O bando

Simão. Era como o chamavam. Tinha os olhos maliciosos e a fala mansa como água no verão. Seu olhar exalava o que era um misto de maldade e sedução. Simão era uma dor prazerosa. Com a tinta em mãos, estava na frente do bando - líder invejado e idolatrado. O vento atrapalhava seus cabelos desgrenhados em tempos de cabelos partidos e bem penteados. Era uma cena de faroeste urbano, num estilo de filme que criara para si mesmo. Era o ator principal do seu roteiro do improviso.

A década era a de 40 e a Savassi parecia como um dos seus moradores: quieta e elegante. Simão era um cão que passava por debaixo dos portões: genial, sem limites, odiado, admirado, passava pelas regras com maestria, gritando com o silêncio e desestruturando tudo o que era rígido na sociedade de Belo Horizonte.

- E então, Simão? Vamos ou não pichar a padaria?

Leu a placa "Padaria Savassi" e fez um silêncio proposital. Queria deixar claro que a decisão era dele e que falar-lhe era algo que deveria render profunda tensão. Lembrou-se do Senhor Hugo naquela manhã. "Deveria lhe vender cada pão deste pelo dobro do preço. O tanto de prejuízo que já não me causou!". Olhou para baixo e deixou sair um sorriso tímido de criança. "O que é isso, Senhor Hugo. Nunca lhe fiz nada". O senhor Hugo cedeu então ao cinismo e charme do jovem e deixou também escapar um sorriso carinhoso disfarçado de repreensão.

- Iremos ao cinema.

Em frente ao Cine Pathé, Simão ordenou que o mais novo do bando subisse e trocasse as letras do letreiro. "Você sabe o que escrever, certo?". O jovem subiu com o auxilio de outros, e receoso mas orgulhoso de ter sido escolhido, mudou os dizeres. Simão riu alto e isso foi o sinal para que todos os outros rissem também. Era um chefe que rendia alivio ao se divertir. Aproximou-se do rapaz que ria satisfeito, deu-lhe um riso sem dentes e colocou as mãos em seus ombros, parabenizando-o. Sem sequer mudar a expressão de seu rosto, deu um rápido e forte chute no estomago do rapaz. Caiu ao chão gritando a dor que vinha de sua barriga. Simão olhou a todos a sua volta com ódio, respirando fundo. Saiu andando em direção a sua casa abandonando o grupo. Cortava o vento e este, deixado para trás, atingia todo o bando com pavor, incredulidade e admiração.


No dia seguinte, 06h da manha, todos que passavam pela Avenida ouviam os gritos de ódio das freiras que mandavam as garotas do colégio fecharem imediatamente os olhos. Com as mãos na boca, escondiam o riso de aprovação. Elas sabiam que o bando pichava os muros, mas que também deixavam sua marca na rotina da Savassi. E agradeciam que água e sabão não pudessem desmanchar isso.

Te vejo por aí

Era uma vez, há não muitos quarteirões daqui, uma menina e um menino. Eles já se conheciam daquelas praças, daqueles lugares. Já se viram algumas vezes. Uma vez ele até acenou com a cabeça pra ela enquanto bebia vodka com energético em uma boate inferninho.

Ela não ligava muito pra esse menino. Nem sequer considerou aquele aceno. Ao ritmo da música, parecia so mais uma cabeça balançando. E bebendo, então. Não havia nada o que considerar. Era uma pessoa repetida da Savassi.

Ele tinha pra si que aquele gesto foi o seu sinal. Já tinha notado a repetição e em alguns momentos ébrios acreditava que se destino existia, era aquilo. Como podia ele ver a mesma menina quase todo fim de semana? Poderiam se dar muito bem... Mas ela não retribuiu.

Um dia, no alto da madrugada, quando as boates já atingiam seu repertório trash de fim de noite, ele viu ela. Com alguns mojitos na cabeça, se sentou ao lado dela, na carrocinha de lanches da esquina da Oi. No coração da Savassi - pulso ativo da zona sul. Ela estava comendo como quem já estava de ressaca e no meio de uma mordida olhou de rabo de olho para o rapaz. Ele balbuciou um oi. Era bem tímido, até bêbado. Ela limpou a boca engordurada com a manga da jaqueta e respondeu com um sorriso ainda um pouco de boca cheia. Engoliu com rapidez e perguntou: "Tudo bom?"

Ele se levantou e estendeu a mão a ela: "Posso te levar em casa? Eu pago o táxi." Como antiga conhecida que era, ela fez que sim e foi. Chegando na esquina de sua casa, se aproximou daquele agora homem, pegou em sua mão e cochichou bem baixinho: "Eu te conheço."

Se beijaram em despedida, com um toque muito amável e sutil de lábios.

"Te vejo semana que vem." - os dois.

60 Volts

Por Laís Ferreira

É dia de festa. A música, longínqua, entra pelo basculhante aberto.Coisa esquisita esse tal de Vanerão, essa permanência de costumes tão empoeirados...E no inverno, oras! Além, há ainda o eco: 

"Hoje tem marmelada? Tem sim senhor! Hoje tem goiabada? Tem sim senhor!.Hoje tem palhaçada, tem sim senhor", grita, também, a alegria de um circo invisível e de um palhaço deslocado.

Ela, porém, encara os dedos dos pés. Notando a unha que, há muito, encravou e impede-na de usar salto alto, não consegue levantar-se para aproveitar o aniversário da cidade. Aniversário. Rir-se. Quantos anos já se passaram desde o dia em que deixou Florianópolis  e veio refugiar-se na pequena cidade de Lajes. Na época, a juventude dizia-lhe: "capitais são urbes de solidão, apenas no interior encontra a paz e um sorriso aconchegante". Hoje, porém, nada lhe parece tão solitário quanto a janela sem cortina que a convida a olhar para a paisagem bucólica..

Olhar para a paisagem bucólica.Será que resolveria? Um dia, coxilhas traziam alegria - na memória, a imagem da mãe e os jardins de trás. Momentaneamente, ela tenta se levantar, quase tropeçando nas roupas jogadas no chão...

Não consegue. Decide, assim, permanecer quietinha e, quiçá, passar o batom vermelho que roubara da vizinha. É como batia o samba antigo: carmim de bocas alheias, carinho vem com o sono que chega.

Mas não vem, não vem. Cansada, ela luta contra os olhos que não param de lacrimejar... 

A luz da lâmpada rubi é fraca para aqueles cujas íris não foram amaciadas por tantas promessas vazias..Em seus olhos, porém, todo raio é tão forte quanto os relâmpagos que parecem - finalmente! - querer acabar com a alegria esquisita da cidadezinha..

Juntando as forças esguias, ela tenta fechar os olhos e, quiçá, alcançar a paz..



Inútil...



Após alguns minutos, ela se rende. Tateia uma nota fiscal e, sem grafites, utiliza o mesmo batom para compor as seguintes letras tortas:

"Janelas da alma, meus caros, não se fecham com peles."

A lâmpada queima-se.

Vidas em nublado

Iam as duas de mãos dadas pela cidade coberta em neve. A mãe andava com os olhos fixos na neve, num andar de folha ao vento, prosseguindo sem destino. A filha pequena brincava de pressionar a neve com os pés e ria, olhando empolgada para a mãe. Sentia-se um tanto quanto orgulhosa de si mesma em poder modificar com seus pequenos pés o mundo que lhe rondava. Suas pernas recebiam a alegria dela como uma música e sambavam e pulavam enquanto os olhos fitavam novamente a mãe, como se a convidando para mudar o mundo também. A verdade é que a mãe se achava velha demais para brincar disso.

Os ouvidos da mãe se empolgaram com outra coisa e vieram chamar os olhos desinteressados. Vinha um qualquer barulho ritmado do outro lado da rua e estranhamente se sentiu fisgada, como uma poça de água parada que recebe uma pequena gota, se estremecendo inteira. Puxou a filha pelas mãos e fui em direção à janela de onde vinha aquela música.

Tratava-se de um café. No centro, sentada, uma mulher vestida de preto e cabelos loiros cantando uma melodia. Era curvada e tinha os olhos fechados, como se não existisse, como se fosse uma simples materialização da música. A música fluía da garganta e atingia todo o local. Suas cordas vocais pareciam empoeiradas de tristeza e quando estremecidas pelo ritmo, contaminavam a canção e enxiam a vida de angústia. A garçonete parou o seu serviço e se recostou no balcão, testa franzida. No outro canto, um senhor deixava seu copo no ar e seu olhar fugia dos olhos - os deixando vagos - para ir para dentro de si, destrancando cofres, abrindo armários desorganizados.

Olhavam para o chão e refletiam. Se o chão era o sustento do corpo, qual seria o sustento da alma? Sem chão o corpo cai, mas sem sustento a alma parecia flutuar; distante, alheia. E a música a atingia e lhe indagava coisas. Estranho estar triste e nem perceber, pensavam.

Lá fora, na janela, a criança bufava e ria novamente em se ver embaçando a janela. Incentivou com o riso que a mãe fizesse o mesmo. O fez. Viu-se desaparecer. Com a manga da blusa, limpou a janela e novamente viu seu reflexo. Talvez a tristeza fosse essa baforada que nos faz desaparecer. E talvez também fosse o primeiro passo para brincar de mudar o mundo.

Lá dentro, a mais alta nota da música foi atingida até morrer no silêncio. A mãe não coube em si e deixou sair-se em lágrima. Atingida por duas destas, a filha olhou para cima.

- Está chovendo, mamãe?
- Não, é cá dentro mesmo.
- Por que?
- Ora, minha filha, só se chove porque já houve sol antes

(Des)Romantização

Por Ana Luiza


Olhos vagos. Respiração irregular. Coração palpitante e a mente vagando pela infinidade do mundo enquanto as mãos se aproximam. Se unem, num entrelaçamento perfeito dos dedos. Até mesmo essa ação parece tão íntima, tão cravejada de vontade e sentido que ela busca preencher com as respostas prontas que sempre teve em mente pra esse momento. Sorriem. Ela, de forma mais tímida, recatada, duvidando que a sorte - que geralmente lhe favorecia tão pouco - estivesse lhe concedendo agora esse momento. E ele de uma forma segura, como se tivesse realmente uma visão esclarecida de tudo o que queria, tentando esconder o quanto estava apavorado com as implicações de tudo aquilo. Sabe, naquele momento era tudo tão confuso, tanta incerteza e antecipação. Mas ambos sabiam que não havia mais volta. E haviam esperado por aquilo. Ele então deu um passo à frente. Abraçou-a pela cintura e ela, desprendendo suas mãos, entrelaçou seu pescoço. Olhou pra cima, certa de que seus olhos sussurrariam a ele os mais profundos segredos de sua alma e ele retribuiu um olhar confiante, de que tudo já havia sido dito. Agora faltava apenas a ação. Então se aproximaram, o momento antecedente foi carregado de eletricidade e expectativa que preencheu cada canto de seus seres ao roçar das bocas. Era uma entrega tão pura e verdadeira que só poderia resultar de duas pessoas tão completamente perdidas uma na outra. Era uma interação profunda, mentes, corpos, vontade e realização tudo ao mesmo tempo. E ambos se preencheram no outro, e foram um para o outro, daquele dia em diante.

- Sério?- a menina murmurou. - Não acredito que li o livro inteiro pra chegar a esse final melodramático de felizes para sempre. Vou ter que xingar muito no twitter, né. 

O fim é o beijo

São conversas que começam no cotidiano,
pequenas gotas de pecado -
milimetricamente dispersas nas letras.

Enche-se o peito,
abre-se o sorriso.
Feliz é aquele que sempre abre os lábios no meio do cinza.

Não é preciso que nada se consuma.
O pensamento basta...
e só.
O que é inquieto já aquece
o coração
a barriga
e o corpo inteiro.


- O beijo é uma forma de incêndio.
(só restarão cinzas e tudo se acabará)

Um beijo, um queijo

Por Júlia Amaral


- Então tchau, papai! Um queijo e um pedaço de beijo.

- Haha! Aiai, Manu, é um beijo e um pedaço de queijo!

- Nananinanão...é um queijo e um pedaço de beijo! Pode acreditar, papito. E eu digo com "popi"..."popri"...
- Propriedade, Manuela.

- É, digo com isso aí que você falou. Olha só quaaanto queijo gostoso tem por aí: queijo Coalho, Gorgonzola, Mussarela, Parmesão, queijo Prato, queijo Minas e o melhor do mundo: Queijo Minas da Casa da Vovó em Itapecerica.

- Você está certa, Queijo Minas da Casa da Vovó em Itapecerica é o melhor...mas e o beijo nessa história?

- Olha, também tem um tantão de beijo por aí, mas algum deles é gostoso que nem um queijo? Eu amo o vovô, papi, não me leve a mal. Mas aquele beijo de dentadura na minha bochecha parece até uma batida, que nem dos carrinhos bate-bate do parque de diversões...

- Hahaha

- E o Totó? Ele é cãozinho mais fofo do universo e região, mas você gosta de chegar em casa e ganhar um beijo todo babado dele? Hein? Hein?

- Ok, mas veja só...

- Eu não acabei, seu apressadinho! Sabe o Pietro?

- Aquele da sua sala, seu namoradinho?

- NÃO! Aquele da minha sala, que SONHA em ser meu é...namoradinho. Você acredita que ele teve "ousadinha" de..

- Ousadia.

- É, teve a ousadia também, de tentar me dar um beijo que nem você e a mamãe dão?

- De língu...

- Na boca! Acredita, papai?

- O QUE? ESSE FILHO DA...Valéria! Esse é o nome da mamãe dele, né? Bem, você está certa, Manu! Certíssima! Queijo minas da Casa da Vovó em Itapecerica é a coisa mais gostosa do mundo. Não acredite se algum menino te disser que um beijo é melhor, viu?

- Eu sei, papai! É por isso que eu digo que é melhor um queijo inteiro e só um pedaço de beijo.

- Isso mesmo, minha filha. Agora sim, boa noite! Um queijo e um pedaço de beijo.

- Você sempre quer estar certo, né?

- Hã?

- Tinha que me dar esse Beijo de Boa Noite na Testa mais gostoso do universo e região? Só pra provar que ele é melhor que um pedaço do Queijo Minas da Casa da Vovó em Itapecerica? Você venceu. Boa noite, papai! Um beijo e um pedaço de queijo.

Pólvora

Por Nina Rocha

Indiferente da velocidade em que o planeta rodasse, tudo parou. Não rodaria mais em torno do Sol, jamais faria uma outra órbita. Giraria agora apenas em seus olhos eufóricos, puro brilho vívido. As únicas curvas que interessavam eram as de seu cabelo encaracolado.

O peito suplicava calmaria. Tamanha proximidade quase clamava uma morte precoce, com todo aquele sentimento que não sabe ao certo o que é transbordando. E batia cada vez mais forte, em um ritmo cada vez mais intenso. Não seguia nenhum impulso. Sua mente era um concerto de emoções sem maestro.

Suas pernas de repente enfraquecem. Os joelhos falham. As palavras são traiçoeiras. Não dizem nada. Mas o silencio diz sempre muito. Surge um sorriso sem graça que some logo em seguida de um olhar daqueles de sugar a alma.

Os dedos percorrem o ombro nu. Enlaça os fios cor de cobre, emperra. Resolvem ficar ali. Os impulsos nervosos desnorteiam e já não se conhece nada. Não se diferenciava o tato do cheiro, e nem os olhos já fechados a impediam de sentir o riso que pintava-se com euforia em sua terna face. Não se diferenciava amor da paixão. Era uma explosão de sentidos. E sentiam como nunca. Só os lábios, trêmulos e secos, acabariam com aquela batalha travada sem um rei ou uma bomba.

Os rostos, já colados, finalmente entendiam. Concordavam em silêncio, e finalmente, cessavam o caos. E dançavam, num tom suave e sutil, uma dança de loucos que nenhum outro entenderia. Falavam sua própria língua. Indecifrável, inteligível.

Podia ser o inicio. Ou o fim. Mas era só mais um beijo.

Entre os lábios teus...

Por Tomás German

E de repente tudo se encaixa nesse quebra-cabeça desmontado do mundo... Busca-se a verdade sobre as coisas e só se pode dizer ou o local, ou a hora, ou a velocidade. Mas nada disso importa. Da incerteza vem a fé, e da fé vêm a existência da qual só se tem certeza se pensares.

Não.

Só se tem certeza se não pensares. Pensa-se muito no segundo seguinte e o seguinte ainda não existe, mas logo vai deixar de existir. Segundo após segundo, e queria que eles não se passassem nunca.

Sim.

É possível alcançar a eternidade sem morrer. Sente-se tudo, inclusive nada, também nada importa agora.

Dentro da escuridão mais clara e colorida que teus olhos fechados podem te mostrar, o tato são teus olhos, mas eles também estão fechados pela incerteza do momento.

Está quente como o sangue... vermelho como rosas... e o que sinto não pode ser traduzido em palavras.

Não há teorias quando simplesmente se vive... Não há palavras quando simplesmente existes...

Enfim a única certeza: de tua existência... Já que não me importa mais a minha, se há a tua...

E os tambores ritmados aceleram o batuque, dão ritmo aos nossos movimentos. Respiração e pulsação se misturam na única música que se pode ouvir...

E de repente... abro os olhos... faz-se tua face lentamente em minha frente... E o mundo que a pouco não existia, volta a existir como antes... Não sei o que sinto, o que senti e o que sentirei... fecham-se os olhos novamente...


O Beijo, a beijoca e o tempo

Por Laís Ferreira

"Penso/Que pena que seja pouco/Só penso pensamento/De cá, de lá/ Baile beijinho/Beijo beijoca/ O b da brincadeira/Brinquedo balbuciar, criar”. Em 1974, Tom Zé – uma das principais figuras do Tropicalismo brasileiro -, compôs “Conto de Fraldas”, música que se tornaria popular em 2007, sob a voz de Podé, vocalista da Banda Tia Nastácia.

Hino para vários jovens de duas gerações distintas – a setentista, marcada pelo último ano do governo Médici e a atual geração Y -, essa canção descreve quão doce pode ser o ato de beijar. Destaca-se, por exemplo, a suave “Que pena que seja pouco” – a qual descreve o efêmero prazer de um beijo. Apesar disso, ambos os cantores nos lembram: “penso”, reafirmando que, ainda assim, estaremos sempre procurando novos lábios para nos aventurar no ato de beijar.

Essa aventura está presente no cotidiano de vários jovens e é, inclusive, um meio de libertação para muitos. Nesse sentido, ressalva-se a fala do estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Vinícius Teles Córdova: “Para mim, beijar é a forma de transmitir que você tá afim de alguém e esvaziar o desejo sexual. É como uma preliminar”.

Recorrente na vida de vários jovens, a opinião de Vinícius transmite a realidade dos finais de semana de muitos estudantes. Sob esse viés, sobressai o aparecimento de várias festas temáticas que valorizam os lábios.


Destaca-se, por exemplo, a Festa do Bigode, tradição do curso de Comunicação Social da UFMG. Prevista para ser realizada no próximo 22 de Outubro, às 22h, o evento contará com
bandas covers de rock – Cash e Aeroplane -, além de um concurso para escolher o melhor bigode da noite. A escolha chama a atenção de vários estudantes, como se destaca a fala de Marina Dayrell , estudante do primeiro período de jornalismo da UFMG:

Apesar do bigode ser, a princípio, um artifício que se opõe à atração, nessa festa ele pode assumir um papel diferente: o de promover atenção pra boca pelo lado positivo. Já que praticamente todo mundo adere à essa moda na festa, o bigode fica padronizado - e quase 'esquecido' .Então, dessa forma, ele chama a atenção pra sensualidade da boca e dos lábios, sem promover a sensação de repulsa.­

A valorização da área do buço, porém, não é a única maneira de atrair as pessoas para o ato de beijar. Nesse contexto, destacam-se, principalmente os beijos destinados a outras pessoas queridas, cujos vínculos não se resumem a atração pelo sexo oposto. Segundo Patrícia Campos, estudante de Comunicação Social da UFMG, por exemplo, o ato de beijar “Pode ser uma demonstração de carinho, quando você gosta da pessoa. Nesse caso não digo nem no sentido romântico, mas assim como nós beijamos nossos amigos e família..”.

Dessa maneira, percebemos o quão amplo pode ser o ato de beijar e um dos seus principais objetivos:aproximar-se daqueles com que mantemos relações de carinho e carisma.

O objetivo de se aproximar do outro é, também, um pensamento recorrente para Lourenço Hamdon, estudante de direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Estagiário do programa Pólos Institucional de Cidadania – localizado na própria faculdade de direito da UFMG – Hamdom ver o beijo como “Ação que permite o maior contato com outro”. Essa busca por proximidade foi, inclusive, fator recorrente na arte mundial. Nesse contexto, salientam-se as obras de Auguste Rodin e Gustav Klimt, cujas produções descrevem, de modo belíssimo, o ato de beijar.

No primeiro caso, Auguste Rodin, em sua escultura “O Beijo”, constrói uma obra de arte que expressa grande intimidade entre um casal. Feita de mármore, a escultura branca apresenta a mulher nos braços de um homem cuja força e sensualidade - presentes nos braços que circulam as suas costas – transmitem a leveza de uma paixão de grande contato um do outro. Exposta, há dois anos, na Casa Fiat de Cultura – instituição cultural mantida pela Fiat Automóveis e localizada no bairro Belvedere –, essa obra é datada de 1886 e revela os principais traços do pintor.

Da mesma maneira, a pintura “O beijo”, de Klimt - produzida entre 1907 e 1908 -, expressa o potencial da obra simbolista do pintor vienense. Destacam-se, por exemplo, as cores e círculos que envolvem o casal em um momento de grande aproximação e suavidade, as quais transmitem grande beleza e lirismo em um curto espaço de tempo. Tempo, porém, que, tal como nos lembra Tom Zé, é extremamente suficiente para transmitir o prazer de ser beijado


Dois sozinhos no mundo

Estava sentada no restaurante ao lado do seu marido. Seu olhar se focava no semáforo à sua frente. Em que pensava? Nada. Era aquele olhar de quem apenas sente a angústia por algo que está por vir sem se dar conta do que realmente é. Estava aflita, sempre aflita. Vivia sempre no futuro, repassando em sua cabeça a agenda da semana e então, suspirava fundo.

Embaixo, seu cachorro tinha a coleira presa ao pé da mesa, deitado, educado bastante para choramingar restos da comida. Ao seu lado, o marido vestido com um suéter de tamanho e cor perfeitos. Ele olhava para a comida, levantava os olhos para o lado de fora e ingeria um pouco do mundo. Mastigavam pensamentos vagos, engoliam decisões bobas. O cachorro fechava e abria os olhos mansamente ninando o sono. A mulher tirava fios de cabelo do seu rosto extremamente limpo e branco. O marido consertava o relógio no pulso.

Suas bocas eram prisões perpétuas de sorrisos, carinhos, falas doces. Não que lhes faltasse inteligência, beleza e simpatia. Faltava-lhes aquilo que fisga as pessoas, aquilo que não é mensurável, mas que distingue e que aproxima. Faltava-lhes algo que saísse dos olhos e atingisse as ruas, faltava-lhes algo que saísse da boca e contaminasse as pessoas. Faltava-lhes que entrasse ar pelo nariz e este, atingido no interior, saísse sopro de vida.

Eram educados e pediam desculpas, eram simpáticos e diziam “bom te ver”, eram rotineiros e assistiam filmes de mãos dadas. Agiam por pensar e não por sentir. Não sentiam culpa por nada, não estavam contentes em ver ninguém, não se amavam em gestos. Porém, também não se orgulhavam do erro, não se incomodavam em ver as pessoas, não odiavam um ao outro. Agiam no piloto automático e eram no máximo agradáveis repetindo fórmulas de convivência que funcionavam.

Deram as últimas garfadas e num sinal de despedida, se beijaram. Invadiram um ao outro no beijo e sentiram a calma perturbadora em que ambos viviam e se identificavam. O cachorro abriu os olhos e voltou a fechá-los. O semáforo estava fechado e os carros enfileirados no trânsito. As pessoas entravam e saíam do restaurante. Tudo calmamente intocado.

Beijo

Para comemorar a volta do queridíssimo Sem Pauta, vamos contar com a ajuda dos trainees do Jornalismo e Redação. Quem será o vencedor do melhor post *tambores rufam*. Ah, já ia me esquecendo, o tema é Beijo. VALENDO!