Pensando nas nuvens...

Quanto tempo passamos só andando pelas ruas, só pensando em nossas próprias vidas, apenas existindo? Não tiramos o tempo de refletir, de analisar, de tentar definir o que é realmente importante. Tudo o que passamos, a escola, o trabalho, a pressão que o mundo em si exerce sobre nós, tudo isso nos leva a abaixar cada vez mais a cabeça, a olhar cada vez mais para o chão e esquecer que acima de nossas cabeças há um céu que abriga todo tipo de possibilidade, fantasia e formas... E quando lembramos de olhar para cima, percebemos que há muito mais na vida além dos problemas e do nada cotidiano. Acima de nossas cabeças, há um azul infinito, há formas que se desenham e que nós desenhamos em nossas imaginações... Há nuvens, e elas  são receptáculos de sonhos, depósitos de vontades, representação de todo o possível... 

Devaneio

Deitado sobre o chão, ele fazia os braços de travesseiro, se punha a assistir ao grande espetáculo, às vezes até cinematográfico, daqueles borrões brancos na infinidade azul celeste. Elefantes, ursos, cobras... Carros, disco-voadores, sapatos... Tudo era possível ser visto no show bem encima dele.

Mas naquele dia houve algo inusitado...

A história se construía de forma lenta e pacata... bocejo dali, bocejo de lá... Mas ele vira. E de forma alucinante não poderia ter visto algo mais belo em toda a sua vida!

A imagem confundia seus sentidos, fez seu coração bater mais rápido e suas pernas perderem a força... Mas ele tinha certeza do que estava vendo.

Acima dele uma imagem humana branca feito nuvem, assim como era feita dela também. E não restava dúvida, aquela era a visão mais perfeita de toda a sua vida. Estava apaixonado... Mas pelo o que? Pela nuvem? Ou pelo ser humano formado em sua frente?

É certo que o amor é, dos sentimentos, o mais misterioso.... Ninguém sabe dizer o que é o amor. Mas certamente sabe dizer de que se ama... o que se ama... Ele não.

E agora me coloco até em dúvida se realmente sabemos do que e o que amamos... Se realmente temos alguma certeza sobre o universo do amor...

Na loucura em que ele se encontrava quis tocar a matéria amada, beijar o corpo branco flutuante... Mas uma distância infinita se punha como barreira... Acreditou: certamente o céu era o limite, como também era o limitador... Quis ter asas, mas não sabia voar... Quis ter hélices, mas poderia desfazer sua amada... Quis ter o poder de retirar a gravidade, mas seu amor poderia fugir de seus braços... Uma coisa tinha: sono. E então adormeceu...

Sonhou que se encontrava com a nuvem que mais se parecia a um ser humano... Dançavam a valsa da Bela e a Fera... Beijavam-se... Se amavam...

Mas os pingos da chuva vieram lhe molhar, e então acordou...

Viu de cima seu corpo boiando em uma imensidão azul aquático... Queria recuperar seus sentidos... nadar naquele mar sem ilhas e sem terras... E então lembrou que mesmo antes de deixar o corpo já não sentia mais nada além de amor...

Lá estava ele afogado no corpo da amada, que agora não era mais branco, mas sim azul feito o céu de onde saíra e onde ele estava. Mais uma vez quis seu corpo... Queria estar junto a amada... Intrigante que para os amantes não basta apenas sentir, é necessário ter... Mas assim ficariam: um sem ter o outro, apenas sentindo.

Eternos degraus

“É o fundo do poço/ É o fim do caminho/No rosto um desgosto/ É um pouco sozinho”, chia a vitrola velha, em pleno mês de dezembro.

Ele, no entanto, nada entende. Olha ao seu redor e não ver sequer uma marca das luzes e das cores típicas do verão. A televisão atormenta: “Mas vivemos em um país tropical, em que o período compreendido entre dezembro e março é tipicamente chuvoso”. Tipicamente, tipicamente...Entre dentes, resmunga: mas será esse vazio no peito também característico daqueles cidadãos brasileiros pequeninos? Será que esse é o vazio de toda vista do décimo andar?

Ah, a vista do décimo andar...Ele bem sabe caracterizá-la... Nesse 24 de dezembro, faz dez anos que, por causa de um surto de solidão e de arrogância, comprava o apartamento alcançável apenas por meio do elevador.. . Seu desejo: isolar a superioridade dos sorrisos alheios. Gritava: “jamais comprarei cortina, para que meus olhos sempre possam vigiar o que se passa no cotidiano alheio...Reinar sobre o cotidiano alheio”. E, realmente, nunca teve nenhum pano ou elegante persiana para impedi-lo de ver os vidros embaçados.

Porém, hoje, é em seus olhos que os vidros endureceram. Após dez anos de isolamento, as lágrimas são duras. E, ao encarar a janela, não consegue ver nada além de uma grande nuvem de uma neblina densa... E atípica, nada tropical, nada banalizada pelo telejornal...Assim, enquanto tenta decifrar a massa cinza que o impede de realizar a velha vigília da vida alheia, quase se emociona.. Pois, em um momento de angústia, relembra Mário Quintana: “As únicas coisas eternas são as nuvens”... E quase sorri ao perceber que somente agora, nas vésperas de seu sexagenário, alcança a compreensão do poetinha de sua juventude.

E sorri. Mas não um sorriso alegre ou doce. Apenas um enfim – e cansado -rasgo de compreensão.

Suspira: “Finalmente, a eternidade me alcança”.

Resignado, ele acende o último cigarro e vê um cinzeiro na janela embaçada. Finalmente, poderá descer as escadas para alcançar o térreo.

Olhe para o céu...

As últimas semanas em BH têm sido cheias de mudanças abruptas de tempo, de alternação entre sol e vento e chuva. Em meio a todo esse processo climático, está acontecendo também o encerramento de uma etapa, um semestre letivo, um ano. A abundância de informações, os diferentes contextos, a temperatura e o clima que está no ar, tudo deixa a percepção meio nublada, meio enevoada e daí vem o nosso tema. Essa semana falaremos desse conglomerado gasoso que é alvo de tantas metáforas, de tantos olhares, de tantas projeções: a nuvem.

Boas festas?

Mais um mês daqueles em que se perde o fio da meada em meio a tantas reflexões e nostalgias e vontades de seguir em frente e ao mesmo tempo manter tudo no lugar. Um tempo em que as pessoas se perguntam sobre o que verdadeiramente importa, se lembram de que a família é essencial e amizades verdadeiras e duradouras são fundamentais à vida. É aquele momento em que parece que se ofuscam os problemas e confusões em face à tanto espírito de gratidão e alegria... Só que não. O pensar excessivo também traz medo, incerteza, insegurança e relembra momentos mais felizes antes vividos que não voltarão. Ou inspira vontades de estar em ou viver qualquer outra realidade além da própria. Leva a devaneios alimentícios seríssimos, como alto consumo de chocolate e açúcares. Motiva a criação de metas, descobrimento de vontades a serem realizadas, impulsionando expectativas que nem sempre podem ser cumpridas. As circunstâncias te confinam a encarar tudo que se está vivendo e tudo que se queria viver, tudo isso com a presença fiel dos familiares que ao mesmo tempo aceitam e opinam, elogiam e alfinetam, contribuem e contradizem. É uma época bonita, sim, em que há muitos pensamentos bons circulando nas mentes das pessoas, em que se agradece por tudo que se tem e olha aos que têm menos com carinho e caridade. Mas porque não ser assim todo dia? Por mais que as festas e o fim de ano tragam coisas boas, boas intenções e espírito de felicidade, também trazem a tristeza característica de vivermos em um mundo movido pela valorização do comercial e da ideia Hallmark de felicidade natalina. Nesse fim de ano, você será mais vermelho, verde e bonança ou preto, branco e real?

Útero

Começa a soar o barulho ritmado do relógio imaginário da criança... tic-tac, tic-tac, tic-tac...

Ela chora, arrancaram-na do melhor lugar em que o ser humano pode estar no mundo... Diria mais: o melhor lugar em que o homem já esteve e vai estar na vida. Por esse lugar ele brigará até o resto de seus dias e verá que só se pode ocupa-lo quando ainda não é um ser humano...

“vai ser médico

engenheiro

acionista

rico...”

Rico. É a esperança... A maneira mágica de se alcançar mais uma vez aquele lugar apertado, úmido e vermelho... E para isso terá que abrir mão da humanidade. Escalar corpos de seres vivos, às vezes empilhando alguns que a pouco tirou a vida... Quando chegar ao topo, verá no espelho uma imagem que em nada se parece com a de um feto.

Mas agora o barulho do relógio se faz ainda mais amedrontador...

O homem volta a chorar com a certeza de que não foi o conforto uterino que alcançou, mas o de um sofá de couro humano...

E assim nasce outra criança sem corpo, sem matéria, mas já possui um nome: 2012...

Dizem que desse tipo de criança pode ser a última a nascer... Mas eu já vejo diferente...

Não veremos mais a de nome 1945, que se enfeitou com duas rosas brancas de sangue e sofrimento...

Não veremos mais a de nome 2011 que insiste em se parecer com as demais na forma preconceituosa, repressora e ademocrática...

Nasça 2012 e mostre que é possível pessoas diferentes ocupar um mesmo espaço... espaço esse que certamente será parecido com aquele de onde fomos arrancados antes de chorar pela primeira vez...



Aurora

Nesse incompleto vem e vai
Toca, tiroteia, traqueja
A balada dos anos de nunca mais
Cuja melodia o coração esbraveja.

Nossos rostos, porém, permanecem confusos
São reflexos dos calendários que ocupam velhas gavetas
E anunciam: teus medos e teus risos não têm fusos
Permanecem rentes ao teu peito após a oferta

do ano que virá.
Ele jamais terá sucesso
Em dizer que passos tu deverás tomar
Quando a maturidade obriga-te a aceitar o cedo

E renegar as noites longas
Sonoras sombras sutis serenas
Em que esquecias suas delongas
E brincavas de sereias.

Agora, é somente a surdez das luzes de natal a te guiar
Ecoam gritos suburbanos cuja doçura em pó
Ainda permanece escondida do tato de quem o doce não sabe apaziguar
O fel de seus heróicos imbróglios.

Porém, ouças: bom é o lugar que a nova hora inventa
E permanecer em tuas certezas é remendar meias cujas pegadas são inexistentes
Elas deixam somente um passado cujo sentido
Não pode guiar-te em um sol de datas novas

A nascer na aurora dos dias mudos
Cuja responsabilidade de cortejar um novo ano
É somente teatro do absurdo
Mas necessita de seu sorriso e de seu caráter humano.

Para o meu 2011

Não sei me despedir. Nunca soube. E por agora tenho que fazê-lo de três grandes partes de mim. Não vou sair da Cria, mas hoje é meu último dia como RH. Foi algo que por um ano me definiu. Me viu cair de tristeza e me fez florescer. Na assembleia em que fui eleita, fiz um discurso dizendo que eu queria cuidar da empresa, mas foi o contrário que aconteceu. A Cria que cuidou de mim. É necessário que agradeça muito por isso. Obrigada, Cria!

Saio também do Jornalismo e Redação - o núcleo que gestei junto com o Breno. O Jornalismo foi uma provação. Mas foi também um grande abraço. Um núcleo micro, mas que bastou. Os braços do Breno foram o bastante para que eu me sentisse acolhida e disposta a enfrentar tudo que nos propomos. Foi uma loucura, mas foi também delicioso. E é nesse ponto em que a despedida fica mais difícil.

Ao som de Something Good Can Work, esse texto tem chances de ficar ainda mais meloso. Mas não posso me conter quando se trata do Breno. Companheiro de RH, coordenador no Jornalismo, parceiro em ações extras e, ainda, amigo. Que os outros membros me desculpem, mas malemolência é fundamental. É preciso que eu me declare! Breno, você é puro lirismo e até nos dias cinzas foi a minha poesia. Despedir de você agora se torna ainda mais difícil, já que o que nos separará é muito maior do que uma porta com uma chave que você não vai ter mais. Sei que você estará imensamente feliz, mas isso não cura a saudade. É feio dizer isso? Que seja. Eu não posso não-sentir falta do meu ano de 2011 inteiro.

Tchau, Cria 2011. Espero que tenha sido tão bom pra você quanto foi pra mim.

Uma casa num hall

Esta é a última vez que me deparo com este espaço em branco aqui do Sem Pauta. Hoje eu estou meio assim, em branco. Com o marcador de texto piscando, nada é certo. Uma nova história começa agora, um infinito branco a ser preenchido e eu, autor de mim mesmo, não prevejo aonde a história irá.

Por tanto tempo falei de emoções na ficção e hoje, quando venho falar das minhas emoções, eu travo. Meu olho já está marejando, mas sei que devo fazer isso porque se tem algo que aprendi na minha vida é que é bom deixar a ficha cair e sofrer: é até questão de despedir e valorizar algo que foi bom.

Essa semana foi tudo "minha última vez". Tranquei a porta da CRIA hoje e aquele hábito tão rotineiro me apertou o coração. É engraçado como que pequenas coisas repetidas no nosso dia-a-dia fazem parte da gente, né? Abrir e fechar a porta da CRIA fazia parte da minha rotina e agora já não tenho mais chave. É o sentimento de perder um cachorro. Você vive e compartilha tanta vida com algo que quando acaba, uma parte sua fica lá também.

Meu sonho sempre foi passar no Vestibular. Passei. Faculdade começou como sinônimo de diversão. Dei-me conta que em algum momento eu deveria crescer profissionalmente e foi aí que escolhi a CRIA. É engraçado me reconhecer hoje; reconhecer a minha mudança. Hoje já tenho um rumo profissional melhor e acredito mais na minha própria força. Sinto que entrei uma criança deslumbrada e saio maduro, sei saber direito quando foi que isso aconteceu.

Ainda assim eu não consigo descrever a dimensão que tudo isso foi pra mim. Acho que meu ano de 2011 não tem muito pra contar se me proibirem de falar a palavra CRIA. Sentirei falta de dar as minhas reboladas (literais) no meio da empresa, de cantar Pocahontas, de abraçar amigos, de fazer piadas no BEC, de rir de manotas com clientes, de fazer reuniões e ver aquele seu amigo zuão fazendo uma linda peça. Enfim, sentirei falta de ver tão de perto e ajudar a construir a faceta não-hall dos meus colegas. É uma seriedade sorridente que tenho medo de não mais encontrar por aí.

Bom, obrigado CRIA por me fazer crescer. Obrigado CRIA por ser minha amiga em momentos de solidão. Obrigado CRIA por me fazer acreditar mais em mim. Obrigado CRIA por me acolher na Fafich. Obrigado por ser minha segunda casa. Obrigado por me deixar entrar sem bater e já dançando. Obrigado por te guardado meus choros, minha raivas e minhas outras mil facetas que descobri ter. Obrigado por ser meu casulo e me distrair quando a angustia batia. Obrigado por me ceder tantos amigos e momentos que a fotografia não capta.

Posso afirmar que tive uma empresa só com amigos e roteirizei bons momentos da história dela.

Fiquei um ano em uma estufa quente e agora é preciso enfrentar o inverno lá fora. Peter Pan quer ficar. Algo, porém, me diz que um pouco do calor daquela estufa ficou aqui dentro também.

P.S: Sem Pauta, desculpa ter dividido contigo esse mundão que vive aqui dentro. E obrigado por ser assim tão sem pauta, tão um pouco de tudo. Você me entendeu e eu te completei. Um dia marco um chá eu, você e o BEC.

Tudo tem seu fim...

E o tema dessa semana é Despedida. É o momento de Maria Lúcia e Breno darem adeus a este Sem Pauta que tanto os escutou sem reclamar

Entre Mariana e Daniel

Muitas pessoas não sabem até onde podem chegar. Não tomam conhecimento. Tem gente que passa por nós que não faz ideia do impacto que fez. Elas pensam que são varridas, enquanto suas pegadas permanecem no chão.

No entanto, pessoas que passam em branco sabem que o são. Os inapagáveis são seguros de si. Eles se afirmam e sem muito esforço se confirmam em nós como as linhas de nossa mão. Parece que sempre estiveram ai. Precisamos é de prestar mais atenção. Essas pessoas não precisam de ser amigos dos outros cujas vidas mudam. Basta que o suspiro exista.

Mariana suspirava há muito tempo. Não tinha sonhos exuberantes. Seu subconsciente dominava suas horas de descanso e os olhos fechados não eram seus companheiros. Tinha preguiça do cotidiano e trabalhava pouco a mente. Fugia de sua própria vontade e não aceitava seus instintos. Até que conheceu Daniel. Era destemido e quase enganava a todos com sua pose. Ele a reconheceu e a tomou como sua. Educou, protegeu e consumiu. Daniel cuidou de Mariana de uma maneira que ninguém mais conseguiu. Sem sequer tocá-la.

Ele era para Mariana um purgatório de intenções. Boas e más. Ela não compreendia nada disso, mas sentia que lhe fazia bem. Decidiu não racionalizar e se entregou àquilo. Aquele entre que mediava os dois.

Para Daniel estava tudo bem. Mariana nunca seria um fim.

O bando

Simão. Era como o chamavam. Tinha os olhos maliciosos e a fala mansa como água no verão. Seu olhar exalava o que era um misto de maldade e sedução. Simão era uma dor prazerosa. Com a tinta em mãos, estava na frente do bando - líder invejado e idolatrado. O vento atrapalhava seus cabelos desgrenhados em tempos de cabelos partidos e bem penteados. Era uma cena de faroeste urbano, num estilo de filme que criara para si mesmo. Era o ator principal do seu roteiro do improviso.

A década era a de 40 e a Savassi parecia como um dos seus moradores: quieta e elegante. Simão era um cão que passava por debaixo dos portões: genial, sem limites, odiado, admirado, passava pelas regras com maestria, gritando com o silêncio e desestruturando tudo o que era rígido na sociedade de Belo Horizonte.

- E então, Simão? Vamos ou não pichar a padaria?

Leu a placa "Padaria Savassi" e fez um silêncio proposital. Queria deixar claro que a decisão era dele e que falar-lhe era algo que deveria render profunda tensão. Lembrou-se do Senhor Hugo naquela manhã. "Deveria lhe vender cada pão deste pelo dobro do preço. O tanto de prejuízo que já não me causou!". Olhou para baixo e deixou sair um sorriso tímido de criança. "O que é isso, Senhor Hugo. Nunca lhe fiz nada". O senhor Hugo cedeu então ao cinismo e charme do jovem e deixou também escapar um sorriso carinhoso disfarçado de repreensão.

- Iremos ao cinema.

Em frente ao Cine Pathé, Simão ordenou que o mais novo do bando subisse e trocasse as letras do letreiro. "Você sabe o que escrever, certo?". O jovem subiu com o auxilio de outros, e receoso mas orgulhoso de ter sido escolhido, mudou os dizeres. Simão riu alto e isso foi o sinal para que todos os outros rissem também. Era um chefe que rendia alivio ao se divertir. Aproximou-se do rapaz que ria satisfeito, deu-lhe um riso sem dentes e colocou as mãos em seus ombros, parabenizando-o. Sem sequer mudar a expressão de seu rosto, deu um rápido e forte chute no estomago do rapaz. Caiu ao chão gritando a dor que vinha de sua barriga. Simão olhou a todos a sua volta com ódio, respirando fundo. Saiu andando em direção a sua casa abandonando o grupo. Cortava o vento e este, deixado para trás, atingia todo o bando com pavor, incredulidade e admiração.


No dia seguinte, 06h da manha, todos que passavam pela Avenida ouviam os gritos de ódio das freiras que mandavam as garotas do colégio fecharem imediatamente os olhos. Com as mãos na boca, escondiam o riso de aprovação. Elas sabiam que o bando pichava os muros, mas que também deixavam sua marca na rotina da Savassi. E agradeciam que água e sabão não pudessem desmanchar isso.

Te vejo por aí

Era uma vez, há não muitos quarteirões daqui, uma menina e um menino. Eles já se conheciam daquelas praças, daqueles lugares. Já se viram algumas vezes. Uma vez ele até acenou com a cabeça pra ela enquanto bebia vodka com energético em uma boate inferninho.

Ela não ligava muito pra esse menino. Nem sequer considerou aquele aceno. Ao ritmo da música, parecia so mais uma cabeça balançando. E bebendo, então. Não havia nada o que considerar. Era uma pessoa repetida da Savassi.

Ele tinha pra si que aquele gesto foi o seu sinal. Já tinha notado a repetição e em alguns momentos ébrios acreditava que se destino existia, era aquilo. Como podia ele ver a mesma menina quase todo fim de semana? Poderiam se dar muito bem... Mas ela não retribuiu.

Um dia, no alto da madrugada, quando as boates já atingiam seu repertório trash de fim de noite, ele viu ela. Com alguns mojitos na cabeça, se sentou ao lado dela, na carrocinha de lanches da esquina da Oi. No coração da Savassi - pulso ativo da zona sul. Ela estava comendo como quem já estava de ressaca e no meio de uma mordida olhou de rabo de olho para o rapaz. Ele balbuciou um oi. Era bem tímido, até bêbado. Ela limpou a boca engordurada com a manga da jaqueta e respondeu com um sorriso ainda um pouco de boca cheia. Engoliu com rapidez e perguntou: "Tudo bom?"

Ele se levantou e estendeu a mão a ela: "Posso te levar em casa? Eu pago o táxi." Como antiga conhecida que era, ela fez que sim e foi. Chegando na esquina de sua casa, se aproximou daquele agora homem, pegou em sua mão e cochichou bem baixinho: "Eu te conheço."

Se beijaram em despedida, com um toque muito amável e sutil de lábios.

"Te vejo semana que vem." - os dois.

60 Volts

Por Laís Ferreira

É dia de festa. A música, longínqua, entra pelo basculhante aberto.Coisa esquisita esse tal de Vanerão, essa permanência de costumes tão empoeirados...E no inverno, oras! Além, há ainda o eco: 

"Hoje tem marmelada? Tem sim senhor! Hoje tem goiabada? Tem sim senhor!.Hoje tem palhaçada, tem sim senhor", grita, também, a alegria de um circo invisível e de um palhaço deslocado.

Ela, porém, encara os dedos dos pés. Notando a unha que, há muito, encravou e impede-na de usar salto alto, não consegue levantar-se para aproveitar o aniversário da cidade. Aniversário. Rir-se. Quantos anos já se passaram desde o dia em que deixou Florianópolis  e veio refugiar-se na pequena cidade de Lajes. Na época, a juventude dizia-lhe: "capitais são urbes de solidão, apenas no interior encontra a paz e um sorriso aconchegante". Hoje, porém, nada lhe parece tão solitário quanto a janela sem cortina que a convida a olhar para a paisagem bucólica..

Olhar para a paisagem bucólica.Será que resolveria? Um dia, coxilhas traziam alegria - na memória, a imagem da mãe e os jardins de trás. Momentaneamente, ela tenta se levantar, quase tropeçando nas roupas jogadas no chão...

Não consegue. Decide, assim, permanecer quietinha e, quiçá, passar o batom vermelho que roubara da vizinha. É como batia o samba antigo: carmim de bocas alheias, carinho vem com o sono que chega.

Mas não vem, não vem. Cansada, ela luta contra os olhos que não param de lacrimejar... 

A luz da lâmpada rubi é fraca para aqueles cujas íris não foram amaciadas por tantas promessas vazias..Em seus olhos, porém, todo raio é tão forte quanto os relâmpagos que parecem - finalmente! - querer acabar com a alegria esquisita da cidadezinha..

Juntando as forças esguias, ela tenta fechar os olhos e, quiçá, alcançar a paz..



Inútil...



Após alguns minutos, ela se rende. Tateia uma nota fiscal e, sem grafites, utiliza o mesmo batom para compor as seguintes letras tortas:

"Janelas da alma, meus caros, não se fecham com peles."

A lâmpada queima-se.

Vidas em nublado

Iam as duas de mãos dadas pela cidade coberta em neve. A mãe andava com os olhos fixos na neve, num andar de folha ao vento, prosseguindo sem destino. A filha pequena brincava de pressionar a neve com os pés e ria, olhando empolgada para a mãe. Sentia-se um tanto quanto orgulhosa de si mesma em poder modificar com seus pequenos pés o mundo que lhe rondava. Suas pernas recebiam a alegria dela como uma música e sambavam e pulavam enquanto os olhos fitavam novamente a mãe, como se a convidando para mudar o mundo também. A verdade é que a mãe se achava velha demais para brincar disso.

Os ouvidos da mãe se empolgaram com outra coisa e vieram chamar os olhos desinteressados. Vinha um qualquer barulho ritmado do outro lado da rua e estranhamente se sentiu fisgada, como uma poça de água parada que recebe uma pequena gota, se estremecendo inteira. Puxou a filha pelas mãos e fui em direção à janela de onde vinha aquela música.

Tratava-se de um café. No centro, sentada, uma mulher vestida de preto e cabelos loiros cantando uma melodia. Era curvada e tinha os olhos fechados, como se não existisse, como se fosse uma simples materialização da música. A música fluía da garganta e atingia todo o local. Suas cordas vocais pareciam empoeiradas de tristeza e quando estremecidas pelo ritmo, contaminavam a canção e enxiam a vida de angústia. A garçonete parou o seu serviço e se recostou no balcão, testa franzida. No outro canto, um senhor deixava seu copo no ar e seu olhar fugia dos olhos - os deixando vagos - para ir para dentro de si, destrancando cofres, abrindo armários desorganizados.

Olhavam para o chão e refletiam. Se o chão era o sustento do corpo, qual seria o sustento da alma? Sem chão o corpo cai, mas sem sustento a alma parecia flutuar; distante, alheia. E a música a atingia e lhe indagava coisas. Estranho estar triste e nem perceber, pensavam.

Lá fora, na janela, a criança bufava e ria novamente em se ver embaçando a janela. Incentivou com o riso que a mãe fizesse o mesmo. O fez. Viu-se desaparecer. Com a manga da blusa, limpou a janela e novamente viu seu reflexo. Talvez a tristeza fosse essa baforada que nos faz desaparecer. E talvez também fosse o primeiro passo para brincar de mudar o mundo.

Lá dentro, a mais alta nota da música foi atingida até morrer no silêncio. A mãe não coube em si e deixou sair-se em lágrima. Atingida por duas destas, a filha olhou para cima.

- Está chovendo, mamãe?
- Não, é cá dentro mesmo.
- Por que?
- Ora, minha filha, só se chove porque já houve sol antes

(Des)Romantização

Por Ana Luiza


Olhos vagos. Respiração irregular. Coração palpitante e a mente vagando pela infinidade do mundo enquanto as mãos se aproximam. Se unem, num entrelaçamento perfeito dos dedos. Até mesmo essa ação parece tão íntima, tão cravejada de vontade e sentido que ela busca preencher com as respostas prontas que sempre teve em mente pra esse momento. Sorriem. Ela, de forma mais tímida, recatada, duvidando que a sorte - que geralmente lhe favorecia tão pouco - estivesse lhe concedendo agora esse momento. E ele de uma forma segura, como se tivesse realmente uma visão esclarecida de tudo o que queria, tentando esconder o quanto estava apavorado com as implicações de tudo aquilo. Sabe, naquele momento era tudo tão confuso, tanta incerteza e antecipação. Mas ambos sabiam que não havia mais volta. E haviam esperado por aquilo. Ele então deu um passo à frente. Abraçou-a pela cintura e ela, desprendendo suas mãos, entrelaçou seu pescoço. Olhou pra cima, certa de que seus olhos sussurrariam a ele os mais profundos segredos de sua alma e ele retribuiu um olhar confiante, de que tudo já havia sido dito. Agora faltava apenas a ação. Então se aproximaram, o momento antecedente foi carregado de eletricidade e expectativa que preencheu cada canto de seus seres ao roçar das bocas. Era uma entrega tão pura e verdadeira que só poderia resultar de duas pessoas tão completamente perdidas uma na outra. Era uma interação profunda, mentes, corpos, vontade e realização tudo ao mesmo tempo. E ambos se preencheram no outro, e foram um para o outro, daquele dia em diante.

- Sério?- a menina murmurou. - Não acredito que li o livro inteiro pra chegar a esse final melodramático de felizes para sempre. Vou ter que xingar muito no twitter, né. 

O fim é o beijo

São conversas que começam no cotidiano,
pequenas gotas de pecado -
milimetricamente dispersas nas letras.

Enche-se o peito,
abre-se o sorriso.
Feliz é aquele que sempre abre os lábios no meio do cinza.

Não é preciso que nada se consuma.
O pensamento basta...
e só.
O que é inquieto já aquece
o coração
a barriga
e o corpo inteiro.


- O beijo é uma forma de incêndio.
(só restarão cinzas e tudo se acabará)

Um beijo, um queijo

Por Júlia Amaral


- Então tchau, papai! Um queijo e um pedaço de beijo.

- Haha! Aiai, Manu, é um beijo e um pedaço de queijo!

- Nananinanão...é um queijo e um pedaço de beijo! Pode acreditar, papito. E eu digo com "popi"..."popri"...
- Propriedade, Manuela.

- É, digo com isso aí que você falou. Olha só quaaanto queijo gostoso tem por aí: queijo Coalho, Gorgonzola, Mussarela, Parmesão, queijo Prato, queijo Minas e o melhor do mundo: Queijo Minas da Casa da Vovó em Itapecerica.

- Você está certa, Queijo Minas da Casa da Vovó em Itapecerica é o melhor...mas e o beijo nessa história?

- Olha, também tem um tantão de beijo por aí, mas algum deles é gostoso que nem um queijo? Eu amo o vovô, papi, não me leve a mal. Mas aquele beijo de dentadura na minha bochecha parece até uma batida, que nem dos carrinhos bate-bate do parque de diversões...

- Hahaha

- E o Totó? Ele é cãozinho mais fofo do universo e região, mas você gosta de chegar em casa e ganhar um beijo todo babado dele? Hein? Hein?

- Ok, mas veja só...

- Eu não acabei, seu apressadinho! Sabe o Pietro?

- Aquele da sua sala, seu namoradinho?

- NÃO! Aquele da minha sala, que SONHA em ser meu é...namoradinho. Você acredita que ele teve "ousadinha" de..

- Ousadia.

- É, teve a ousadia também, de tentar me dar um beijo que nem você e a mamãe dão?

- De língu...

- Na boca! Acredita, papai?

- O QUE? ESSE FILHO DA...Valéria! Esse é o nome da mamãe dele, né? Bem, você está certa, Manu! Certíssima! Queijo minas da Casa da Vovó em Itapecerica é a coisa mais gostosa do mundo. Não acredite se algum menino te disser que um beijo é melhor, viu?

- Eu sei, papai! É por isso que eu digo que é melhor um queijo inteiro e só um pedaço de beijo.

- Isso mesmo, minha filha. Agora sim, boa noite! Um queijo e um pedaço de beijo.

- Você sempre quer estar certo, né?

- Hã?

- Tinha que me dar esse Beijo de Boa Noite na Testa mais gostoso do universo e região? Só pra provar que ele é melhor que um pedaço do Queijo Minas da Casa da Vovó em Itapecerica? Você venceu. Boa noite, papai! Um beijo e um pedaço de queijo.

Pólvora

Por Nina Rocha

Indiferente da velocidade em que o planeta rodasse, tudo parou. Não rodaria mais em torno do Sol, jamais faria uma outra órbita. Giraria agora apenas em seus olhos eufóricos, puro brilho vívido. As únicas curvas que interessavam eram as de seu cabelo encaracolado.

O peito suplicava calmaria. Tamanha proximidade quase clamava uma morte precoce, com todo aquele sentimento que não sabe ao certo o que é transbordando. E batia cada vez mais forte, em um ritmo cada vez mais intenso. Não seguia nenhum impulso. Sua mente era um concerto de emoções sem maestro.

Suas pernas de repente enfraquecem. Os joelhos falham. As palavras são traiçoeiras. Não dizem nada. Mas o silencio diz sempre muito. Surge um sorriso sem graça que some logo em seguida de um olhar daqueles de sugar a alma.

Os dedos percorrem o ombro nu. Enlaça os fios cor de cobre, emperra. Resolvem ficar ali. Os impulsos nervosos desnorteiam e já não se conhece nada. Não se diferenciava o tato do cheiro, e nem os olhos já fechados a impediam de sentir o riso que pintava-se com euforia em sua terna face. Não se diferenciava amor da paixão. Era uma explosão de sentidos. E sentiam como nunca. Só os lábios, trêmulos e secos, acabariam com aquela batalha travada sem um rei ou uma bomba.

Os rostos, já colados, finalmente entendiam. Concordavam em silêncio, e finalmente, cessavam o caos. E dançavam, num tom suave e sutil, uma dança de loucos que nenhum outro entenderia. Falavam sua própria língua. Indecifrável, inteligível.

Podia ser o inicio. Ou o fim. Mas era só mais um beijo.

Entre os lábios teus...

Por Tomás German

E de repente tudo se encaixa nesse quebra-cabeça desmontado do mundo... Busca-se a verdade sobre as coisas e só se pode dizer ou o local, ou a hora, ou a velocidade. Mas nada disso importa. Da incerteza vem a fé, e da fé vêm a existência da qual só se tem certeza se pensares.

Não.

Só se tem certeza se não pensares. Pensa-se muito no segundo seguinte e o seguinte ainda não existe, mas logo vai deixar de existir. Segundo após segundo, e queria que eles não se passassem nunca.

Sim.

É possível alcançar a eternidade sem morrer. Sente-se tudo, inclusive nada, também nada importa agora.

Dentro da escuridão mais clara e colorida que teus olhos fechados podem te mostrar, o tato são teus olhos, mas eles também estão fechados pela incerteza do momento.

Está quente como o sangue... vermelho como rosas... e o que sinto não pode ser traduzido em palavras.

Não há teorias quando simplesmente se vive... Não há palavras quando simplesmente existes...

Enfim a única certeza: de tua existência... Já que não me importa mais a minha, se há a tua...

E os tambores ritmados aceleram o batuque, dão ritmo aos nossos movimentos. Respiração e pulsação se misturam na única música que se pode ouvir...

E de repente... abro os olhos... faz-se tua face lentamente em minha frente... E o mundo que a pouco não existia, volta a existir como antes... Não sei o que sinto, o que senti e o que sentirei... fecham-se os olhos novamente...


O Beijo, a beijoca e o tempo

Por Laís Ferreira

"Penso/Que pena que seja pouco/Só penso pensamento/De cá, de lá/ Baile beijinho/Beijo beijoca/ O b da brincadeira/Brinquedo balbuciar, criar”. Em 1974, Tom Zé – uma das principais figuras do Tropicalismo brasileiro -, compôs “Conto de Fraldas”, música que se tornaria popular em 2007, sob a voz de Podé, vocalista da Banda Tia Nastácia.

Hino para vários jovens de duas gerações distintas – a setentista, marcada pelo último ano do governo Médici e a atual geração Y -, essa canção descreve quão doce pode ser o ato de beijar. Destaca-se, por exemplo, a suave “Que pena que seja pouco” – a qual descreve o efêmero prazer de um beijo. Apesar disso, ambos os cantores nos lembram: “penso”, reafirmando que, ainda assim, estaremos sempre procurando novos lábios para nos aventurar no ato de beijar.

Essa aventura está presente no cotidiano de vários jovens e é, inclusive, um meio de libertação para muitos. Nesse sentido, ressalva-se a fala do estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Vinícius Teles Córdova: “Para mim, beijar é a forma de transmitir que você tá afim de alguém e esvaziar o desejo sexual. É como uma preliminar”.

Recorrente na vida de vários jovens, a opinião de Vinícius transmite a realidade dos finais de semana de muitos estudantes. Sob esse viés, sobressai o aparecimento de várias festas temáticas que valorizam os lábios.


Destaca-se, por exemplo, a Festa do Bigode, tradição do curso de Comunicação Social da UFMG. Prevista para ser realizada no próximo 22 de Outubro, às 22h, o evento contará com
bandas covers de rock – Cash e Aeroplane -, além de um concurso para escolher o melhor bigode da noite. A escolha chama a atenção de vários estudantes, como se destaca a fala de Marina Dayrell , estudante do primeiro período de jornalismo da UFMG:

Apesar do bigode ser, a princípio, um artifício que se opõe à atração, nessa festa ele pode assumir um papel diferente: o de promover atenção pra boca pelo lado positivo. Já que praticamente todo mundo adere à essa moda na festa, o bigode fica padronizado - e quase 'esquecido' .Então, dessa forma, ele chama a atenção pra sensualidade da boca e dos lábios, sem promover a sensação de repulsa.­

A valorização da área do buço, porém, não é a única maneira de atrair as pessoas para o ato de beijar. Nesse contexto, destacam-se, principalmente os beijos destinados a outras pessoas queridas, cujos vínculos não se resumem a atração pelo sexo oposto. Segundo Patrícia Campos, estudante de Comunicação Social da UFMG, por exemplo, o ato de beijar “Pode ser uma demonstração de carinho, quando você gosta da pessoa. Nesse caso não digo nem no sentido romântico, mas assim como nós beijamos nossos amigos e família..”.

Dessa maneira, percebemos o quão amplo pode ser o ato de beijar e um dos seus principais objetivos:aproximar-se daqueles com que mantemos relações de carinho e carisma.

O objetivo de se aproximar do outro é, também, um pensamento recorrente para Lourenço Hamdon, estudante de direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Estagiário do programa Pólos Institucional de Cidadania – localizado na própria faculdade de direito da UFMG – Hamdom ver o beijo como “Ação que permite o maior contato com outro”. Essa busca por proximidade foi, inclusive, fator recorrente na arte mundial. Nesse contexto, salientam-se as obras de Auguste Rodin e Gustav Klimt, cujas produções descrevem, de modo belíssimo, o ato de beijar.

No primeiro caso, Auguste Rodin, em sua escultura “O Beijo”, constrói uma obra de arte que expressa grande intimidade entre um casal. Feita de mármore, a escultura branca apresenta a mulher nos braços de um homem cuja força e sensualidade - presentes nos braços que circulam as suas costas – transmitem a leveza de uma paixão de grande contato um do outro. Exposta, há dois anos, na Casa Fiat de Cultura – instituição cultural mantida pela Fiat Automóveis e localizada no bairro Belvedere –, essa obra é datada de 1886 e revela os principais traços do pintor.

Da mesma maneira, a pintura “O beijo”, de Klimt - produzida entre 1907 e 1908 -, expressa o potencial da obra simbolista do pintor vienense. Destacam-se, por exemplo, as cores e círculos que envolvem o casal em um momento de grande aproximação e suavidade, as quais transmitem grande beleza e lirismo em um curto espaço de tempo. Tempo, porém, que, tal como nos lembra Tom Zé, é extremamente suficiente para transmitir o prazer de ser beijado


Dois sozinhos no mundo

Estava sentada no restaurante ao lado do seu marido. Seu olhar se focava no semáforo à sua frente. Em que pensava? Nada. Era aquele olhar de quem apenas sente a angústia por algo que está por vir sem se dar conta do que realmente é. Estava aflita, sempre aflita. Vivia sempre no futuro, repassando em sua cabeça a agenda da semana e então, suspirava fundo.

Embaixo, seu cachorro tinha a coleira presa ao pé da mesa, deitado, educado bastante para choramingar restos da comida. Ao seu lado, o marido vestido com um suéter de tamanho e cor perfeitos. Ele olhava para a comida, levantava os olhos para o lado de fora e ingeria um pouco do mundo. Mastigavam pensamentos vagos, engoliam decisões bobas. O cachorro fechava e abria os olhos mansamente ninando o sono. A mulher tirava fios de cabelo do seu rosto extremamente limpo e branco. O marido consertava o relógio no pulso.

Suas bocas eram prisões perpétuas de sorrisos, carinhos, falas doces. Não que lhes faltasse inteligência, beleza e simpatia. Faltava-lhes aquilo que fisga as pessoas, aquilo que não é mensurável, mas que distingue e que aproxima. Faltava-lhes algo que saísse dos olhos e atingisse as ruas, faltava-lhes algo que saísse da boca e contaminasse as pessoas. Faltava-lhes que entrasse ar pelo nariz e este, atingido no interior, saísse sopro de vida.

Eram educados e pediam desculpas, eram simpáticos e diziam “bom te ver”, eram rotineiros e assistiam filmes de mãos dadas. Agiam por pensar e não por sentir. Não sentiam culpa por nada, não estavam contentes em ver ninguém, não se amavam em gestos. Porém, também não se orgulhavam do erro, não se incomodavam em ver as pessoas, não odiavam um ao outro. Agiam no piloto automático e eram no máximo agradáveis repetindo fórmulas de convivência que funcionavam.

Deram as últimas garfadas e num sinal de despedida, se beijaram. Invadiram um ao outro no beijo e sentiram a calma perturbadora em que ambos viviam e se identificavam. O cachorro abriu os olhos e voltou a fechá-los. O semáforo estava fechado e os carros enfileirados no trânsito. As pessoas entravam e saíam do restaurante. Tudo calmamente intocado.

Beijo

Para comemorar a volta do queridíssimo Sem Pauta, vamos contar com a ajuda dos trainees do Jornalismo e Redação. Quem será o vencedor do melhor post *tambores rufam*. Ah, já ia me esquecendo, o tema é Beijo. VALENDO!

Oi, tem alguém aí?

Depois de problemas técnicos, olha eu aqui de volta. Com endereço temporário, mas é só até descobrirem o que aconteceu com o meu antigo.

Sejam bem vindos de volta!

Virgínia Terra, Virginia Rio

Leve e pesada. Corria numa lentidão que machucava, formava e se reformava sobre si mesma e seguia em frente, sempre, sempre. Vivia sem saber para onde. Não havia início e não havia fim. Havia apenas um frequente agora que se remoldava em agora. Esta era a água do rio que se pôs a observar. Deitada sobre o mato e sentindo o abrigo da natureza, Virgínia olhava com olhos fascinados a água ir e ir e ir.

Olhou um pouco para mais perto de si e sentiu-se terra. Pesada, estagnada; milhares de partículas formando um só: conexão que vinha de desconexão. Sentia-se errada, insegura, indecisa e todas essas Vírginias deveriam se integrar em uma só. Um barranco em queda. Não conseguia sustentar mais nada. Nem a si. Como uma erosão, se desmontava e caía nela mesma.

Os matos que se agarravam tolamente à terra lhe lembravam Leonard, seu marido. Seguravam a terra e, ao mesmo tempo, só viviam se agarrados a ela. Mato é dependência e Leonard não poderia mais ser mato. Não mais. Mato é frágil e esperançoso. Mato se contenta com o seu pouco. Leonard não poderia ser mais mato, repetia em sua cabeça.

Respirou fundo e sabia que aquele ar que entrava nela seria uma das suas últimas ações. Aquilo agora não parecia motivo de pesar. Chegaria até a ser alívio. Viver era medo. Viver era ansiedade, era frio sem cobertor, barulho no escuro, olhar de repreensão, eternos segundos anteriores a uma explosão.

Viver para ela era sobretudo se constituir como uma unicidade e isto lhe pedia força bruta. Tinha fobia da vida. O entre um instante e o outro era preenchido por forte tensão. Ir do agora para o depois era percorrer a mais terrível das ansiedades. Já não conseguia caminhar junto ao tempo. Este lhe passava, lhe atropelava, mas covardemente lhe impedia de parar. Era, portanto, obrigada a contemplar o passar das coisas e sua própria não passagem. A vida ia de carruagem, Virgínia ia a pé.

A terra se desmanchava na água. Ia prazerosa, se fazia parte dela, se entregava, se repartia, cessava de ser só e inteiriça para ser água. Na beira do barraco, no ápice do desespero, a terra se jogava aliviada no rio pedindo apoio, padecendo.

Primeiro colocou os pés. Sem querer muito mais pensar e sem olhar em volta com pesar da vida, foi lentamente se deixando entrar no rio. As pedras nos bolsos não a deixariam retornar mais. Já totalmente mergulhada, fechou os olhos e se deixou ser só água. Como a terra, abdicou de sua identidade e de suas raízes. Era leve, calmo, fresco não ser um só. A sucessão dos agoras ali se fazia mansa como a própria água. Ia do nada ao nada sem qualquer esforço. Já não sabia se estava mais em vida, apenas seguia o ritmo das águas para um destino incerto e infinito. Isto era tranquilo e apenas. Talvez a vida fizesse sentido no final das contas: 70% água, 30% terra, 100% coexistência.


Medos...

Dizem que cada um tem o seu. Ou os seus. Nesta semana, não teremos medo de tocar nos mais obscuros assuntos...


Inimigo interno

Saiu da sala com o olhar baixo. Era como se não olhando para ninguém, achasse que ninguém estaria olhando para ele também. Dirigiu-se ao quadro de avisos e passou os olhou nos cartazes. Não que se interessasse, estava apenas passando o olho como se dissesse a todos a sua volta "não estou conversando com ninguém porque estou interessado em ler isso". Era tão difícil para ele fazer isso todos os dias: lhe causava palpitações no coração e o relógio parecia adorar multiplicar aqueles minutos.

Era terrível. Ele era mais magro, mais baixo e mais feio que todos os demais colegas da sexta série. Apesar dos olhares inventados direcionados para ele e das risadas que eram sobre uma piada mas que em sua cabeça eram sobre o seu jeito torto de andar, Augusto era o seu mais terrível crítico. Seu corpo magro para ele era esquelético, seu cabelo cacheado era crespo, ser baixo era ser anão e andar era se envergonhar.

Dirigiu-se ao bebedor e se pôs a beber água mesmo sem desejar. Tirou do bolso seu celular e foi até a opção despertador e ficou ativando e desativando o alarme fingindo estar digitando uma mensagem. Sua solidão precisava sempre de pequenas distrações para doer menos.

No final do corredor, se aproximava o grupo mais popular da sala: Ana, Luísa, Gabriel e Samuel. Vinham firmes e novamente Augusto abaixou os olhos. Queria tanto estar invisível! Eles materializavam tudo o que seria a felicidade para ele. Naquela idade, era difícil para ele compreender, mas eu vos digo que o sentimento estranho que lhe rondava era o de só poder viver sob aquele corpo e aquela realidade. Até quando o que nos define é o que somos ou o que queremos ser? A presença deles lhe perturbava. Já poderia imaginar os pensamentos de cada um deles em relação a ele. E eram terríveis. Porém, não sentia raiva. Concordava e sentia até vontade de pedir desculpas.

Inesperadamente, sentaram os quatro ao seu lado. Começou a suar e seus olhos quase saltavam das órbitas de tanto que se concentrava para olhar para baixo. "Augusto, por que passou o recreio aqui dentro", Samuel perguntou. Augusto abriu a boca para responder e estes seriam os poucos segundos em que cessaria a conversa consigo mesmo. E como era bom...!

POP

pop
Vai da arte até a medição da fama de alguém, passando, claro, pela música. O tema dessa semana é Pop


O monstro do .. WTF?

Esse post pode parecer picaretagem, mas assim que assisti esse vídeo, me veio uma onda de Katylene e bem, eu não resisti. Assistam e se divirtam. É muita arte pra um vídeo só.


Agora me conta o que mais te impressiona:

A) a bee de camisola e xuquinha
B) os belíssimos efeitos audiovisuais
C) o figurino digno do monstro
D) a trilha sonora
E) o fato de eles terem uma página própria, valorizando a produção artística do Jambalaia Building of Arts and Culture
F) ________________________________________________________________



Morte conjunta

Mamãe chegou com a notícia às 08h33 da manhã. "Seu avô morreu". A palavra "morte" se espalhou pela casa como um vento e adentrou todos os cômodos, todos os espaços, esbarrou em todas as poeiras. Vovô, que morava conosco, já não moraria mais. Bom, "morar" era só um dos verbos que a minha terceira-pessoa-do-singular-avô pararia de conjugar. Entre eles, o "viver".

Minha irmã e eu ficamos incrédulos, com o olhar mirado no chão. Algumas lágrimas começaram a banhar nossos olhos e fizemos o olhar arrepiante da morte, aquele que é seco e molhado. Nossa infância chorava, nossa jovialidade pedia controle.

Olhei para a parede oposta e enxerguei o seu armário. Ele guardava tudo o que podia nele, desde peões da infância até nossas fotos recentes do dia dos pais. Olhei rápido de volta: aquele armário agora me causava repulsa, medo, pesar. Muito pesar. "Você sabe que este armário me acompanha desde pequeno? Nele penduro minhas alegrias, desdobro dores, passo arrependimentos até ficarem lisos e guardo a vida", dizia ele pelo menos cinco vezes na semana. Agora me causava dor pensar nas tantas vezes que ria do que falava mais por compaixão do que pelo sentimento das suas palavras. Quis rir com ele de tudo agora. Rir do que ele quisesse falar. Rir por ele estar vivo.

Levantei da cama e percorri a casa. O sentimento de morte é todo muito estranho. Parece que cada pequena coisa absorve o acontecimento e morre um pouco. Minha-meio-morta-mãe cortava vagarosamente cenouras na cozinha para o almoço. A gordura salpicava mais baixo. O barulho da colher batendo na panela era mais espaçado. Minha-meio-morta-irmã calçava os sapatos sem nada dizer. Eu sentei no sofá e comecei a mexer nos meus cabelos longos. "Corta esse cabelo, Gustavo! Parece mulher, que coisa!", dizia seu lado conservador. Meu Deus, como tudo me lembrava ele agora. Levantei o olhar e me deparei com o armário de novo. Abaixei rápido, como se ele fosse alguém que me encarava. O vento era o mais barulhento de toda a casa e ele me pareceu a morte: vinha de repente sem saber de onde, ia para o indefinido e mexia com a gente, tocando os cabelos, as roupas, marejando os olhos. Ora muito forte, ora fraco.

Andei um pouco pela casa e notava um medo de encarar a morte de todos os meus familiares. Era como água no filtro: todos sabíamos que ela estava lá, mas ninguém a via. Sabíamos que vovô havia morrido, mas ninguém ousava falar sobre isso.

Era preciso que eu encarasse a morte. Era preciso que eu valorizasse sua vida e sentisse o pesar do seu fim. Era preciso ter mais algum contato com vovô para poder sentir por completo sua falta.

Dirigi-me ao quarto e abri o armário. O silêncio lá de dentro dizia "morte, morte, morte...". Adentrei o armário, sentei-me encolhido, e fechei a porta. Tudo escuro. O mundo lá fora parou de existir e o único real era o luto da vida de vovô ali dentro. Suas roupas, sua bola de futebol, seus brinquedos infantis, suas fotos, seu jornais, seu rádio e tudo o mais parecia realizar um velório particular. Não sou bobo, sabia que eram objetos inanimados, mas algo neles parecia haver potencializado a não-vidas deles. Talvez o que lhes cedia uma humanidade era o sentimento de vovô em relação a cada e hoje todos perdiam esse toque de humanidade. Lá a morte era encarada de frente e por algum motivo, eu me sentia despedindo dele. Era como se o abraçasse e dissesse "Eu te amo, vá em paz".

O mundo lá fora me acordou com um grito de minha mãe "O almoço está pronto.". Era preciso lavar minha mão antes que vovô entrasse no banheiro, pois quando ele entra, ele demor... ah!




E foi aí que me deparei com um dos piores lados da morte: você vai ao filtro certo de pegar a água, mas ao não ver nenhuma gota caindo, lembra-se que ele estava de fato vazio mais cedo. É só que você estava acostumado a sempre ter água...


Armário

Em "As Crônicas de Nárnia", ele levou os irmãos Susana, Lúcia, Edmundo e Pedro a um mundo totalmente novo. Vamos ver a que mundo ele nos leva aqui no Sem Pauta


A Lenda do Viúvo

Havia um homem alto e magro naquela cidade. Morava só e gostava de poucas pessoas. Era um pouco mau-humorado, mas talvez fosse porque tinha poucos amigos e assim, poucas pessoas para propagandarem o quão agradável ele era. As crianças imaginavam muito a cerca dele. Sua casa era pequena, branquinha e ele também tinha um jardim. Não tinha cachorro, mas era possível que tivesse um gato bem caseiro.

Um dia meu filho chegou em casa e me contou uma história muito curiosa sobre esse homem. As crianças do bairro diziam que ele era o Homem do Saco. Aquele famoso que muitos de nós tivemos medo na infância. Ele tinha uma barba bem farta, pode ser por isso. Durante o lanche, o menino foi me contando de pessoas que já o viram sair de casa a noite com uma trouxa nas costas. Outras já teriam ouvido o barulho de crianças dentro da casa. A vizinha confirmou que a casa tem um porão bem sombrio e úmido, bom para ser um calabouço das crianças malcriadas. Muitos casos foram repassados pela vizinhança. E ele sabia. De todos.

Seu nome era Emanuel. Era sozinho mesmo, como parecia. Não tinha gato, nem cachorro. Só mesmo um papagaio - Johnny. Johnny era muito esperto e, como o bom papagaio que era, imitava muito bem as falas e vozes das pessoas.

Um dia, enquanto Emanuel cuidava de seu jardim, começou a chuver. Chovia forte, pois era inverno e há muito tempo a água não caía. Ele rapidamente guardou suas coisas em uma bolsa de jardinagem e entrou. Eu olhando pela janela, chamei meu filho para ver. A rua começou a encher de água e não havia mais como evitá-lo. Seu jardim já estava submerso e já devia ter água dentro de casa. Fui correndo até lá, pois o medo das crianças era demais para conversar com Emanuel. Maior ainda para salvá-lo.

Entrei de supetão na casa de Emanuel. Peguei-o com uma corda na mão e com o nível da água cobrindo os tornozelos. Ele pareceu muito surpreso com a minha entrada e mais ainda com a aparição de uma pessoa. Ele largou a corda e veio andando em direção a mim. Enquanto isso Johnny gritava em um tom bastante agudo: "Papai, papai! A água tá subindo! Socorro, socorro!"

Emanuel enfiou Johnny dentro de seu casaco e fez com que o bichinho calasse o bico. Depois que levantamos os móveis e fomos para fora esperar que o estrago fosse feito, ele deu um forte suspiro. Como se tivesse emergindo. Johnny agora cantava "Brilha, brilha, estrelinha" e eu me perguntava onde aquele papagaio aprendeu uma ciranda.

Gracias a la vida!

Acordei em susto. Aquela tosse substituíra meu despertador há alguns anos e hoje não foi diferente. Tossi mais forte do que nunca: era preciso olhar logo o estado da minha doença. Tossi por cinco minutos até sentir forte vontade de vomitar, mas em alguns segundos a paz reinou em meus pulmões. Ufa! Senti-me leve de novo: forte furacão e então sol e calma.

Depois de acordado, tive um dia atípico, sabe? Não me senti no direito de trabalhar no meu quintal ou de fazer qualquer outra coisa. A única coisa que sentia era vontade de encher meus pulmões novos com a vida que eu havia construído. Encher meu coração de orgulho da casa que ergui, do jardim que plantei e me dediquei tanto tempo e da certeza que logo, logo meus filhos e minha esposa chegariam e me confirmariam que eu pertencia mesmo a tudo aquilo.

O sol batia na testa tão fresco, o vento passava pelo meu pé e até de andar eu lembrei então de agradecer. Era um silêncio bom e confortável em casa. Havia apenas um leve barulho de vida, daquele que é composto de gritos distantes, de pássaros, de folhas voando e da cadeira se adequando ao peso. Fechei os olhos e ouvi a vida. Ôh companheira boa eu tenho, pensei. E então a vida começou a me lembrar algumas coisas: os gritos de crianças me lembraram a infância de dificuldade não percebida, sabe? Daquela que só os anos mais tarde lhe mostrarão como você sofria, mas que na época, sem saber o que era não sofrer, você ria de pouca coisa e era feliz por rir. Lembrei de mamãe dura, que xingava e depois abraçava, de papai ausente, mas que me dava tanta segurança e até lembrei de ter rido de um pão de meu irmão que caíra no chão há tanto tempo atrás.

Quando me permito conversar com a vida, não paro. Lembrei da euforia do amor com minha esposa e da vontade de ser bonito para conquistá-la. Admirei-me dela: me ama ainda mesmo descalço e sem camisa. Nossa primeiro filho foi a vida que construímos juntos, depois veio José e Maria Rita. Deixei uma lágrima cair de orgulho de ter criado e colocado no mundo pessoas tão boas e únicas. Meu Deus, como sou abençoado!

O portão abriu-se leve e entraram minha esposa, os dois filhos e uma menina, provavelmente amiga de escola de Maria Rita. Minha esposa deu a mão para nosso filhos e adentrou a sala, sem me notar no quintal. Observei de longe pela janela os quatro sentados olhando para baixo. Certamente tinha ocorrido briga, o que era uma pena, pois depois de tanto agradecer, queria apenas exercer nosso amor familiar. Enquanto olhava, um calafrio muito forte percorreu apenas meu lado direito do corpo e olhei nessa direção. Como que por mágica, a garota que não conhecia estava do meu lado, olhando atentamente com seus olhos azuis. Um olhar que nunca mais quero ver na minha vida: um olhar penetrante e vazio, daquele que nada diz, mas te invade. Ela então caminhou até a sala e fui atrás dela, estranhando tudo o que ocorria.

Adentrei a sala e ninguém de minha família me olhou. A briga havia sido feia e todos se recusavam a me encarar. A garota, que parecia querer se comportar como uma intermediária daquela mal-estar, se dirigiu até a mesa, pegou uma faca e num ato absurdamente leve, riscou algo na mesa. Sua inocência no toque me hipnotizou a ponto de não conseguir impedir aquele estranho ser do seu mais estranho ainda ato.

A cena que se segue a seguir foi mais ou menos assim: minha esposa olhou primeiramente para a marca com olhar de peso e então este se transformou em leve desespero que comunicou a boca e esta, exagerada nas reações, berrou. Meus filhos deixaram transparecer em seus rostos um medo que eu nunca havia antes encontrado em vida. Todos se abraçaram e se comportavam como desesperados na porta do inferno: choravam, gritavam, se abraçavam.

Mais que depressa, corri até a mesa para entender o que se passava. Olhei para o risco. Um arrepio me percorreu todo o corpo e meu olho, em terror e incredulidade, se recusou a se levantar e contemplar o pandemônio que se instaurou em volta. A marca era um "x" e agora tudo fazia sentido: a garota era Dedé, morta há 50 anos e conhecida por acompanhar os mortos da cidade ao seu destino final. A confirmação do seu serviço era feita com um "x". Ela pegou na minha mão, me olhou com um olhar que abraça e beija. Eu havia morrido naquela manhã.

Pretérito do presente

Nestes tempos de tecnologia superando tecnologia e aparatos que não param de substituir nossos antigos celulares que contavam com o incrível dispositivo para tirar fotos, há gente "tecno-saudosista". É isso mesmo: há uma nova tendência de voltar a usar tecnologias antigas. Quer dizer, antigas não na linha do tempo, mas na linha dos acontecimentos.

A primeira é a antiga fita cassete. Dizer lado A e lado B está voltando a moda. É o que diz a Folha Ilustrada. Segundo o jornal, na Amazon.com são mais de 2.600 fitas disponíveis para comprar. Bandas como Foo Fighters e Pearl Jam, notando essa tendência, lançaram os novos discos também no formato. Por enquanto, a novidade parece atrair mais colecionadores e fãs extremistas.

Os preços, porém, são vastos quanto as fitas: enquanto a esquecida Whitney Houston saí por 4 reais, Radiohead com o disco "OK Computer" sai por 56 reais. Os Beatles, é claro, são líderes do preço alto: fitas cassetes deles chegam a 1.600 na loja virtual. Será que fazer a Jude e take a sad song and make it better funciona melhor com essa fita? Só pode!

Outra novidade também que vem ressurgindo é o disco de vinil. A moda vintage não para, gente. Em 2007, mais de 1 milhão de LP's foram vendidos e em 2009 acredita-se ter vendido cerca de 1,6 milhões. É preciso confessar que o requinte de se ouvir um vinil numa bela vitrola é bem maior do que num fone de ouvida, vá!

Bom, já o CD arranhou e só toca a valsa do adeus.

É engraçado que com tanta tecnologia saltando na nossa frente e que mal lançadas, já estão em estudo para melhorias, ocorra essa onde passadista. Por que será? Seria uma moda da valorização do passado? Apego? Medo do futuro? Ou seria uma maneira de dizer que o velho tem o seu charme e que não necessariamente, grandes companhias, precisamos de vocês modernizando excessivamente o nosso mundo? Bom, eu fico com a última.

Tecnologia

E o Sem Pauta essa semana fala sobre chip, Iphone, celular, nano-tecnoliga... O tema é tecnologia

Belo Horizonte, 10 de junho de 2011

Sabe, Gustavo, as vezes eu queria sem bem gorda, cheia de espinhas, com aparelho e só preocupada em estudar. Talvez isso não me desse aquele pingo de esperança no amor que sempre me faz sofrer por decepção.

Ontem percebi que estar ao seu lado tem me feito mais mal do que bem. Não sei se você já chegou a se apaixonar, mas se sim, deve saber como tudo fica melhor, como a comida fica mais saborosa, como o céu fica mais azul, como tudo parece mais fácil e como sorrir é algo tão natural quanto piscar. Seu amor me deu um combustível de vida que nunca senti antes e eu, pela primeira vez, amei viver! A melhor coisa do seu amor me ocorreu ontem, antes de tudo aquilo acontecer. Estava eu andando pela avenida em plena segunda-feira indo pra minha aula de matemática e, acredite você, eu não me cabia de felicidade. Dar passos me alegrava e toda a cidade parecia preenchida por uma nuvem transparente de ansiedade boa.

Mas ontem eu percebi que você não me quer, não é? Te ver com a minha melhor amiga foi arrancar todo o meu futuro tolo de uma vez em mim e eu fiquei a encarar o presente frio e me culpando por ser tão idiota, por achar que a gente ia dar certo. Imagine você: eu tenho vergonha de mim mesma e fico convivendo comigo o tempo todo. É patético, ridículo. E agora eu não consigo mais olhar na cara da Fernanda, mesmo sabendo que a pobre não sabia de nada. Ela me irrita. Ela suspira e eu tenho vontade de chutá-la inteira. O jeito que ele mastiga me faz querer gritar. O bom dia feliz que ela me dá eu finjo que eu não escuto. Talvez eu odeia mais a felicidade dela do que ela. Porque, afinal, essa felicidade era minha.

Quero ficar bem feia e quero ganhar a competição de física do colégio e me mudar para São Paulo. Não quero nunca mais te ver, nem a ela e nem mais sair de casa. Ela é fútil, sem graça e pegajosa. Eu seria a melhor namorada desse mundo, tenho certeza! Seria intensa, carinhosa, engraçada, madura e você nunca conseguiria ficar longe de mim. Eu seria o Deus da nossa vida e escreveria o melhor destino para ambos.

Não precisa responder, não precisa me procurar e me deixe sozinha. Jamais conseguirei te odiar, infelizmente. Nunca fui tão feliz e nunca vivi algo tão forte antes e devo a você. Felicidade inventiva e louca, mas eu senti. Enquanto isso eu espero um dia conseguir felicidades baseadas em fatos reais e planos realizados. Viver assim deve ser enlouquecedoramente gostoso e vou sobreviver com esperança nisso.

p.s: não precisa devolver nossa pulseira da amizade. quero ainda pulsar em seus pulsos =/

por CARPINEJAR

Carpinejar é um gaúcho, poeta, jornalista, cronista, arruaceiro, louco, pai, escritor, professor e algo fora do comum. Em seu blog, ele se define, sem se definir. "Escritor, jornalista e professor universitário, autor de dezessete livros, pai de dois filhos, um ouvinte declarado da chuva, um leitor apaixonado do sol. Quando conseguir se definir, deixará de ser poeta."

Ele fala muito bem de sentimentos e admite que não há assunto a não ser relacionamentos. Em uma entrevista publicada por ele mesmo em seu blog feita pela Veja, ele fala sobre o ciúme. Sensível, humano e realista.


Você também desconstrói o ciúme, e parece admirá-lo.
CARPINEJAR
- Isso mesmo! Primeiro, porque ele vai explodir no momento certo. A pior coisa que existe hoje é as pessoas terem vergonha do ciúme. Ele é tratado como doença. Você não vai dizer para o namorado que está com ciúme. Vai tentar sonegá-lo, escondê-lo, e ele só vai crescer. Se a mulher confessa que tem ciúme, o homem diz “Você não confia em mim?”. Assim, ele coloca em risco o relacionamento e não permite que você sinta ciúme. E eu acho que o ciúme é indispensável. Porque é a pessoa ciumenta que vai se importar com você, vai ser leal, escutar o que você diz. A gente pensa nos efeitos colaterais do ciúme, no barraco, no escândalo, mas a gente esquece o lado positivo, a cumplicidade, a intimidade, a preocupação. Ele só se torna incontrolável quando sufocado.

Você parece admirar não só a mulher que tem ciúmes, mas a que demonstra o que sente.
CARPINEJAR -Isso. Uma mulher passional, intensa. Eu parto do princípio de que a doença é a indiferença. Hoje, a gente tem medo do terrorismo amoroso. Então, a gente faz de tudo para ser controlado, equilibrado. Os casais dificilmente confessam seus gostos, opiniões, preconceitos. Há uma impessoalidade atávica. Um deixa que o outro o imagine, porque assim será muito melhor do que realmente é. É uma mania de grandeza, a gente espera que o outro nos corrija, nos aperfeiçoe. E a gente não fala com medo de desagradar. Eu sou favorável a falar, a aceitar manias, a lidar com elas.

Sua namorada, Cínthya, fez o blog “Matando Carpinejar” e escreveu um texto dizendo que não era ciumenta e você exigia isso dela. É isso mesmo?
CARPINEJAR - Eu acredito que ela vai chegar à pós-graduação do ciúme (risos). Eu acredito que isso do relacionamento é tocante, isso do quanto ele pode ser jocoso. Todo mundo fala “Eu te mato” no relacionamento. Ela decidiu me matar na imaginação. Ela é ótima. Um Leonardo da Vinci: é médica, psicoterapeuta, blogueira, poeta, cronista, desenha, dá a melhor ré do mundo, é capaz de consertar chuveiro, torneira, pia. Eu já dei vexame trocando pneu na frente dela.

Semana passada, o gaúcho de Caxias do Sul também deu as caras no Jô Soares. Dá uma olhadinha aqui e aqui.

Ontem ele esteve no Sempre um papo, no Palácio das Artes, lançando "Borralheiro", seu novo livro, e num abraço muito demorado e gostoso, ele me soltou essa: "Um erro com convicção é um acerto." E não seria isso, em alguma medida, o ciúme?

Ciúmes

Por que não eu? O que falta em mim? Que tal falarmos um pouco de ciúmes?

Conversa de boca fechada

Eu preciso de calma. Hoje ouvi uma música que sempre me deixou alegre e sentir saudades da minha alegria me fez chorar. Como cheguei no nível de sentir falta de alegria? Eu me dei conta hoje que não estou bem, sabe? Procurei na agenda do meu celular alguém que eu pudesse ligar e que viria correndo ao meu encontro. Não consegui achar ninguém. Não quero ninguém que diga "eu também" ou "e eu que...". Eu quero alguém que realmente se importe, que sinta o peso do meu pesar.

Eu não consigo dormir. Cansando e esgotado, meu coração palpita forte como um motor cujo combustível é o desespero. Há tanto para ser feito e eu estou estacionando no desmaio de alma. Eu acho que não vou aguentar e queria falar pra alguém. Tenho agido tão errado, tenho tratado as pessoas mal, tenho sido uma companhia que sempre reclama e erro, erro e erro.

Sempre tive disso. Mas sempre algo na frente me animava a continuar. O que tem pela frente agora? Eu não sei e tudo o que eu consigo prever é futuro igual a este presente. Por agora, tenho ficado mais calado. Pareço uma boneca russa. Tem muitos outros dentro de mim e eles são cada vez menores, angustiados, pequenos diante do mundo. Eu preciso correr, gritar, sumir, algo assim. E queria falar tudo isso com alguém. Mesmo.

Por enquanto, digo a você: eu mesmo. Aquele que antes era calmo, tranquilo e feliz. Afinal, com certeza é você a pessoa que mais se lamenta pelo o que estou me tornando.