Uma casa num hall

Esta é a última vez que me deparo com este espaço em branco aqui do Sem Pauta. Hoje eu estou meio assim, em branco. Com o marcador de texto piscando, nada é certo. Uma nova história começa agora, um infinito branco a ser preenchido e eu, autor de mim mesmo, não prevejo aonde a história irá.

Por tanto tempo falei de emoções na ficção e hoje, quando venho falar das minhas emoções, eu travo. Meu olho já está marejando, mas sei que devo fazer isso porque se tem algo que aprendi na minha vida é que é bom deixar a ficha cair e sofrer: é até questão de despedir e valorizar algo que foi bom.

Essa semana foi tudo "minha última vez". Tranquei a porta da CRIA hoje e aquele hábito tão rotineiro me apertou o coração. É engraçado como que pequenas coisas repetidas no nosso dia-a-dia fazem parte da gente, né? Abrir e fechar a porta da CRIA fazia parte da minha rotina e agora já não tenho mais chave. É o sentimento de perder um cachorro. Você vive e compartilha tanta vida com algo que quando acaba, uma parte sua fica lá também.

Meu sonho sempre foi passar no Vestibular. Passei. Faculdade começou como sinônimo de diversão. Dei-me conta que em algum momento eu deveria crescer profissionalmente e foi aí que escolhi a CRIA. É engraçado me reconhecer hoje; reconhecer a minha mudança. Hoje já tenho um rumo profissional melhor e acredito mais na minha própria força. Sinto que entrei uma criança deslumbrada e saio maduro, sei saber direito quando foi que isso aconteceu.

Ainda assim eu não consigo descrever a dimensão que tudo isso foi pra mim. Acho que meu ano de 2011 não tem muito pra contar se me proibirem de falar a palavra CRIA. Sentirei falta de dar as minhas reboladas (literais) no meio da empresa, de cantar Pocahontas, de abraçar amigos, de fazer piadas no BEC, de rir de manotas com clientes, de fazer reuniões e ver aquele seu amigo zuão fazendo uma linda peça. Enfim, sentirei falta de ver tão de perto e ajudar a construir a faceta não-hall dos meus colegas. É uma seriedade sorridente que tenho medo de não mais encontrar por aí.

Bom, obrigado CRIA por me fazer crescer. Obrigado CRIA por ser minha amiga em momentos de solidão. Obrigado CRIA por me fazer acreditar mais em mim. Obrigado CRIA por me acolher na Fafich. Obrigado por ser minha segunda casa. Obrigado por me deixar entrar sem bater e já dançando. Obrigado por te guardado meus choros, minha raivas e minhas outras mil facetas que descobri ter. Obrigado por ser meu casulo e me distrair quando a angustia batia. Obrigado por me ceder tantos amigos e momentos que a fotografia não capta.

Posso afirmar que tive uma empresa só com amigos e roteirizei bons momentos da história dela.

Fiquei um ano em uma estufa quente e agora é preciso enfrentar o inverno lá fora. Peter Pan quer ficar. Algo, porém, me diz que um pouco do calor daquela estufa ficou aqui dentro também.

P.S: Sem Pauta, desculpa ter dividido contigo esse mundão que vive aqui dentro. E obrigado por ser assim tão sem pauta, tão um pouco de tudo. Você me entendeu e eu te completei. Um dia marco um chá eu, você e o BEC.

Tudo tem seu fim...

E o tema dessa semana é Despedida. É o momento de Maria Lúcia e Breno darem adeus a este Sem Pauta que tanto os escutou sem reclamar

Entre Mariana e Daniel

Muitas pessoas não sabem até onde podem chegar. Não tomam conhecimento. Tem gente que passa por nós que não faz ideia do impacto que fez. Elas pensam que são varridas, enquanto suas pegadas permanecem no chão.

No entanto, pessoas que passam em branco sabem que o são. Os inapagáveis são seguros de si. Eles se afirmam e sem muito esforço se confirmam em nós como as linhas de nossa mão. Parece que sempre estiveram ai. Precisamos é de prestar mais atenção. Essas pessoas não precisam de ser amigos dos outros cujas vidas mudam. Basta que o suspiro exista.

Mariana suspirava há muito tempo. Não tinha sonhos exuberantes. Seu subconsciente dominava suas horas de descanso e os olhos fechados não eram seus companheiros. Tinha preguiça do cotidiano e trabalhava pouco a mente. Fugia de sua própria vontade e não aceitava seus instintos. Até que conheceu Daniel. Era destemido e quase enganava a todos com sua pose. Ele a reconheceu e a tomou como sua. Educou, protegeu e consumiu. Daniel cuidou de Mariana de uma maneira que ninguém mais conseguiu. Sem sequer tocá-la.

Ele era para Mariana um purgatório de intenções. Boas e más. Ela não compreendia nada disso, mas sentia que lhe fazia bem. Decidiu não racionalizar e se entregou àquilo. Aquele entre que mediava os dois.

Para Daniel estava tudo bem. Mariana nunca seria um fim.