Sobre procrastinação e o medo de tentar



Demorei muito para começar a escrever esse texto. Sempre tive dificuldades em fazer tarefas com prazo – como boa imediatista que sou, as ideias avulsas que surgem durante o espaço de tempo destinado à atividade parecem ser incrivelmente mais interessantes e, por isso, precisam ser concretizadas agora. Agora, e nem um segundo depois.
E as tarefas, que anteriormente contavam com longos e confortáveis prazos, tornam-se assustadoras e gritam, ou melhor, esgoelam na minha cara toda a minha procrastinação.
Procrastinar: transferir para outro dia ou deixar para depois; adiar, delongar, postergar, protrair.
Procrastinar: tudo o que mais fazemos e tudo que tentamos não fazer.
Diz que se arrepende do que fez aqueles que nunca se arrependeram de não terem feito nada. A agonia de não poder culpar ninguém além de si mesmo pelo trabalho não feito nos faz jurar que na próxima semana – agora sim! – tudo vai ser diferente. Até que ouvimos mais uma vez a abertura do Fantástico, que nos lembra, semana após semana, que tudo que fizemos no sábado e no domingo foi procrastinar.
Mas... e se pudéssemos achar os motivos pelos quais procrastinamos? E se os motivos fossem plausíveis, e não necessariamente relacionados à nossa falta de responsabilidade ou nosso desinteresse?
Lendo um artigo hoje de manhã, enquanto eu – pasmem – procrastinava, me surpreendi com o fato de que é mais provável que adiemos uma tarefa quando nos importamos em realizá-la bem.
Muito além da preguiça, então, a procrastinação ocorre quando ficamos preocupados com a possibilidade de não sermos bons o suficiente.
Repito: eu demorei muito para começar esse texto. O autojulgamento, pelo visto, encontrou no ato de adiar tarefas um grande aliado – é que, se você não começar, não há a possibilidade de dar errado. E é aí onde mora o problema.
Somos de uma geração que não aprendeu a falhar. Querer ser bom já é ultrapassado. Queremos ser os melhores. Tornamos “bom” o oposto de “perfeito” e nos automutilamos initerruptamente quando conseguimos apenas a medalha de prata, que, nesse caso, torna-se pior do que nem subir no pódio.
Que melhor saída, então, que não fazer nada? O medo de não ser “perfeito” o suficiente se traduz muito bem no adiamento em fazer algo. A procrastinação, mais do que o pior pesadelo do nosso lado responsável e moralista, é a barreira que criamos para evitar a auto decepção.
Postergar o que precisa ser feito é, ao mesmo tempo, autoproteção e autossabotagem. O prazo curto com que sempre acabamos para realizar algo nos fornece a desculpa perfeita para o trabalho que não nos satisfaz. Nossa mente conversa com ela mesma, tentando se desviar da cobrança: “mas ficou assim porque foi feito de última hora. Se tivesse mais tempo, certamente ficaria melhor. Ou até mesmo perfeito.”
Para parar de procrastinar, o sonho de uma geração resumido em uma frase, não basta simplesmente a força de vontade e a responsabilidade que achamos e cremos fielmente que nos falta. É identificar o que nos trava, é perceber a contradição de não fazer coisas maiores e melhores justamente pelo medo de não ser bom o suficiente. É imaginar tudo que pode ser feito de certo – e tudo que precisa ser feito de errado para chegar lá. É entender que o bom não precisa ser o oposto fantasmagórico e odioso do perfeito.

Além de nos permitir errar, talvez o que precisamos é de nos permitir tentar. Assim, talvez, entremos no mundo mágico da não procrastinação, onde os prazos não são curtos e não há nada de tão assustador na abertura do Fantástico. 

O mundo é dos espertos?





Hoje, durante uma típica reunião semanal de segunda-feira, soltei um ditado popular que escuto desde pequena como quem não queria nada: “Mané não quer, chico bafo come”.

Disse com a mesma naturalidade de que sempre ouvi dos meus pais. Minha surpresa foi quando todos começaram a rir e me encheram de questionamentos sobre ele. Aparentemente, esse “ditado” existe apenas na cidade natal de minha mãe. Esse pequeno momento fez com que a frase ficasse em minha cabeça o resto do dia. No ônibus, voltando da faculdade em pleno horário de pico, comecei a refletir olhando para o trânsito que parecia não ter fim. 

Esse ditado parece ter sido retirado de uma lição de moral daquelas fábulas que lemos quando crianças. Muitas vezes podemos deixar de aproveitar oportunidades que nos surgem por insegurança e medo de errar, mas eu posso garantir que quase ninguém tem cem por cento de segurança quando se joga em uma ocasião nova. A diferença sutil entre o “Mané” e o “Chico Bafo” está na coragem. Coragem de fazer mesmo com todo o medo e a insegurança, de colocar a cara a tapa e saber que está tudo bem errar às vezes. 

Aquele ditado (dessa vez, ditado de verdade) diz que o mundo é dos espertos. Mas, já que hoje estou para inventar, digo que o mundo é dos Chico Bafos.

Arraial da Creche Bom Pastor: amar é realmente simples



Aconteceu no último sábado (07) a festa junina da Creche Bom Pastor, um evento que reúne muitas famílias e um público variado que vai desde crianças até adultos. O “arraial”, que é feito anualmente, faz parte de um conjunto de festas pensadas para arrecadar fundos e, principalmente, para a integração das crianças, como são chamados os internos da instituição. De acordo com uma das fundadoras do local, Eleusa Maria D’Valle, a festa é uma tradição de quase 40 anos.