Pensando nas nuvens...

Quanto tempo passamos só andando pelas ruas, só pensando em nossas próprias vidas, apenas existindo? Não tiramos o tempo de refletir, de analisar, de tentar definir o que é realmente importante. Tudo o que passamos, a escola, o trabalho, a pressão que o mundo em si exerce sobre nós, tudo isso nos leva a abaixar cada vez mais a cabeça, a olhar cada vez mais para o chão e esquecer que acima de nossas cabeças há um céu que abriga todo tipo de possibilidade, fantasia e formas... E quando lembramos de olhar para cima, percebemos que há muito mais na vida além dos problemas e do nada cotidiano. Acima de nossas cabeças, há um azul infinito, há formas que se desenham e que nós desenhamos em nossas imaginações... Há nuvens, e elas  são receptáculos de sonhos, depósitos de vontades, representação de todo o possível... 

Devaneio

Deitado sobre o chão, ele fazia os braços de travesseiro, se punha a assistir ao grande espetáculo, às vezes até cinematográfico, daqueles borrões brancos na infinidade azul celeste. Elefantes, ursos, cobras... Carros, disco-voadores, sapatos... Tudo era possível ser visto no show bem encima dele.

Mas naquele dia houve algo inusitado...

A história se construía de forma lenta e pacata... bocejo dali, bocejo de lá... Mas ele vira. E de forma alucinante não poderia ter visto algo mais belo em toda a sua vida!

A imagem confundia seus sentidos, fez seu coração bater mais rápido e suas pernas perderem a força... Mas ele tinha certeza do que estava vendo.

Acima dele uma imagem humana branca feito nuvem, assim como era feita dela também. E não restava dúvida, aquela era a visão mais perfeita de toda a sua vida. Estava apaixonado... Mas pelo o que? Pela nuvem? Ou pelo ser humano formado em sua frente?

É certo que o amor é, dos sentimentos, o mais misterioso.... Ninguém sabe dizer o que é o amor. Mas certamente sabe dizer de que se ama... o que se ama... Ele não.

E agora me coloco até em dúvida se realmente sabemos do que e o que amamos... Se realmente temos alguma certeza sobre o universo do amor...

Na loucura em que ele se encontrava quis tocar a matéria amada, beijar o corpo branco flutuante... Mas uma distância infinita se punha como barreira... Acreditou: certamente o céu era o limite, como também era o limitador... Quis ter asas, mas não sabia voar... Quis ter hélices, mas poderia desfazer sua amada... Quis ter o poder de retirar a gravidade, mas seu amor poderia fugir de seus braços... Uma coisa tinha: sono. E então adormeceu...

Sonhou que se encontrava com a nuvem que mais se parecia a um ser humano... Dançavam a valsa da Bela e a Fera... Beijavam-se... Se amavam...

Mas os pingos da chuva vieram lhe molhar, e então acordou...

Viu de cima seu corpo boiando em uma imensidão azul aquático... Queria recuperar seus sentidos... nadar naquele mar sem ilhas e sem terras... E então lembrou que mesmo antes de deixar o corpo já não sentia mais nada além de amor...

Lá estava ele afogado no corpo da amada, que agora não era mais branco, mas sim azul feito o céu de onde saíra e onde ele estava. Mais uma vez quis seu corpo... Queria estar junto a amada... Intrigante que para os amantes não basta apenas sentir, é necessário ter... Mas assim ficariam: um sem ter o outro, apenas sentindo.

Eternos degraus

“É o fundo do poço/ É o fim do caminho/No rosto um desgosto/ É um pouco sozinho”, chia a vitrola velha, em pleno mês de dezembro.

Ele, no entanto, nada entende. Olha ao seu redor e não ver sequer uma marca das luzes e das cores típicas do verão. A televisão atormenta: “Mas vivemos em um país tropical, em que o período compreendido entre dezembro e março é tipicamente chuvoso”. Tipicamente, tipicamente...Entre dentes, resmunga: mas será esse vazio no peito também característico daqueles cidadãos brasileiros pequeninos? Será que esse é o vazio de toda vista do décimo andar?

Ah, a vista do décimo andar...Ele bem sabe caracterizá-la... Nesse 24 de dezembro, faz dez anos que, por causa de um surto de solidão e de arrogância, comprava o apartamento alcançável apenas por meio do elevador.. . Seu desejo: isolar a superioridade dos sorrisos alheios. Gritava: “jamais comprarei cortina, para que meus olhos sempre possam vigiar o que se passa no cotidiano alheio...Reinar sobre o cotidiano alheio”. E, realmente, nunca teve nenhum pano ou elegante persiana para impedi-lo de ver os vidros embaçados.

Porém, hoje, é em seus olhos que os vidros endureceram. Após dez anos de isolamento, as lágrimas são duras. E, ao encarar a janela, não consegue ver nada além de uma grande nuvem de uma neblina densa... E atípica, nada tropical, nada banalizada pelo telejornal...Assim, enquanto tenta decifrar a massa cinza que o impede de realizar a velha vigília da vida alheia, quase se emociona.. Pois, em um momento de angústia, relembra Mário Quintana: “As únicas coisas eternas são as nuvens”... E quase sorri ao perceber que somente agora, nas vésperas de seu sexagenário, alcança a compreensão do poetinha de sua juventude.

E sorri. Mas não um sorriso alegre ou doce. Apenas um enfim – e cansado -rasgo de compreensão.

Suspira: “Finalmente, a eternidade me alcança”.

Resignado, ele acende o último cigarro e vê um cinzeiro na janela embaçada. Finalmente, poderá descer as escadas para alcançar o térreo.

Olhe para o céu...

As últimas semanas em BH têm sido cheias de mudanças abruptas de tempo, de alternação entre sol e vento e chuva. Em meio a todo esse processo climático, está acontecendo também o encerramento de uma etapa, um semestre letivo, um ano. A abundância de informações, os diferentes contextos, a temperatura e o clima que está no ar, tudo deixa a percepção meio nublada, meio enevoada e daí vem o nosso tema. Essa semana falaremos desse conglomerado gasoso que é alvo de tantas metáforas, de tantos olhares, de tantas projeções: a nuvem.

Boas festas?

Mais um mês daqueles em que se perde o fio da meada em meio a tantas reflexões e nostalgias e vontades de seguir em frente e ao mesmo tempo manter tudo no lugar. Um tempo em que as pessoas se perguntam sobre o que verdadeiramente importa, se lembram de que a família é essencial e amizades verdadeiras e duradouras são fundamentais à vida. É aquele momento em que parece que se ofuscam os problemas e confusões em face à tanto espírito de gratidão e alegria... Só que não. O pensar excessivo também traz medo, incerteza, insegurança e relembra momentos mais felizes antes vividos que não voltarão. Ou inspira vontades de estar em ou viver qualquer outra realidade além da própria. Leva a devaneios alimentícios seríssimos, como alto consumo de chocolate e açúcares. Motiva a criação de metas, descobrimento de vontades a serem realizadas, impulsionando expectativas que nem sempre podem ser cumpridas. As circunstâncias te confinam a encarar tudo que se está vivendo e tudo que se queria viver, tudo isso com a presença fiel dos familiares que ao mesmo tempo aceitam e opinam, elogiam e alfinetam, contribuem e contradizem. É uma época bonita, sim, em que há muitos pensamentos bons circulando nas mentes das pessoas, em que se agradece por tudo que se tem e olha aos que têm menos com carinho e caridade. Mas porque não ser assim todo dia? Por mais que as festas e o fim de ano tragam coisas boas, boas intenções e espírito de felicidade, também trazem a tristeza característica de vivermos em um mundo movido pela valorização do comercial e da ideia Hallmark de felicidade natalina. Nesse fim de ano, você será mais vermelho, verde e bonança ou preto, branco e real?

Útero

Começa a soar o barulho ritmado do relógio imaginário da criança... tic-tac, tic-tac, tic-tac...

Ela chora, arrancaram-na do melhor lugar em que o ser humano pode estar no mundo... Diria mais: o melhor lugar em que o homem já esteve e vai estar na vida. Por esse lugar ele brigará até o resto de seus dias e verá que só se pode ocupa-lo quando ainda não é um ser humano...

“vai ser médico

engenheiro

acionista

rico...”

Rico. É a esperança... A maneira mágica de se alcançar mais uma vez aquele lugar apertado, úmido e vermelho... E para isso terá que abrir mão da humanidade. Escalar corpos de seres vivos, às vezes empilhando alguns que a pouco tirou a vida... Quando chegar ao topo, verá no espelho uma imagem que em nada se parece com a de um feto.

Mas agora o barulho do relógio se faz ainda mais amedrontador...

O homem volta a chorar com a certeza de que não foi o conforto uterino que alcançou, mas o de um sofá de couro humano...

E assim nasce outra criança sem corpo, sem matéria, mas já possui um nome: 2012...

Dizem que desse tipo de criança pode ser a última a nascer... Mas eu já vejo diferente...

Não veremos mais a de nome 1945, que se enfeitou com duas rosas brancas de sangue e sofrimento...

Não veremos mais a de nome 2011 que insiste em se parecer com as demais na forma preconceituosa, repressora e ademocrática...

Nasça 2012 e mostre que é possível pessoas diferentes ocupar um mesmo espaço... espaço esse que certamente será parecido com aquele de onde fomos arrancados antes de chorar pela primeira vez...



Aurora

Nesse incompleto vem e vai
Toca, tiroteia, traqueja
A balada dos anos de nunca mais
Cuja melodia o coração esbraveja.

Nossos rostos, porém, permanecem confusos
São reflexos dos calendários que ocupam velhas gavetas
E anunciam: teus medos e teus risos não têm fusos
Permanecem rentes ao teu peito após a oferta

do ano que virá.
Ele jamais terá sucesso
Em dizer que passos tu deverás tomar
Quando a maturidade obriga-te a aceitar o cedo

E renegar as noites longas
Sonoras sombras sutis serenas
Em que esquecias suas delongas
E brincavas de sereias.

Agora, é somente a surdez das luzes de natal a te guiar
Ecoam gritos suburbanos cuja doçura em pó
Ainda permanece escondida do tato de quem o doce não sabe apaziguar
O fel de seus heróicos imbróglios.

Porém, ouças: bom é o lugar que a nova hora inventa
E permanecer em tuas certezas é remendar meias cujas pegadas são inexistentes
Elas deixam somente um passado cujo sentido
Não pode guiar-te em um sol de datas novas

A nascer na aurora dos dias mudos
Cuja responsabilidade de cortejar um novo ano
É somente teatro do absurdo
Mas necessita de seu sorriso e de seu caráter humano.

Para o meu 2011

Não sei me despedir. Nunca soube. E por agora tenho que fazê-lo de três grandes partes de mim. Não vou sair da Cria, mas hoje é meu último dia como RH. Foi algo que por um ano me definiu. Me viu cair de tristeza e me fez florescer. Na assembleia em que fui eleita, fiz um discurso dizendo que eu queria cuidar da empresa, mas foi o contrário que aconteceu. A Cria que cuidou de mim. É necessário que agradeça muito por isso. Obrigada, Cria!

Saio também do Jornalismo e Redação - o núcleo que gestei junto com o Breno. O Jornalismo foi uma provação. Mas foi também um grande abraço. Um núcleo micro, mas que bastou. Os braços do Breno foram o bastante para que eu me sentisse acolhida e disposta a enfrentar tudo que nos propomos. Foi uma loucura, mas foi também delicioso. E é nesse ponto em que a despedida fica mais difícil.

Ao som de Something Good Can Work, esse texto tem chances de ficar ainda mais meloso. Mas não posso me conter quando se trata do Breno. Companheiro de RH, coordenador no Jornalismo, parceiro em ações extras e, ainda, amigo. Que os outros membros me desculpem, mas malemolência é fundamental. É preciso que eu me declare! Breno, você é puro lirismo e até nos dias cinzas foi a minha poesia. Despedir de você agora se torna ainda mais difícil, já que o que nos separará é muito maior do que uma porta com uma chave que você não vai ter mais. Sei que você estará imensamente feliz, mas isso não cura a saudade. É feio dizer isso? Que seja. Eu não posso não-sentir falta do meu ano de 2011 inteiro.

Tchau, Cria 2011. Espero que tenha sido tão bom pra você quanto foi pra mim.