimos se a demonstramos aos outros. 5. Aquele estágio de mente que não necessariamente deve ser associado à idade, que sinaliza que se está pronto para engajar em relações complexas, interações difíceis, enfrentar problemas, lidar com pessoas e situações desafiadoras e se sair bem e demonstrar destreza mediante os conflitos. 6. Sinônimo de uma exigência e imposição que dificilmente é definida com exatidão, muito menos atingida por completo.

O maduro morreu de velho

É, eu sei que parece óbvio o que estou dizendo. Aquele senhor maduro - o velhinho, no português falado nas praças de bairro - acabou morrendo devido à idade avançada - pela "veiera", no bom mineirês.

Reveja seus conceitos, ou melhor, os conceitos dos termos, e repense esse título.
O que proponho, na verdade, é uma reflexão sobre aquele Peter Pan às avessas, que na pressa em amadurecer, adianta as tomadas de decisões, as experiências, e também as amarguras da vida adulta.

Não recrimino Anne Frank - quem ousaria fazê-lo -  por ler sobre mitologia grega e conhecer a genealogia das famílias reais quando tinha apenas 12 anos. Tampouco duvido das vantagens de ensinar crianças a administrarem seu dinheiro, ainda no ensino fundamental. Mas até que ponto é válido assumir responsabilidades precocemente?

A sociedade ocidental valoriza o indivíduo que assume riscos, lida com problemas, trabalha desde cedo, atinge sua independência. Quem tem êxito no desempenho dessas tarefas, é visto como um vencedor. Podem me chamar de preguiçosa, de desocupada, ignorante, de filhinha de mamãe mesmo, mas sou daquelas que aprecia o ócio, a ausência de compromissos (não o descompromisso), e a infantilidade, por quê não?

Acho que criança pode cochilar de tarde, depois de brincar na rua; não precisa ser alfabetizada em três línguas, praticar dois esportes e tocar um piano. Sou dessas que precisa das brincadeiras no ambiente de trabalho e tem "práticas nonsense" com os amigos, também conhecida como boba. Gosto de não estender o trabalho quando começa o fim de semana, por mais que ele queira me acompanhar ou impedir minhas saídas. Acredito que, paralelamente à faculdade, o estudante deve frequentar clubes, sítios com a turma, churrascos e lugares que ele nem sabe o que são. Ele terá bastante tempo - quer dizer, nenhum tempo - para conciliar empregos, estudos e contas quando for um profissional fazendo MBA.

Enfim, a criança prodígio, o jovem independente, acabam virando um velho rabugento aos 20 anos. Maltratado pela vida antes mesmo de vivê-la, o maduro mata sua infantilidade, sua jovialidade e morre aos poucos.

Por isso agora que já cumpri com minha obrigação de postar, vou ali...
Me dê licença, tenho muito nada pra fazer.

Amadurecimento

Fruta madura, namorado imaturo, Bairro Madureira...a Maturidade, em todas as suas formas e flexões, é o tema da semana no Sem Pauta!