Aviões de papel voam alto em BH

Quem é que nunca tentou brincou de aviãozinho de papel? Uma das brincadeiras mais comuns da infância inspira o evento Red Bull Paper Wings, promovido pela empresa de energéticos do mesmo nome, Red Bull. O evento acontece uma vez a cada três anos e no sábado, dia 23, ocorreu a sua terceira edição, na Faculdade UniBH. A releitura dessa brincadeira atraiu público de todas as idades e foi, para muitos presentes, algo inédito. Como nos disse Fabrício Brito: "A gente nunca veio em um campeonato assim, então realmente é uma novidade. Eu mesmo brincava na época da escola e as crianças também, elas adoram."


Apesar de ter como inspiração uma simples brincadeira de criança, essa corrida de aviãozinho de papel leva o conceito a outro nível: convida os participantes a aplicarem conhecimentos técnicos à confecção de seus aviões, utilizando-se de princípios da física e da aerodinâmica enquanto tendo como material apenas uma folha de papel sulfite. A competição ocorreu em duas categorias - tempo de vôo e distância, cada qual com uma variedade de modelos impressionante. O adolescente Gonzalo, de 16 anos, também foi atraído ao evento pela curiosidade "Só pra dar uma olhada, quem sabe no próximo eu tento?", contou. Mais tarde, inspirado pelos "vôos" dos participantes, Gonzalo arriscou a sorte na categoria tempo de vôo e conseguiu o bom tempo de 6 segundos. Ao ser indagado quanto à sua mudança de planos, apenas disse entre risos "Espontaneidade".


Já outros participantes demonstraram mais planejamento, como Renato Mendes Saraiva, campeão da categoria tempo de voo com 7,72 segundos. "A Red Bull foi à UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), onde eu estudo, fazer a divulgação do evento. Me interessei e mandei um e mail de inscrição para as duas categorias, tempo e distância", relata. "Eu bolei o projeto junto com um amigo que mora comigo (Guilherme Felipe Barbosa, que levou o segundo lugar com 7,7 segundos), a gente viu uns modelos na internet e começou a treinar, acabou que deu certo." Ambos são alunos do curso de Engenharia Aeroespacial da UFMG.


O campeão da categoria de distância, Guilherme Moreira da Costa, com a marca de 24,7 metros, também teve alguma base teórica em que se inspirar. Aluno de curso de Pilotagem, Guilherme conta que fez alguns testes de curvatura de asa apenas no local do evento. “Eu não testei em casa, mas já tinha em mente a noção de peso e sustenção do próprio avião”, diz o campeão. Apesar de ter chegado ao evento desanimado, depois de algumas tentativas resolveu participar. Com relação à experiência na modalidade, disse "Na escola eu pratico sim, todo dia a galera da minha sala chega mais cedo, a gente fica fazendo aviãozinho e helicóptero de papel, e sempre jogando. Muita teoria sempre ajuda."


Também houve participantes mais experientes no páreo, como Marco Guerra, campeão mineiro de 2006 em maior distância. “Aqui em Minas eu fiz 26 metros. Fui pra São Paulo na final nacional, e lá fiz 33,45 metros. Hoje eu fui muito mal, fiz 15 metros", contou, desanimado. O ex campeão afirma que nem tudo é conhecimento teórico na competição: "Acho que foi sorte, mas também tem a maneira de jogar, você tem que jogar com a força certa dependendo do jeito que constrói o avião."


A brincadeira foi um ótimo programa para uma tarde de sábado, contando com participantes animados, uma platéia interessada, muita música boa e um apresentação incrível de aeromodelismo. No final o processo foi tão envolvente que até o Arnaldo Barbosa, da nossa equipe, resolveu participar. O estudante de Comunicação Social deixou muitos participantes treinados para trás atingindo a marca de 12 metros de distância.

Escuro e frio

Negro. Tudo Escuro. No chão, só se pode ver alguns quadrados separados por linhas rígidas e irremovíveis da mesma cor do breu. Algumas linhas quase transparentes ligam esses quadrados a um maior que também é dividido por linhas ainda mais rígidas do que as do chão, mas não é possível ver. A luz por de traz desse quadrado contrasta com a escuridão interna, impossibilita vermos o que está do outro lado. De repente, os pelos se enrijecem, o peito endurece a tal ponto que sentimos a necessidade de nos encolher, de nos reprimir, mesmo lutando contra não conseguimos. Resistimos ao efeito do Vento, mas é em vão. O Vento nos consome. O Vento nos devora, nos enche de angustia, de terror... Mas esse Vento não vem de fora... Esse Vento vem da escuridão, das trevas. Repousemos nos teimosos feixes de luz que entram pelos quadrados, busquemos o que há de externo. Se o Vento não quer ser de outra forma se não gélido que busquemos as maneiras de suportar o frio e a escuridão, já encontraremos a chave de nossas algemas.

Meteorologia pessoal

Sempre nos encontramos frente a alguma vontade, a algum questionamento, alguma reflexão a respeito da nossa realidade. Às vezes pensamos que se talvez tivéssemos feito apenas uma pequena coisa diferente, ou não tivesse falado isso ou aquilo tudo poderia ser diferente. Olhamos pra quem éramos e pra quem somos e pra onde estamos caminhando ser e nem sempre essa trajetória faz total e completo sentido. A verdade é que tudo o que pensamos e planejamos a respeito da nossa existência constitui uma trilha pessoal que imaginamos seguir. Mas, talvez, ao se conferir a trajetória, outro resultado seja constatado. E não é porque falhamos. É só que a gente tem mania de planejar a vida sem contar com o tempo fechando, com as tempestades que nos pegam desprevenidos. E, principalmente, esquecemos do vento. Podemos imaginar o caminho que for, quando vem o sopro forte somos todos cataventos e a direção que tomamos não mais nos cabe.  

Beijo

E o friozinho perpassa pela espinha. Chega a lugares que já mais acreditava que existia. Sinto o que já mais senti. Os pelos se enrijecem. Um certo temor me vem a pele junto com o sentimento de quando encontramos algo... É sinal que vai chover.

Liquefeito

"Olá, como vai?", ecoa a voz chiada.

"Eu vou indo. E você: tudo bem?" Responde Bianca, estabelecendo um estranho diálogo com o radinho de pilha do passageiro ao lado...

"Estamos destinados a viver sempre na vizinhança e na companhia de outros", tatua, com canetinha trêmula no braço esquerdo, a frase de Zygmunt Bauman. Angustiada, ela olha ao seu redor e, ironicamente, percebe que, no cheio coletivo, não há nada além de um vazio individualista e uma iminência de uma enchente de amores líquidos.

"Tanta coisa que eu queria dizer, mas eu sucumbi nas poeiras das ruas", chora baixinho para benzer a voz engasgada.

Cabisbaixa, ela percebe que o ônibus se move. Sabe, porém, que o sinal sempre permanecerá amarelo.

Desejo

Sob o som do apito da fábrica de calotas, Luísa se engasga com um punhado de poeira. “Já são 9 horas”, grita, assustada, enquanto abre a janela do quarto desleixado ao perceber que, novamente, está atrasada.

“É culpa desse horário de verão”, resmunga, enquanto calça a sua galocha amarela apesar do céu sem nuvens. “A vida já anda tão torta e eles ainda querem que nosso relógio biológico fique trocando de corda a cada acordar”, pensa enquanto encara, na porta da geladeira vermelha, o calendário e os recados em letras de forma com as tarefas do dia.

“29 de fevereiro”, avista. Subitamente, o brilho dos seus olhos começa a renascer após tanto tempo de cinza opaco. “Um dia extra”, sorri.

Com passos lentos, Luísa retorna ao quarto, fecha a janela e tornar a ligar o celular.

“Um dia extra não precisa ser somente mais um dia”, escreve de batom vermelho no espelho enquanto aguarda ser atendida.

Humanidade


Quando a Lua e o Sol deixarem de se perder e enfim se encontrar, não haverá mais necessidade de marcar os dias. O tempo será a eternidade e nela viveremos para sempre. A velocidade deixará de ser preocupação para ser simplesmente algo imensurável. Viveremos em calma. Viveremos da forma como deveríamos viver. Viveremos livres. Sem a necessidade de marcar compromissos. Sem a necessidade de seguir calendário. Viveremos do encontro do Sol e da Lua. Viveremos de sentimento. Viveremos daquilo que nos faz ser seres humanos.