Memorial

Ele caminhava. Era estranho, estar de novo ali naquele lugar após tanto tempo. Os olhos passavam pela paisagem, tomando nota daquele espaço tão conhecido que havia se tornado estranho. As mesas ainda estavam no mesmo lugar, mas o mar e o rumo do rio estavam sempre mudando e a praia não tinha o mesmo aspecto do qual ele se lembrava. Ou talvez era ele que não tinha mais seu mesmo aspecto e por isso convertia a paisagem em seu reflexo. Olhou para a areia e imaginou se ainda estavam ali os grãos que ele tinha pisado, anos antes. Tanta água havia passado em sua vida, certamente também aqui nessa praia. Olhou pras ondas e percebeu o quanto elas se assemelhavam à sua vida: tanta mudança, mas ainda assim a repetição da mesma água, das mesmas vontades, das mesmas lembranças. Estava quase chegando ao fim: em mais alguns momentos iria embora, e então tudo aquilo seria nada mais que um cenário na memória, palco do que há muito ocorreu. Então, virou-se, estava pronto para encarar o último ponta da paisagem, que havia evitado desde sua chegada. E ele estava lá: fixo, imutável, no mesmo lugar de onde havia sido testemunho daquele último momento. Tanta vida, tanta morte, tanta água e tanto vento e ainda assim o coqueiro, ali, rindo.

Coqueirando

Palavras são instâncias preciosas que constituem nossos discursos, nossas interações, nossos dias e, pouco a pouco, nossas vidas. Nessas últimas semanas, o Sem Pauta tem deixado se perderem palavras... Mas não mais! O tema dessa semana, que começa assim pela metade mesmo, pra pegar de novo o costume, é coqueiro.