Conversas de cara

Vou falar a verdade, calma mesmo é CD de sons da natureza. É massagem e Feng- shui. E pra falar mais a verdade ainda, estou muito estressado pra falar de calma. Ou com calma. Que seja! Sempre me disseram que me faltava isso. É essa correria, sabe, de quem trabalha, vive no urbano. Ou SUB-urbano, né meu amigo, porque do jeito que a coisa anda, não dá pra falar que isso é vida. O fato é que nem dando o duro que eu dou consigo ser... bem.

Tem bandido por aí conseguindo muito mais coisa do que eu. E tem uns outros bobos que protestam contra auxilio pra pobre. Esse pessoal precisa de abrir o olho, tá me entendendo? Essa classe média burra não vê nada nem na frente do nariz. Eu to na merda, mas, cara, quem não tá, sabe como? Nem os americano, nem a gringa toda tá podendo ficar de perninhas pro ar, muito menos eu. Fudido, latino-americano. Mestiço.

Tem muita coisa que rola solta por aí que eu queria denunciar, mas, parceiro, sobrevivencia tá nisso aí. Eu não me misturo com essa galera não, sabe qual é, mas também não dá pra bater de frente. O negócio tá na humildade e é nela que firmo meu sustento, sacou? Motoboy mesmo, trânsito dia todo, buzina, barulho, sabe, essas coisas que toda revista fala que é o que mais faz mal pro homem, eu aguento. É fácil. Eu peito e costuro e às vezes ainda dá tempo de fazer um extra pra presentear a mulherada. Não me amarrei ainda por falta de calma mesmo sabe, é muita mulher por aí, e muitas das safadas que, pô, vamo falar verdade né camarada, gasta menos. Mas são delas que eu gosto mesmo. Não é pelo barato não. Elas que são da boa, tipo beque sabe, que vem de fora e que te deixa alto por uns dois dias. É que toda mulher me acalma, parceiro... qualquer mulher me deixa pianinho. É por isso que ainda não me amarrei. Já imaginou, cara, o que que essa patroa ia fazer de mim? Tá doido, já trabalho o bastante, parceiro e esse trânsito não tá pra qualquer um.

Eu to mesmo é muito estressado hoje. Vou dar um rolé no centro, bora?


Ai, ai...

Neste clima nada ameno de final de semestre, falaremos da tão desejada calma



Verão de 2004

Meu pai sempre foi forte. Ele era o laço da nossa família na época: eu era uma sombra calada dentro de casa, minha mãe andava nervosa com sua rotina cansativa e minha irmã vivia as novidades da vida adolescente. Se não fosse meu pai, não poderia nos considerar uma família. Não parecia haver um elo, um algo em comum naquela época. Éramos três solitários juntos e papai.

Papai não parava. Estava sempre em movimento naquela época, mas nunca reclamava. Sua calma, seu sorriso e sua boa vontade não se encaixavam com as três crises em volta dele e nos irritávamos com a sua maneira leve de levar a vida. Ele me fritava ovos, me ajudava com as tarefas, me abraçava e queria saber de tudo o que se passava comigo. Éramos um cachorro e um gato que aprenderam a conviver, mas que simplesmente não eram da mesma espécie e não se davam bem. Minha irmã no seu quarto, eu no meu e mamãe no dela. Meu pai ia de quarto e quarto e nos pedia para reunirmos na sala. Tentávamos, mas parecia forçado. Éramos doce, salgado, azedo e amargo. Uma culinária do erro.

Um dia cheguei em casa após a aula. Não havia ninguém. Eram 19h e o sentimento era de peso muito grande. Acendi todas as luzes e, no entanto, a luz era escura. A água da pia pingava ritmada. As cigarras estavam mais caladas aquele dia, mas ainda cantavam algo leve e triste. Ventava e tudo estava incomodamente calmo. A impressão que eu tinha é que haviam milhões de almas escondidas pela casa com medo de fazerem barulho. Havia um mal disfarçado rondando a casa. Um mau-estar tomou conta de mim e me sentei junto a porta. Papai havia infartado, foi o que me disse mamãe cinco minutos depois por telefone.

O mês depois disso foi amargamente marcante. Minha mãe não podia parar de trabalhar, ainda mais que meu pai teve que abandoná-la. Minha irmã e eu mudamos para a casa da minha tia. O almoço era 11h e não 12h. Não se podia falar na mesa. Horário de dormir era as 21h e não se podia sair de noite. Éramos uma presença incômoda, estranha. Independente do que falávamos ou onde pisávamos, estávamos sempre rompendo bruscamente a harmonia do lar. Dois gritos num silêncio. Duas dores na paz.

Duas semanas depois, mamãe nos ligou marcando um almoço. Nunca nos amamos tanto! Eu, o calado, não queria parar de falar, contando tudo o que se passava comigo e perguntando como estava mamãe. Minha irmã se permitiu esquecer dela e procurar ajudar como fosse possível. Mamãe estava calma e sorria para a gente, nos servindo arroz e carinho. Havíamos formando uma banda desafinada, mas só naquele momento percebemos a força da nossa música. As nossas diferenças nos faziam pertencer. Éramos iguais na solidão e nos compreendíamos em silêncio.

Papai se curou e nosso câncer familiar também.

Da minha doença

Naquele inverno eu sucumbi. Já havia catalogado mentalmente quantas pessoas ao meu redor haviam ido embora. De vez. E percebi que eu estava bem próximo na linha. A cada um que caía, eu dizia: "Furou fila!"

Eu não sabia como um comentário sarcástico poderia transformar a vida da minha família. Hoje vejo minha viúva e comadres - todas dizem que era cedo demais. Não sei. Me sinto bem. Por onde vejo, é tudo claro e resumido. Uma doença me pegou pela mão e me trouxe até aqui. Teve prenúncio, sim. Mas existem sinais que passam desapercebidos por todos os homens. Eu não percebi. Embora o corpo doesse, a perna se queixasse, continuei sorridente, curioso e ativo como sempre. Foi só em setembro que eu fui me definhar. A doença já pedia atenção há algum tempo e, no meu entendimento, ela quis exclusividade.

A vida se tornou hospitaleira. Meus filhos lutaram, minha esposa: incansável. Foram alguns meses e vinte quilos a menos. Eu me deitei em uma cama que não mais me deixou levantar. Tomava sol, fazia mínimos exercícios e comia bem pouco. Nutrição apenas por máquina. Ninguém percebeu que minha alma já não mais dependia daquilo. Fui alimentado tão fortemente naqueles meses, que cumpri a cota. Me supri. Alimentei meu espírito com toda a luz dos meus descendentes. Como eu amo cada um deles. E fui correspondido, durante meu período cancerígeno. Afirmativamente intenso.

É uma pena que a doença tenha me pegado. De alguma forma, eu sabia de todo esse amor. Me constranjo em dizer "Obrigado!" para os meus familiares. Eu ainda poderia ter feito tanto. Só espero daqui, em suspensórios e nuvens, que eles cheguem a essa conclusão. A doença me deu conclusão pra minha jornada. Estou muito ciente e presente. Em todos os sentidos. Desencarnei do convívio, mas ainda estou a zelar. São meus, criados por mim, pedaço de mim.

Que Deus ilumine toda a minha linhagem e a que doença deles, caso tiverem, seja piedosa como a minha. Me tirou deles, mas deu demais deles para mim. Agora só me resta é saudade. Deles e minha. Que eles percebam que o corpo se esvai, o espírito não. É uma presença maior.

Eu fico com os meus versos de sempre: "Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá...". Espero que eles sejam propagados por meus netos e todos aqueles que me conheceram.


Cof, cof

Com este tempo, vovó recomendaria um agasalho. Em homenagem a ela, vamos falar de doenças essa semana.

O bacon está delicioso!

O futuro é uma coisa muito engraçada. Hoje me dei conta de que o futuro é onde nós estamos e pertencemos neste momento. Sim, o futuro é o presente. Pelo menos num passado, muitas vezes não muito longe, o que se vive hoje já se foi um futuro. Engraçado "já se foi um futuro", mas é verdade. Até o futuro fica passado no final das contas.

Bom, permita-me deixar este papel amarrotado um pouco mais liso. O que hoje me irritou foi porque finalmente percebi que vivo no futuro. É! Vivo em constante planejamento. O salgado que comerei em 5 minutos, a aula que assistirei de noite, a festa que irei amanhã, o que vou falar com o fulano na festa, a reação que ele provavelmente terá após eu falar o que estou prestes a falar, o horário que acordarei amanhã, a próxima linha desse texto. O planejamento me empolga, mas me frustra. Empolga-me porque estou sempre a espera de algo, me frustra porque nunca me satisfaço com os resultados. E mais uma vez volto a pensar no futuro: como irei contornar essa insatisfação? É uma comparação ridícula, mas é válida: é como se eu quisesse desesperadamente comer ovos mexidos, mas só tivesse bacon. A esperança de ter ovos mexidos no dia seguinte, porém, me convence a comer o bacon.

Foi então que me dei conta de que eu nunca estaria satisfeito e plenamente feliz: estava vivendo em função de algo que nem existe. Não lhe parecia loucura alguém dizer que ama uma pessoa imaginária? Notei-me louco. Quem sabe o bacon é bom? Quem sabe o bacon é até melhor que os avos mexidos? Melhor ainda: que tal bacon com ovos mexidos? Imagine você que me pus a pensar tudo isso numa mesa de bar com os meus amigos: enquanto contavam casos e riam, eu me perguntava: "que horas eu tenho que ir embora?", "como darei tchau sem ter que me justificar demais?", "quantas horas de sono dormirei para acordar amanhã 06h?", "será que vai ser boa a festa amanhã?". Epa, a festa era com os mesmo amigos! O bacon e o ovos eram a mesma coisa! Eu percebi ali que precisava mudar.

Olhei atentamente para todos da mesa, me lembrei como adorava cada um deles, ri internamente de cada tique e mania deles que acompanhei por tanto tempo e que ainda ali se faziam presente e senti uma ansiedade e um arrepio interno. Eu sentia ansiedade por algo que estava acontecendo e aquilo era extremamente novo e bom. Talvez tenha sido um dos poucos momentos em que realmente vivi o momento. Meu corpo não reconheceu muito bem aquela sensação e estranhamente respondeu com enorme frio na barriga e lágrimas nos olhos. Ri sinceramente do que diziam e soltei um "eu adoro vocês" engasgado e trêmulo. A reação foi um misto de emoção com estranhamento: eles não entendiam meu momento, mas não me importava isso.

Ai, ufa, consegui explicar! É isso, sabe? O futuro é agora. A festa de ontem é hoje, o futuro pão de queijo é agora e ele cheira bem, é macio e crocante ao mesmo tempo, o que eu estou falando sai de mim agora e posso acompanhar a reação deste fulano, na minha frente. O futuro é tão intenso e real! E o mais importante: ele é. Não será e nem já foi. E, poxa, não há nada melhor do que ser.

Tchau

despedir é um ato incompleto
quando me despeço não tem fim.
são abraços que não são últimos,
pensamentos distantes...
é dúvida.

fica uma tristezinha no fim.

não há lado na despedida.
quem parte quebra o outro,
quem fica também.
são bolhas de sabão que se estouram no ar...
mas com muita dor.

despedir nem sempre é ruim.
manifesta um crescer.
dar adeus, um aceno: pode ser um sorriso...
é feliz.
ir embora não quer dizer distância.
é um descolamento insatisfeito,
é um toque que não encontra peito.
mas a despedida nunca é o fim.

CRIA para sempre




A verdade é que sempre fui péssima em despedidas. O máximo que consigo esboçar é um tiau, daqueles bem tímidos, daqueles que podem ser interpretados como descaso, mas na verdade o que acontece é que eu simplesmente travo, e só depois, quando o momento de dizer adeus já passou que me dou conta da saudade que fica, da tristeza que estou sentindo.

E é mais ou menos por esse momento que estou passando agora ao sair da CRIA. Sei que o fim da gestão está próximo, sei que a hora de me despedir dessa EJ, na qual aprendi tanto, está chegando. Mas também sei que na hora de dizer adeus não conseguirei dizer nada, então pensei que talvez a melhor solução para o meu "bloqueio"seria me despedir por meio das palavras.

E é isso que farei agora. Há um ano fui efetivada na CRIA UFMG Jr., há um ano tive a oportunidade de conhecer pessoas maravilhosas, de aprender com elas, construir novas amizades, aceitar as diferenças e ter a experiência mais gratificante de todas, que não é a do crescimento profissional mas sim do crescimento pessoal. É na CRIA que temos a oportunidade de sermos chefes de nós mesmos, de aprender com nossos erros, com nossas tentativas, as vezes frustradas de melhoras, é aqui nessa pequena sala no terceiro andar da FAFICH que descobrimos até onde podemos chegar e ainda assim buscamos melhorar.

E o mais impressionante de tudo é que apesar da raiva que possamos passar aqui dentro, da sobrecarga de trabalho, no fim sentimos - ou pelo menos eu sinto - que você pode estar saindo da CRIA mas ela nunca sairá de você, ela faz parte de quem sou hoje. Não há como não amá-la, seja pelas pessoas ou pelo que ela representa, a CRIA é e sempre será uma ótima lembrança em cada um que fez parte de sua história.

Com amor

Uma coisa que não se podia negar a respeito de Fabiana é que ela vivia com e para o amor. Isso acontecia desde criança. Ela tinha um amor especial para cada um de seus coleguinhas de rua, amava cada amiguinho de sua sala. Voltava extasiada pela vida quando chegava da escola.

Cresceu e mudou pouca coisa. Formou-se em jornalismo e entregava-se de corpo e alma a todas as pautas que recebia. Era adorada por todos na redação e o chefe enxergava nela uma das futuras promessas daquele veículo. E ela dedicava sua vida para aquele lugar.

Como amar era algo comum para Fabiana, sua vida amorosa era cheia de altos e baixos. Quando ela amava alguém, amava pra valer. Cada término era um turbilhão de emoções descontroladas, mas não demorava nada e ela amava outro. Era um ciclo. Até que ela conheceu o Marcelo e o amou com tanta intensidade que eles se casaram.

Casaram cedo. Os dois ainda recém-formados, menos de dois anos de profissão. Casados e vivem no ambiente mais amoroso do mundo. Casaram-se na primavera, debaixo de muitas flores. E viviam o seu primeiro ano juntos muito bem. Foi quando ela teve um aneurisma e veio a falecer. Aquele ambiente todo construído na base do carinho ruiu e ele se viu sozinho. E o inverno só estava começando...